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365 forte

Sem antídoto conhecido.

Sem antídoto conhecido.

10
Set13

Destruir o ensino superior público. Primeiro ato.

Cláudio Carvalho

O Ministro da Educação e Ciência Nuno Crato e o Secretário de Estado do Ensino Superior José Ferreira Gomes começaram a ouvir as instituições de ensino superior, no sentido de discutir a organização da rede de ensino superior. Nuno Crato, no seguimento dos resultados da primeira fase de acesso ao ensino superior, terá afirmado aos órgãos de comunicação social:

 

«É necessário uma reestruturação da rede, que tem de ser feita em colaboração com as instituições de ensino superior. Existem cursos que não têm procura e as instituições têm de se adaptar a isso. Uma das medidas que estamos a tomar, e que será útil para os politécnicos, é a criação dos cursos superiores especializados que vão corresponder a uma das necessidades de Portugal, que são técnicos superiores médios.»

 

É do mais puro bom senso, reorganizar a rede de ensino superior, só não se compreende que Crato e companhia queiram resolver o problema da oferta formativa e da escassez de procura por determinados ciclos de estudos ou instituições, reduzindo a qualidade da oferta formativa (criando os tais cursos superiores especializados) e suportando-se, quase unicamente, nos dados do acesso ao ensino superior.

 

 

Neste aspeto, saliente-se que será impossível de suportar a suposta vontade política do executivo em reindustrializar o país, de apostar no setor primário e de querer criar um ambiente propício à iniciativa empresarial e à I&D+i. É que baseando-nos nos dados da primeira fase de acesso do concurso nacional deste ano:

- A área da agricultura, silvicultura e pescas é a que tem menor taxa de ocupação de vagas e é a quarta com menor número de colocados.

- As indústrias transformadoras apresentam a terceira pior taxa e é a quinta área com menor número de colocados.

- A informática tem uma taxa de colocados inferior a 50%.

- A área das ciências empresariais é a segunda com mais vagas sobrantes.

 

Depois existem, por exemplo, compromissos internacionais a assumir como a estratégia Europa 2020, em que Portugal se comprometeu com o objetivo de alcançar a meta de 40% de graduados entre os 30 e os 34 anos. A estratégia de Crato assenta, na verdade, na redução ao invés da reorientação e reorganização formativa. Adicionalmente, importa frisar que tal estratégia não pode ser assumida sem uma concertação interministerial e um amplo debate aberto à opinião pública, em que envolva, no mínimo, o poder político local e regional, estudantes, investigadores, docentes e gestores do ensino superior e do sistema científico e tecnológico.

07
Set13

No ensino superior, o mundo mudou em 509 dias...

Cláudio Carvalho

Atente-se ao extrato de uma apresentação de José Ferreira Gomes - que viria a suceder a João Queiró, este ano, no cargo de Secretário de Estado do Ensino Superior - a 14 de abril de 2012, na Covilhã. Os primeiros três slides aqui apresentados fazem um retrato do "estado da arte", em que José Ferreira Gomes comprova, claramente, a redução abrupta do financiamento público afeto ao ensino superior português e compara-o com os países parceiros da OCDE e da UE. No quarto slide, Ferreira Gomes afirma, sob análise normativa, que (futuras) reduções no financiamento público se traduzirão em perdas de qualidade.

Hoje, o atual Secretário de Estado de Ensino Superior tem opinião diferente ou, pelo menos, afirma-o publicamente sem que nisso acredite. O Público noticia a sua intervenção, também na Covilhã, mas 509 dias volvidos da sua apresentação anterior (i.e. a 5 de setembro):
Destaque-se esta tirada: «As instituições têm de se adaptar, mas estou convicto de que é possível fazê-lo e manter, ou até melhorar, a qualidade do ensino prestado”, afirmou.»
Nada de surpreendente, portanto. Um velho hábito deste Governo. O que hoje é verdade, amanhã é mentira. Tudo é dito e desdito. Tudo é e será volátil. Mas o mundo certamente terá mudado em 509 dias...
«As circunstâncias são o dilema sempre novo, ante o qual temos de nos decidir. Mas quem decide é o nosso carácter.»
- Ortega y Gasset

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