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365 forte

Sem antídoto conhecido.

Sem antídoto conhecido.

08
Jan16

o problema Marcelo

João Gaspar

«Yeah, but no, but yeah, but no.» [Vicky Pollard]

 

 O recente debate entre Marcelo Rebelo de Sousa e Sampaio da Nóvoa, entre outras virtudes, terá tido o mérito de fazer cair dois mitos: Marcelo é uma espécie de Cavaco versão 2.0 e Marcelo é uma pessoa inteligente.


Marcelo não é um Cavaco que ri nem um Cavaco a cores. Percebe-se que para os adversários políticos essa colagem ao Presidente da República menos querido da democracia seja fundamental no discurso de campanha. E, claro, a relação de proximidade política, ideológica e, menos relevante, pessoal, existe e deve ser sempre tida em conta. Mas Marcelo não é nenhum Cavaco. Isso queria ele. Cavaco é um dos políticos mais habilidosos (na dupla acepção da palavra), mesquinhos e reaccionários da história recente de Portugal. Marcelo, por muito que comungue de posições retrógradas nomeadamente nos costumes, é só um pateta políticamente pouco acima de zero. Para passar de beato intriguista a sacana mesquinho ainda tem que comer muita vichysoise.

 

Cavaco passou décadas a fingir que não era político. Marcelo tenta agora fingir que não é mau político. Mas é este o grande problema: Marcelo é um político. Mas dos maus.


No debate com Sampaio da Nóvoa, Rebelo de Sousa cometeu um erro de principiante: desvalorizou o adversário. Tentou reduzir-lhe a sua dimensão política com dois argumentos principais:
1. Sampaio da Nóvoa não tem experiência política;
2. Sampaio da Nóvoa não tem participação cívica mediática.


Ora, mais do que saber se Sampaio da Nóvoa é atacável por este flanco ou não, esta é uma estratégia destinada à derrota. Se Marcelo não conseguir provar estes dois pontos, perde o debate. Se Marcelo conseguir provar estes dois pontos, eles tornam-se irrelevantes porque no debate de ideias e na discussão acesa, uma pessoa sem experiência política e sem intervenção mediática conseguiu entalar o auto e heteroproclamado distinto professor de Direito.
Ir a jogo com dois argumentos tão fracos e sem plano B (ainda tentou desesperadamente esbracejar, recorrendo ao populismo mais reles ao pôr em causa os custos da campanha de Sampaio da Nóvoa), independentemente do resultado, revelam a falta de preparação política e de inteligência. Não ter defesa possível para os constantes e óbvios ataques às suas contradições, revelam que Marcelo não esperava um confronto, que não vai para além da conversa simpática e perguntas mais ou menos cómodas de jornalistas. Ironicamente, foi Marcelo que se viu atraiçoado pela sua escassa e insuficiente dimensão política.

 

O problema não é Marcelo ter tido posições contraditórias ao longo dos anos.  O problema nem é sequer Marcelo ser capaz de defender tudo e o seu contrário com a mesma convicção. O problema é Marcelo ser capaz de defender tudo e o seu contrário com a mesma falta de convicção. Arriscamo-nos a ter como Presidente da República o professor Marcelo e o professor olecraM.

 

É fácil parecermos muito inteligentes se formos os únicos na sala. Marcelo foi construindo uma imagem de comentador perspicaz, abrilhantado por sorrisos e olhares cúmplices com os pivots, em homilia semanal, sem contraditório. Em debate com quem não se limita a sorrir e acenar simpaticamente e discute política sem rodeios, Marcelo perdeu ontem (e já antes tinha perdido com Marisa Matias) e perderá sempre. A mitomania tem um problema muito grande quando é confrontada com a realidade. E o mito Marcelo Rebelo de Sousa é um enorme castelo de areia. Não será fácil, porque o mar não está muito agitado, mas é fundamental que esta campanha presidencial crie uma vaga que o destrua. Se ficar de pé, o próximo Presidente da República é a Vicky Pollard.

5 comentários

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    João Gaspar 14.01.2016

    por acaso era giro era um candidato assumir que os indultos são um contra senso no estado de direito e dizer que acabava com essa pouca vergonha.
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    Joe Strummer 16.01.2016

    Ai está uma questão interessante. Porque é que julgas que q os indultos são um contra senso e porque é que ninguém aborda esse tema?
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    João Gaspar 17.01.2016


    num estado de direito democrático assente numa constituição que preza a separação de poderes, é um contra senso que o titular de um cargo político (mesmo que o mais alto da hierarquia) possa sobrepor a sua decisão pessoal à decisão de um órgão de soberania judicial. é anacrónico e contrário ao próprio espírito do regime.

    sei lá por que é que ninguém aborda esse tema. provavelmente no one cares. é curioso que isto não seja nunca relevado quando se fala dos poderes do presidente da república. lembramo-nos sempre dos poderes políticos (vetar leis, dissolver a ar, etc), mais raramente que é, por inerência do cargo e sem outro mérito, o chefe das forças armadas, e quase nunca que pode mandar a separação de poderes às urtigas (uma vez por ano, não é?) e imiscuir-se nas decisões da justiça.
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    Joe Strummer 17.01.2016

    Não me parece uma ingerência,e se o for,não é grave.E parece-me ser feito com o acordo da corporação. Poder-se-ia colocar a questão quanto à igualdade perante a Lei que me parece mais grave, dois sentenciados nas mesmas circunstâncias terem tratamento diferente, mas também têm que existir mecanismos como estes que têm uma função mais alargada de humanização e perdão. Gostemos ou não vivemos numa sociedade culturalmente cristã. Por outro lado, também não me parece que a existir uma separação de poderes se esqueça da importância da presença de uma hierarquia escolhida pelo voto que não pode ser invertida.

    Ninguém toca nos temas da Justiça porque existe uma cobardia na classe politica, exacerbada por causa do Caso Sócrates, em falar desse autentico estado totalitario que não presta contas perante o Povo. Pode e deve haver separação de poderes não pode é haver poderes fora de escrutínio e avaliação. Contextualizando e sintetizando, afinal o indulto pode ser uma coisa boa na humanização de um sistema judicial com uma cultura totalitaria proveniente do estado fascista, até nos métodos que utiliza na perseguição politica.
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