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365 forte

Sem antídoto conhecido.

Sem antídoto conhecido.

31
Dez13

Antes de acabar o ano...

David Crisóstomo

Após o desafio do Sérgio Lavos e com a ajuda duma sondagem caseira, aqui está a minha lista de palavras e expressões cujo significado foi adulterado em 2013 neste nosso portugal:

 

Irrevogável
Acto de dissimulação
Vergar
120 mil
Estabilidade
Consenso
Reforma do Estado
Juro cumprir a Constituição
Cisma
Linha vermelha
Extremista
Apelo à violência
Radical
Protectorado

Novo ciclo
Sentido de Estado
Rigor
Consolidação orçamental
Social-democrata
Regresso aos mercados
Cautelar
Ética na austeridade
Guião
Problema de comunicação
Bibliografia
1640
Desculpas diplomáticas
Sustentável
Incorrecção factual
Exigência
Forjado
Credibilidade
Salvação nacional
Carrascos
Escavar
Razões técnicas
Coerência
Esquerdas
Palhaço
Fronteira
Solidariedade
Soberania
Independente
Selecção natural
Coiso
Sociedade civil

Oposição
Podridão
Briefing

Deslealdade
Masoquismo

 

Venham as novas palavras de 2014!

 

31
Jan13

Impura Reestruturação

David Crisóstomo

 

Maria Luís Albuquerque, Secretária de Estado do Tesouro deu uma entrevista ao Jornal de Negócios no dia a seguir ao 'regresso aos mercados'.  Foi uma longa entrevista, onde foram abordados vários assuntos, incluindo a questão do prolongamento dos prazos dos empréstimos do MEEF (Mecanismo Europeu de Estabilidade Financeira) e do FEEF (Fundo Europeu de Estabilidade Financeira) ao Estado Português.

E foi criativa: 

 

Como é que explica que não estamos perante uma reestruturação da dívida ou um novo programa?

 

(...) Reestruturação pressupõe alteração de condições. A alteração de maturidades é uma mudança de condições. Na pureza dos termos técnicos, é uma reestruturação. Mas como a expressão ‘reestruturação’ passou a ter uma conotação negativa, que implica perda para o investidor, é importante salientar que não é disso que se trata. Porque os nossos credores não vão perder nada. Continuamos a pagar. Aliás, um credor até gosta que a dívida dure muito tempo porque vai recebendo juros, desde que não tenha dúvidas que vai receber o capital no final do prazo. É uma solução pacífica que vamos fazer com os credores privados, através de operações de troca de dívida, e com os oficiais se assim for decidido.

 

Ou seja, permitam-me:

 

O prolongamento dos prazos tem as características duma restruturação? Tem.

Altera os prazos de pagamento da divida? Sim.
Afecta credores? Sim.
Modifica o pagamento dos empréstimos do Estado Português? Sim.
É uma reestruturação? Não.
Porquê? Porque não gostamos da conotação da palavra.

 

Se eu fosse um investidor financeiro, um ser dos 'mercados', não acharia este pensamento muito inteligente. Concluiria aliás que estaríamos talvez perante um governo de pouca confiança, com pouca credibilidade.
A Secretária de Estado do Tesouro da República Portuguesa acha que prolongar prazos de empréstimos não é uma reestruturação. Ignora certamente que cerca de 68% das reestruturações de divida pública feitas nos últimos 37 anos limitaram-se exclusivamente a alterações na maturidade dos empréstimos (Sovereign Defaults: The Price of Haircuts). Acha que esta acção do Estado Português é coisa que agradaria a qualquer credor, em que toda a gente fica satisfeita, um win-win. 

 

E ficamos nisto. O ministro das Finanças disse outrora que não mentia, não enganava, não ludibriava.
Parece que o governo a que pertence apenas aldraba.

 

(recomenda-se também vivamente a leitura da crónica no jornal I do Pedro Nuno Santos, que me chegou às mãos via o Nuno Oliveira)

 

P.S. - Queria que a minha primeira posta neste blogue fosse algo mais desenvolvido, mas face a esta beleza linguística não resisti. Aproveito para agradecer o convite que me foi endereçado pelos agora meus pares de escrita, todos muito mais brilhantes do que eu. É claramente uma honra ser um dos 'fortes' e procurarei estar à altura da toxicidade da casa. 
«As circunstâncias são o dilema sempre novo, ante o qual temos de nos decidir. Mas quem decide é o nosso carácter.»
- Ortega y Gasset

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