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365 forte

Sem antídoto conhecido.

Sem antídoto conhecido.

19
Mai15

Escolher os melhores de nós

Sérgio Lavos

Para que serve uma eleição? De acordo com cerca de quarenta por cento dos votantes, para nada. Os que, por uma razão ou por outra, por preguiça ou por militância, por falta de disponibilidade ou por um sentido de cidadania enviesado, escolhem não ir depositar o seu voto em dia de plebiscito. Mas a abstenção não é uma escolha igual às outras, não é como preferir ir à praia em vez de ir ao cinema. Não votar tem um preço. Decisivo, grave, essencial.

Pensemos por exemplo em Cavaco Silva, o presidente da República mais impopular da história da democracia portuguesa. Em 2011, foi eleito com 52.95% dos votos depositados. Mas a abstenção chegou aos 53%. Na prática, Cavaco Silva pode ocupar o mais alto cargo da nação apenas com o voto de 23% dos eleitores. A legitimidade formal da sua eleição é inegável. Mas a verdade é que o formalismo democrático não ilude o facto de que apenas uma minoria escolheu votar Cavaco. Talvez por isso a sua taxa de popularidade, aferida em sondagens, partiu de uma base baixa e foi caindo ao longo de cinco penosos anos. Aos que decidiram não ir votar juntam-se os que foram e não votaram nele. Os 77% de eleitores que não se reviam em Cavaco têm assim vindo a sentir na pele o peso de um presidente que nunca esteve à altura do cargo que temporariamente ocupa. Os que escolheram ir e votar noutros candidatos podem sempre dizer que a culpa não é deles. E quem não foi, quem ficou em casa, o que pode dizer em seu favor?

A abstenção não ocupa lugares na Assembleia da República. Não toma decisões, não legisla, não decide. Os votos que não chegam a acontecer transformam-se em votos nos outros partidos e, com o nosso sistema eleitoral (baseado no método de Hondt), os partidos mais votados estão em vantagem. A abstenção favorece apenas os partidos grandes e enfraquece o debate democrático, contribuindo para o pensamento único. A diversidade política e a emergência de alternativas exigem participação e cidadania e dispensam a alienação e a anomia.

Como escreve Platão n’A República: “o preço a pagar pela não participação na política é podermos ser governados pelos piores”. Quem envereda pela via da abstenção (uma negação da escolha democrática) corre esse risco.

 

(Texto publicado inicialmente no LIVRE/Tempo de Avançar.)

16
Mai14

Quem com ferros mata, com ferros morre

mariana pessoa

Num país em que os códigos deontológicos fossem levados à letra, o Dr. Joaquim Grave (veterinário e ganadeiro), depois das pérolas que bolsou no "Prós e Contras" da passada 2ª feira, seria - no mínimo - alvo de um inquérito. Entre variadíssimas pérolas, há uma preocupante, na medida em que se revestiu de cientificidade por parte de um veterinário: "O animal tem dor mas não tem sofrimento".


Perante isto, resta o trabalho ingrato de combater o obscurantismo disfarçado de ciência. A tarefa é hercúlea, mas bom, sabemos que os avanços civilizacionais são penosos e demoram tempo. Exigem, também, assertividade, pedagogia e não destemperos exacerbados, o que francamente não é a regra - de ambos os lados - numa discussão que pode ser apaixonada sem se pautar pelo insulto.


Aqui se pode constatar a falácia do que foi afirmado, a propósito da dor/sofrimento:

 

"A dor e o sofrimento são características biológicas em animais que evoluíram ao longo de centenas de milhões de anos e estão presentes em praticamente todo o reino animal através do processo de seleção natural. Isto porque a dor e o sofrimento têm um papel fundamental na sobrevivência dos animais ao informá-los sobre o que devem evitar. A dor, em particular, avisa o animal que tem de evitar estímulos específicos (ex. fogo). Para este efeito, o animal tem recetores de dor e uma memória que o ajudam a recordar o que causou a dor. O sofrimento tem a mesma função, mas em vez de informar o animal sobre um estímulo a evitar, informa sobre uma situação a evitar. A ciência comprova que todos os mamíferos possuem capacidade de sentir dor e sofrimento.[1]"

 

"As arenas são de facto “arenas” (ou “círculos”) para que o touro não possa encontrar um canto que lhe permita proteger-se dos ataques e são circulares para que, depois de algumas voltas, o animal não consiga identificar e voltar ao local por onde entrou. Tendo em conta este design, sem pontos de fuga, a resposta mais comum do touro não é tentar escapar, mas sim tentar remover o atacante com os seus cornos. Este é um comportamento que pode ser visto em muitos herbívoros quando estão a ser atacados por predadores naturais ou pessoas.12 Contudo, por vezes assiste-se a tentativas de fuga quando o touro tenta trepar as traves da praça.
As investidas do touro não devem ser interpretadas como um ataque, mas como uma forma de eliminar os atacantes (a defesa) para evitar uma situação adversa. Consequentemente, o ataque de touros numa praça é por si só um claro indicador comportamental de sofrimento.[21]

 

Mais aqui.

[1] Marc Bekoff. The emotional Lives of animals. Califórnia, USA: New world library. 2007

[12] Temple Grandin. Genetics and behaviour of domestic animals. Temple Gradin. 1997

[21] Jordi Casamitjana. El sufrimiento de los toros en espectáculos taurinos; la perspectiva de um etólogo. CAS International. 2008

 

21
Jan13

Deve ser por isso, então

mariana pessoa

"FMI admite mais cortes na saúde e educação"

 

A mais recente edição de Education Indicators in Focus, da OCDE, avança com um estudo sobre os benefícios sociais da educação.

 

- Há uma associação clara entre nível de escolaridade e esperança média de vida (uma diferença a favor dos maiores níveis de escolaridade, que pode ir até 8 anos em média);

 

- Sujeitos com níveis mais elevados de escolaridade apresentam maior participação cívica em termos de voto, voluntariado e interesse político;

 

Deve ser por isso, então, que o Governo (perdão, FMI) quer cortar mais na educação. É um '2 em 1' muito útil: i) as pessoas morrem mais cedo, gastam menos dinheiro do Estado e ii) interessam-se menos, são menos vigilantes e mais conformistas em relação às medidas que são implementadas.

 

É a chamada ética na austeridade.

«As circunstâncias são o dilema sempre novo, ante o qual temos de nos decidir. Mas quem decide é o nosso carácter.»
- Ortega y Gasset

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