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365 forte

Sem antídoto conhecido.

Sem antídoto conhecido.

23
Jul14

Para Isilda, com amor (ou como é fácil ser desonesto)

mariana pessoa

Manchete do Washington Post: "Children of same-sex couples are happier and healthier than peers, research shows"

 

Título do artigo científico que serviu de base ao artigo no Washington Post: "Parent-reported measures of child health and wellbeing in same-sex parent families: a cross-sectional survey".

 

Veja-se a diferença de tom (shame on you, Washington Post).

 

Conclusão do artigo em causa: "Australian children with same-sex attracted parents score higher than population samples on a number of parent-reported measures of child health. Perceived stigma is negatively associated with mental health. Through improved awareness of stigma these findings play an important role in health policy, improving child health outcomes."

 

Ainda assim, era fácil ser desonesto e dizer que não só os filhos de casais do mesmo sexo não são prejudicados na sua educação por não serem educados por uma mãe e por um pai, como aparentemente têm vantagens.

 

Há que ter honestidade e perceber que, mesmo chegando à conclusão que as crianças com pais do mesmo sexo desta amostra apresentam valores mais elevados de comportamento geral, saúde e coesão familiar, há que ter em consideração que as mesmas são, neste estudo em particular, caracterizadas por um elevado nível de educação e de rendimento económico. Ora este pequeno senão pode levar a implicações interpretativas: o rendimento económico interfere, naturalmente, na saúde e igualmente no comportamento e na coesão familiar. Afinal o que está a criar o impacto?

 

No entanto, aposto singelo contra dobrado que, se um estudo destes desse umas parangonas jeitosas à team Isilda, o salssifré a que já não teríamos assistido...

 

16
Mai13

Famílias

David Crisóstomo

 

São debatidos e votados amanhã de manhã na Assembleia da República quatro projetos de lei que abordam a temática da adopção por casais do mesmo sexo:

 

  • Projeto de Lei 278/XII - Consagra a possibilidade de co-adoção pelo cônjuge ou unido de facto do mesmo sexo e procede à 23.ª alteração ao Código do Registo Civil. (PS)
  • Projeto de Lei 392/XII - Eliminação da impossibilidade legal de adoção por casais do mesmo sexo primeira alteração à Lei n.º 9/2010, de 31 de maio e segunda alteração à Lei n.º 7/2001, de 11 de maio (BE)
  • Projeto de Lei 393/XII - Altera o Código do Registo Civil, tendo em conta a procriação medicamente assistida, a adoção e o apadrinhamento civil por casais do mesmo sexo. (BE)
  • Projeto de Lei 412/XII - Alarga as famílias com capacidade de adoção, alterando a Lei nº 9/2010, de 31 de maio e a Lei nº 7/2001, de 11 de maio. (PEV)

 

De todos, o diploma apresentado pelos deputados do Partido Socialista é o menos abrangente, pois aborda somente a questão da co-adopção; é  também aquele cuja aprovação é tida como sendo mais provável. E tendo em conta a sua simplicidade e o recente acórdão do Tribunal Europeu dos Direitos do Homem, será uma vergonha para o órgão legislativo nacional se o projeto do PS for chumbado. O PCP anunciou que aprovaria a iniciativa socialista e que se absteria nos diplomas do BE e do PEV. O PSD, num momento de visão puramente retrógrada e desajustada da realidade, declarou que apesar de dar liberdade de voto aos seus deputados, indicar-lhes-á que rejeitem os quatro projectos. "O CDS é contra" clarificou o deputado e fabricante de poções Ribeiro e Castro, persistindo na tradicional posição centrista de atrasado mental nas questões dos direitos dos cidadãos.

No Dia Internacional contra a Homofobia tentar-se-á mais uma vez combater este secular preconceito, que perturba e interfere na vida familiar de cerca de 23 mil crianças portuguesas que são educadas em famílias cuja lei nacional teima em não reconhecer. Esperemos que a sensatez e respeito pela igualdade acabem amanhã por prevalecer.

 

18
Fev13

Fraturas

David Crisóstomo

 

Não acho que Portugal seja um pais intolerante. Tenho dificuldade em aceitar que, em comparação com o resto do mundo, se possa afirmar que vivemos num pais xenófobo, racista ou extremista. Aliás, mesmo quando comparada com as suas congéneres europeias a sociedade portuguesa está longe de ser das mais intolerantes (basta olhar para a quantidade de partidos de extrema-direita que por essa União saltitam, para o nível do debate sobre o casamento do mesmo sexo em França, para a situação dos ciganos em Itália ou para as barbaridades ditas por parlamentares e governantes em Budapeste, Bucareste, Berna ou Belgrado). Acredito que vivemos numa sociedade imperfeita que caminha num ritmo calmo mas constante para um pensamento progressista de aceitação do 'outro' e da 'diferença' (cristianismo em estado puro, mas enfim, não quero tirar o spotlight à Santa Sé, eles que se entretenham com os mistérios da fé sobre se Bento XVI deixa ou não de ser Bento, deixa ou não de ter imunidade diplomática, deixa ou não de ser 'Santidade' - deve ser mais importante, estou certo, ámen nisso).

  

Mas é uma outra questão que aqui me traz. Existe, como em qualquer parte do mundo, forças que contestam esta evolução e/ou os seus objectivos. Num contexto de debate democrático, numa sociedade pensante, essas forças expõem os seus argumentos e a sua oposição. Nada mais normal. É saudável até. Todos temos a nossa visão do mundo. Todavia meus senhores, a falha da república portuguesa no seu 103º ano de existência é esta: nós não estamos em contexto de debate democrático. Não minha gente, a sociedade portuguesa não está com capacidade plena de pensamento. Nenhum país com 16,9% da sua população activa desempregada, com mais de 10 mil das suas crianças com fome quando chegam à escola, com mais de 65 mil dos seus cidadãos a quererem abandonar o pais, com 19,6% dos seus nacionais a viverem abaixo do limiar da pobreza e com outros 2,6 milhões em risco de exclusão social pode conseguir debater com clarividência seja o que for que não esteja relacionado com o tema fulcral da nação: a sobrevivência, presente e futura. As pessoas têm medo de não conseguir pagar a casa, de não conseguir dar uma infância feliz aos filhos, de continuar a depender eternamente duns pais idosos, de nunca parar de trabalhar, de não ter trabalho. O país tem medo. Medo duma escuridão, cuja a antítese teima em não se vislumbrar ao fundo do metafórico túnel. Túnel esse que assim parece para muitos não ter fim.

 

Em Portugal não há condições para se debater seriamente nada que não esteja relacionado com a urgência social duma sociedade em empobrecimento. É esta a lusa realidade. E é nesta realidade que muitos se aproveitam para forçar a rejeição ou o retorno ao 'antigamente'. Pois em Portugal o 'antigamente' é uma palavra com bom karma, boa sonoridade. O 'no antigamente é que era bom'. Logo, iluminadas criaturas tem tentado aproveitar-se do estado de apneia da sociedade portuguesa para reclamar um bíblico regresso às origens. Foi disso exemplo a formosa petição que quer Defender o Futuro, apelando às mentalidades do Passado. Nessa petição, seres como João César das Neves ou Isilda Pegado clamam pela mudança da lei do divórcio e pela revogação do casamento entre pessoas do mesmo sexo, vociferam contra a Educação Sexual e a lei da mudança de sexo, brandam por alterações no financiamento ao ensino particular e cooperativo e na reprodução medicamente assistida. E apelam ao governo mais vil da democracia portuguesa que os ajude nessa divina tarefa.

E a história devia acabar aqui. Não acaba. Porque, sendo dotado duma desonestidade e insensibilidade singelas, este governo ouve esse apelo dos 'bons costumes' e, simpatizando com o discurso da moralidade pura, pisca-lhes o todo-poderoso olho legislativo: "No PSD, o conteúdo da petição foi recebido com agrado, já que lança no debate público e político “temas importantes” para a sociedade. “A petição merece a nossa concordância já que também apoiamos o aumento de políticas de apoio à família” afirmou Nuno Reis, coordenador do grupo parlamentar da Comissão de Saúde". O ex-partido das feiras, da lavoura e dos contribuintes também recebeu a petição com parlamentares pulos de apreço fraterno. Só boas noticias: temas do governo anterior, conservadorismos, patrocinados pela Santa Madre Igreja, polémicos e - ouro sobre azul - numa petição? Obra do Espírito Santo, sem dúvida. 

 

Que a direita portuguesa (já perdi o politicamente correcto 'esta' - a outra direita, que consta que existe, está na sua quase totalidade completamente tumular; se existe mesmo, que dê sinais de vida se faz favor, mande uma pomba ou assim) via nesta crise uma magnânima oportunidade para 'refundar' a economia nacional, desmantelar o chatarrão do Estado Social e maravilharmo-nos com esse fantástico mundo novo da concorrência com os níveis salariais do Bangladesh não era novidade alguma. Agora que pretendia através deste caos social 'razoavelmente em linha' regredir-nos as mentalidades, reacender fogueiras e fissuras morais e dar voz e palanque a fundamentalistas religiosos, eram coisas que eu rezava para que não acontecessem. Pegado e César das Neves sabem muito bem que o governo adora estas coisas 'fraturantes' (adjectivo mais parvo já agora). E crêem que a sociedade está desgastada demais para defender todos estes avanços no campo da igualdade (esse valor cristão, ignorado todos os dias). E aproveitam-se disso, com todo o desplante e a mesquinhez, querendo apagar a última meia-década do passado nacional, voltando tudo ao 'como deve de ser'. E desenganem-se aqueles que pensam que esta estratégia é uma especificidade endémica de sacristães do obscurantismo. Vasco Graça Moura não se cala com a sua defesa da honra das desoladas consoantes sem som, pois já compreendeu a oportunidade d'oiro que pode ter em mãos. E outros casos por ai haverá, sendo o caso das chamadas drogas legais ou as maiores restrições ao consumo de bebidas alcoólicas exemplos frescos de discussões descontextualizadas, que além entrarem na retórica direitista do 'ai o Sócrates fez/concordava com isso?', ainda têm o brinde de pôr os Prós & Contras deste mundo a entreter a populaça - pr'ela não ter que pensar muito na razão de não poder mais uma vez pagar todas as facturas no final do mês.

 

O Governo tem fé que tudo isto passe no parlamento em razoável mezzo-piano. Afinal se Relvas não caiu, porque deverá o Governo temer? As pessoas têm fome e quem tem fome pouco pensa.

 

Preparemo-nos: se este bando de charlatães cumprir a legislatura até ao fim, ameaçamo-nos a não só ficar com uma economia moribunda, como a ter um resultado dum referendo popular completamente desprezado e espezinhado, direitos constitucionais ignorados, conceitos republicanos postos em causa. Preparemo-nos. Deus queira que eu esteja enganado. 

 

«As circunstâncias são o dilema sempre novo, ante o qual temos de nos decidir. Mas quem decide é o nosso carácter.»
- Ortega y Gasset

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