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365 forte

Sem antídoto conhecido.

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15
Jun16

O futuro de uma ilusão

CRG

 

"In England such concepts as justice, liberty and objective truth are still believed in. They may be illusions, but they are powerful illusions. The belief in them influences conduct, national life is different because of them."

George Orwell

 

Do estudo de Platão no secundário retirei que o mundo real, os humanos e as suas instituições são sempre imperfeitas, mas, como refere Orwell, é essencial que exista um ideal que nos molde e que nos inspire. A UE detinha essa característica essencial: conseguia transmitir um ideal de civilização, apesar de todas os seus problemas e de toda a hipocrisia e cinismo dos nossos tempos.

 

O projecto político da UE consistia na união de Estados soberanos e iguais entre si a fim de criarem uma prosperidade partilhada. Esta interdependência tornaria obsoleta a competição e inveja entre Estados, o que, por sua vez, seria garante de paz - finalidade última. Uma união de iguais em democracia com vista a um aumento sustentado dos níveis de vida: este era o ideal europeu.

 

Infelizmente (sem embargo de a "Europa" ser usada demasiadas vezes como uma desculpa fácil para os governos nacionais), como acontece nas grandes máquinas burocráticas, os meios tornam-se nos fins: as normas, afastadas do seu elemento teleológico, tornam-se quase leis da natureza cujo cumprimento é a única coisa que importa. A UE tornou-se divisiva, surgindo um clima de ressentimento e desconfiança entre os membros. Mas, pior do que tudo, destruiu o seu ideal. Actualmente, para o europeu comum, a UE transformou-se em sinónimo de austeridade, de empobrecimento sem melhoria num futuro próximo, de uma agenda ideológica imposta por burocratas excluídos do julgamento democrático.

 

Resultado: os argumentos para a manutenção de um país na UE deixam de ser os benefícios da sua pertença, mas sim os malefícios da sua eventual saída.

3 comentários

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    CRG 20.06.2016

    Sem dúvida que a campanha do Leave tem abusado dos argumentos da emigração e a austeridade aplicada pelo George Osborne é uma opção política e não uma receita imposta pela troika - que será para prosseguir mesmo com o Leave. Mas será que este discurso xenófobo teria efeitos sem crise económica?

    Mas mais do que isto o post era sobre a forma como a UE, muito por culpa própria, deixou para todos, não só para os ingleses, de ser um ideal desejável e como a ilusão é um factor determinante na construção de um projecto político.
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    Jaime Santos 20.06.2016

    Acho que há muito de errado com a presente UE, mas como o David Crisóstomo bem referiu na sua posta sobre o artigo do Pritchard, não me parece de todo que os Britânicos não alinhem pela agenda neoliberal que começou a ser aplicada por Thatcher que tem sido a principal causa das maleitas económicas do Ocidente (tenho que admitir que ela tinha toda a razão em relação à moeda única, mas houve pessoas à Esquerda que chamaram a atenção para os seus perigos, por exemplo Kaldor, em 1971). Por outro lado, o seu modelo constitucional de supremacia parlamentar dá-se mal com o sistema continental de separação estrita de poderes. E se há elites profundamente europeístas, a população em geral foi sempre profundamente cética relativamente à UE. Claro, a crise económica no RU e a austeridade aplicada por Osborne, a juntar à crise dos refugiados e ao aumento da imigração económica de cidadãos comunitários para o RU, causado pela crise da dívida que atingiu as economias periféricas, criou o perfeito caldo de cultura para o aproveitamento populista presente. Mas julgo que importa distinguir as razões que levam os Britânicos a quererem eventualmente sair, da razões para a perda de confiança com o projeto europeu nos Países do Sul, por exemplo. E o facto de serem razões bem distintas só torna uma eventual solução mais difícil de encontrar.
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