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365 forte

Sem antídoto conhecido.

Sem antídoto conhecido.

11
Nov16

Aviso à navegação - versão TC

Diogo Moreira
Se o Tribunal Constitucional autorizar a que a administração da Caixa Geral de Depósitos possa manter sigilosas as suas declarações de rendimentos, estará aberto um precedente gravíssimo que porá em causa o princípio da transparência no exercício de cargos públicos. A prazo, seria inconcebível que os restantes titulares de cargos públicos não pudessem usufruir das mesmas condições de sigilo nas suas declarações de rendimentos, o que mataria qual hipótese de transparência pública que, sobretudo nos tempos que atravessamos, só pode ser exercida pelos eleitores, e não por elites fechadas sobre si mesmas. Esperemos que o bom-senso impere.
11
Nov16

11º Minuto da 11ª Hora do 11º Dia do 11º Mês

CRG

I will come to a time in my backwards trip when November eleventh, accidentally my birthday, was a sacred day called Armistice Day. When I was a boy, and when Dwayne Hoover was a boy, all the people of all the nations which had fought in the First World War were silent during the eleventh minute of the eleventh hour of Armistice Day, which was the eleventh day of the eleventh month.

It was during that minute in nineteen hundred and eighteen, that millions upon millions of human beings stopped butchering one another. I have talked to old men who were on battlefields during that minute. They have told me in one way or another that the sudden silence was the Voice of God. So we still have among us some men who can remember when God spoke clearly to mankind.

Armistice Day has become Veterans' Day. Armistice Day was sacred. Veterans' Day is not.

So I will throw Veterans' Day over my shoulder. Armistice Day I will keep. I don't want to throw away any sacred things.

What else is sacred? Oh, Romeo and Juliet, for instance.

And all music is.

 

- Kurt Vonnegut

11
Nov16

Bem-vindos ao deserto do real

Sérgio Lavos

66-6-the-matrix.jpg

Choque. Pavor. O horror. O que era antes improvável, impensável, é agora real. Bem-vindos ao deserto do real, como Morpheus diz a Neo em Matrix. Slavoj Žižek tomaria de empréstimo esta frase para título de um seu livro, que por sua vez já vinha de Jean Baudrillard (Simulacros e Simulação). Tudo isto tem a ver com Trump, o Donald, claro, o candidato que, estranhamente, Žižek apoiou. Porque o mundo em que Trump reina é o mesmo pnde existem os Simpsons, que preveram a ascensão do presidente côr-de-laranja há mais de quinze anos. O mesmo mundo que nos oferece reality-shows como Jerry Springer Show. Ou The Aprentice. Vamos ser audazes: o mundo em que vivemos é um palco onde encenamos personagens, e Trump é personagem do seu próprio reality-show, vinte e quatro horas sobre vinte e quatro. Vamos arriscar: não só vivemos na era pós-facto (a verdade deixou de ser um valor positivo e absoluto), como vivemos na era pós-real, simulacro do real, encenação grotesca, ampliada pelos media, na qual o fio que une a crença à descrença e à ilusão se vai tornando cada vez mais ténue. Uma era em que a política - desde sempre também ela pose, retórica e encenação - pouca ligação tem à realidade, mesmo quando as decisões tomadas pelos políticos interferem e incidem sobre a vida dos cidadãos. 

Neo escolhe o comprimido vermelho; e mergulha na realidade suja, recusa a ilusão. O salto (de fé) de Neo é semelhante ao que milhões de americanos deram ao votar em Trump. Por (poucas) boas e (muitas) más razões, mas decidiram dar. O comprimido azul, Hillary Clinton, foi recusado. A repetição do mesmo, o establishment, o sistema, foi a luz fria que milhões não quiseram, optando antes por votar em Trump ou por ficar em casa (a abstenção é a arma dos alienados do sistema). O maior poder dos demagogos é o de conseguirem captar o ar dos tempos, capturarem os corações e as almas de quem, ou tem pouco a perder, ou perdeu muito, e quer recuperar. As tais más razões - o medo do outro, o ódio de classe - são os nutrientes de que o demagogo se alimenta. Trump e a sua equipa apanharam tudo o que pairava, e disseram o que tinham de dizer para ganhar. Hillary, por seu lado, foi a cara do sistema - e a mensagem de Trump foi eficaz ao martelar e martelar esta ideia, porque apenas o sistema se consegue iludir a si mesmo, achando que se pode perpetuar, intocável. Claro que o sensato dirá que Trump é uma encarnação do sistema que diz combater - o demagogo nada na era pós-facto como girino na água -, mas, como muitos estudos indiciam, o eleitor decide mais com o coração do que com a cabeça. E quando os simulacros (cópias que carecem de original, cópias desligadas do original que imitam) preenchem os dias, soturnamente, entram pelas casas e tomam conta das nossas almas, a razão ancora ao largo, num barco, e quando tenta reentrar no porto, é rechaçada pelas balas de canhão disparadas pelos demagogos que vivem do medo, e do ódio ao outro.

O mapa desenhado pelos cartógrafos, tão perfeito que substituiu o mundo que imita, é agora a nossa casa. Vivemos no deserto do real, e o melhor que podemos esperar é que o demagogo Trump faça o que todos os demagogos fazem: volte ao seio do sistema, recusando a ruptura em que o ódio votou. É a aposta mais segura, mas eu arrisco que o caminho de Trump será uma feia mistura entre retrocessos de vária ordem, pedidos pela facção mais reaccionária do GOP - o fim do Obamacare, da lei Row vs Wade, etc. - e a redistribuição de privilégios na direcção dos mais abastados: a descida de impostos para os maiores rendimentos será certamente concretizada. Transformar-se-á numa perfeita peça do sistema, e por isso não surpreende que, depois da surpresa inicial, os mercados tenham disparado. Donald Trump é o homem de Wall Street - tanto quanto seria Hillary Clinton, é certo, mas a sua actuação não deixa de ser mais moralmente repugnante (vamos ser exactos aqui, sem cinismos), porque irá beneficiar exactamente o sistema contra o qual jurou lutar.

Poderá haver outro caminho, o mais perigoso para o mundo. Trump pode escolher a via extremista, a via do ódio, e tornar-se de facto o primeiro fascista eleito nos EUA, ecoando o romance de Philip Roth, A Conspiração Contra a América. Aí, o mundo dos simulacros que permitiu que ele chegasse à presidência irá estilhaçar-se, e a realidade mostrará a sua feia carantonha. O mapa do cartógrafo voltará a ser própria realidade, mas será talvez demasiado tarde - chegaremos a um ponto em que a violência será inevitável.

Chegados aqui, só podemos recordar com um sorriso nos lábios os optimistas da década de 90, os que sonhavam com o fim da História anunciado pelo fim do bloco comunista e o domínio conceptual (e real) de uma ideia liberal de democracia. Como estamos longe desse optimismo antropológico... O conforto da certeza de que pelo menos numa coisa - a História tem avanços e retrocessos, nada permanece, tudo o que é sólido se dissolve no ar - Marx estaria certo não dissipa a angústia que rói cá dentro, a angústia do tempo que aí vem. Deveríamos todos ter a oportunidade de tomar o comprimido azul, continuando a viver no doce enlevo da floresta da ilusão. Demasiado tarde.

«As circunstâncias são o dilema sempre novo, ante o qual temos de nos decidir. Mas quem decide é o nosso carácter.»
- Ortega y Gasset

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