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365 forte

Sem antídoto conhecido.

Sem antídoto conhecido.

15
Mar13

Santa KIaus Was In Town. He Said Stuff.

David Crisóstomo

Há gente que teima em insultar a nossa inteligência.

 

Klaus Regling, o director executivo do Fundo Europeu de Estabilização Financeira (FEEF) e do Mecanismo Europeu de Estabilidade (MEE), esteve na terça-feira passada numa conferência em Lisboa a dar um ar de sua graça. Regling é um economista que foi funcionário do FMI entre 1975 a 1980 e entre 1985 a 1991, tendo também trabalhado no Ministério das Finanças alemão e na associação de bancos alemães, entre outros postos. Era até 2008 o director geral dos assuntos económicos e financeiros da Comissão Europeia. O funcionário-modelo. Na véspera do seu passeiozinho ao mais obediente dos PIGS, concedeu uma entrevista ao jornal Público onde faz umas quantas reflexões interessantes. Resumo-as em 3 temas:

  1. 'Está tudo a correr lindamente' 
  2. 'A Ciência Económica para mim não tem limites'
  3. 'Podem protestar mas não sejam pobres e mal agradecidos, estamos a ser muito solidários'

  

Comecemos pelo primeiro. Klaus explica que está tudo a correr muitíssimo bem em Portugal e que a Europa também não está má. Eles lá em Bruxelas/Frankfurt/Berlim/Washington/Massamá estão todos muito satisfeitos com os resultados do programa de ajustamento europeu. Está tudo no bom caminho, com bons sinais e boas surpresas. Conta Klaus: "É bastante surpreendente ver que o défice das contas correntes quase desapareceu pela primeira vez desde os anos 1950. Isto demonstra que o programa está a funcionar." - alguém faça o favor de me explicar: como é que uma redução 'colossal' das importações e um (decrescente) aumento das exportações podem ser considerados um sucesso do programa de ajustamento? O objectivo é pôr-nos a viver com os padrões económicos de 1950? Como é que uma brutal redução na aquisição de "máquinas e aparelhos, e material eléctrico", que caiu  2.732 milhões €, pode ser algo de bom, digno de festejos, para uma economia com um tecido produtivo ainda relativamente pouco desenvolvido como o nosso? É assim que querem fazer a 'reindustrialização'? Festejando excedentes não-estruturais na balança corrente? "O país está a ganhar quotas de mercado e competitividade" contrapõe Klaus. Sim, as quotas de mercado realmente ganham-se num par de anos à custa duma depauperação económica e das business trips do Portas e do Álvaro. E a competitividade, óhhh a competitividade. Que bom vai ser ter tanta competitividade (essa coisa imprecisa sem definição própria mas que fica bem nos discursos) baseada, claro está, na redução do nível dos salários. E vamos ser tão competitivos, tão competitivos, tão competitivos, que até já se prevê que o magnifico superavit da balança comercial venha a decrescer este ano e no próximo. Isto também deve demonstrar que o programa está a funcionar. Regling não desiste e replica: "O esforço está a começar a dar frutos no que se refere à reputação e credibilidade do país, e um reflexo disso é a melhoria da perspectiva [outlook] da Standard & Poor’s, que quebra um ciclo negativo." - isto é para o pessoal rir certo? A S&P altera a perspectiva, diz que já não é negativa mas que a coisa está estável, ou seja que não prevê que isto piore e isso é suposto ser um saboroso fruto de 'reputação e credibilidade'? A S&P? A que em 2008 avaliava o Lehman Brothers em AAA? A que reduziu o rating do fundo que aqui o Klaus dirige? A sério? Finalmente, numa referência à Itália, Klaus é preciso: "Cabe à Itália apresentar soluções e tenho a certeza que a Itália o fará. Mas ao contrário de vários comentadores, não vejo este resultado como antieuropeu, pelo contrário, o partido mais votado não é antieuropeu." - sim, claro, o facto de a maioria dos italianos ter votado em partidos com um discurso antieuropeu ou de condenação das decisões europeias é algo que não nos deve preocupar, tudo normal, carry on.

 

Sigamos para o segundo ponto: 'A Ciência Económica para mim não tem limites' - O Dr. Klaus, director de duas das maiores instituições financeiras mundiais, com um grande currículo e uma larga experiência, parece ser dotado dum excepcional sentido de propaganda e petulância. Ora vejam: "A experiência na Europa é muito clara: o crescimento só volta e o desemprego só baixa depois da realização de reformas estruturais suficientes. Infelizmente, isso demora algum tempo." Mas qual experiência europeia? A da Irlanda do desemprego galopante ou a da Grécia da depressão infindável? Quantas vezes e em quantos países é que foram aplicadas 'reformas estruturais' (seja lá o que raio isso seja - a reforma das gravatas da Cristas conta?) numa situação de cataclismo social, recessão interna e estagnação continental? E sem moeda própria? E sem um banco central funcional? Mas esta gente acha que nascemos ontem? Klaus retruca: "Quanto mais flexíveis forem as economias — o que significa que quanto mais reformas estruturais forem realizadas — menos negativo será o impacto do ajustamento no emprego." E dados para isto? Estudos? Ideias? Ou já estamos em modo 'diz que sim, diz que sim'? E o que são 'economias flexíveis'? São economias que crescem 12% num ano, para depois no seguinte terem uma contracção de 8% e no ano posterior um crescimento de 14%? Economias que funcionam só com procuras e ofertas elásticas? Economias com clusters da plasticina e da borracha? What? Ou é ter leis laborais mais flexíveis do que na China? É que isso já está em andamento caro Klaus, pode dormir descansado. Consta-lhe todavia que muitos portugueses não dormem dessa forma e para esses tem uma palavra de consolação: "Sei que há protestos e percebo o descontentamento, mas a minha resposta é que a recessão e a austeridade não vão durar sempre", diz o Klaus. Hm, não vamos estar austeros para sempre. Hm, as recessões económicas não são eternas. Está bem, assim já fico mais descansado, nunca tal me tinha ocorrido, estava eu para aqui ralado com um tecido social e económico em ebulição para quê? Afinal, prontus, lixa-se uma geração, mas outras virão não é? Thanks Klaus. Cheira-me a Nobel.

 

Terceiro ponto: 'Podem protestar mas não sejam pobres e mal agradecidos, estamos a ser muito solidários' - Klaus Regling tomou nota dos protestos, tomou nota de que há certas mentes que não estão a gostar do processo de empobrecimento generalizado, que acham que poderia haver outras formas de lidar com a situação actual, que crêem que as 'reformas', as 'poupanças', os 'reperfilamentos' e as 'refundações' - o 'ajustamento', estará a criar um potencial cataclismo social. "Mas lembre-se que o que a Europa está a fazer com o programa e o financiamento do FEEF torna o ajustamento mais fácil para a população. Eventuais alternativas seriam muito piores.", relembra Klaus. "Mas há solidariedade! Sem o dinheiro dos parceiros europeus e do FMI, o ajustamento seria muito mais duro.", sublinha Klaus. Declarações como estas até podem reflectir a mais pura das verdades financeiras, mas qual é o seu propósito? Relembrarmo-nos que temos que ser muito dóceis e corteses? Recordarmos-nos de que devemos estar todos mui gratos pelo favorzinho que nos estão a fazer? É isso? Termos um governo eleito a doutrinar este pensamento já é uma vergonha diária. Mas vir agora aqui o Dr. Klaus, um burocrata sem qualquer legitimidade eleitoral, propagandear a tese de que devemos saudar a nobre vontade das gentes do 1º mundo que nos estendem a mão num momento de bondade é duma lata descomunal. Klaus Regling é um funcionário (isso, funcionário, não esquecer) que, por nomeação, dirige uma instituição ligada à União Europeia da qual Portugal, a Grécia e a Irlanda são membros de pleno direito. Não somos um país terceiro ao qual a UE, num momento de solidariedade fraternal, decidiu emprestar uns trocos. Somos um país que, em conjunto com outros 26, faz parte do projecto europeu, em igual posição com todos os outros membros, que contribui para o orçamento das instituições comunitárias, que paga o salário a funcionários como o Sr. Regling. 'Solidariedade' não é fazer empréstimos, que dão um jeitaço a certos países, mas sim perceber que a receita para a resolução do problema está completamente errada e que pensamentos do 'tem que ser, vão sofrer, mas olha, podia ser pior hein?" são uma parte crucial desse problema.

 

Klaus, o funcionário sem legitimidade democrática, acha que tudo corre conforme o planeado, que a economia é mesmo assim e que devemos estar agradecidos. Enquanto esta ideologia estiver em vigor nas instâncias europeias não há alargamento dos prazos que nos valha. Nem a nós nem à União. A Europa está a ser gerida e dilacerada por gente sem a capacidade de pensar. Preocupem-se.

 

 

«As circunstâncias são o dilema sempre novo, ante o qual temos de nos decidir. Mas quem decide é o nosso carácter.»
- Ortega y Gasset

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