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365 forte

Sem antídoto conhecido.

Sem antídoto conhecido.

23
Mar15

Poupar no pensamento

CRG

"A validade lógica não é uma garantia da verdade"

David Foster Wallace

 

O tema principal na edição de Março da revista "National Geographic" é a guerra à ciência, e como, apesar da existência de consenso cientifico, é negada por uma parte considerável da sociedade a existência do aquecimento global, da evolução, da chegada do Homem à Lua; e os benefícios da vacinação.

 

Todos estes exemplos partilham um ponto em comum: resultam do manifesto divórcio entre senso comum e ciência. Esta tendência que se havia iniciado em meados do século XIX com Darwin e o nascimento da geometria não euclidiana, teve o seu culminar na passagem para o século XX. A partir deste momento a ciência (ex: mecânica quântica, teoria da relatividade) tornou-se contra-intuitiva, deixou de ser apreensível e compreensível por leigos, o que deu origem à famosa frase atribuída a Richard Feynman "se achas que entendes o que é a mecânica quântica é porque não entendes o que é a mecânica quântica".

 

Este fosso entre o conhecimento científico e o senso comum acaba por ser reforçado pelo aumento da desconfiança nas instituições, que num mundo ideal dariam credibilidade às diversas teorias.

 

Na economia existe também este fosso, que é aproveitado e intensificado para fins políticos. Deste modo, discursos que demonizam a dívida pública, o deficit, em nome das gerações vindouras, e defendem a virtude da poupança, dos cofres cheios continuam a ser usados porque fazem sentido, são intuitivos.

 

E de facto é preciso fazer algum esforço intelectual para aceitar que o Estado não é uma família, nem a poupança é sempre boa nem a dívida é sempre má. Infelizmente, não é preciso efectuar qualquer esforço para sentir os efeitos dessa política assente em pressupostos errados.

Captura de ecrã 2015-03-23, às 19.05.34.png

 

 

23
Mar15

Ao jantar com Maria Luís Albuquerque

MCF

 

"Familia: é verdade que deixámos de almoçar, que a avó só toma os medicamentos dia sim dia não, que o Manuel teve de deixar os estudos e que pusémos a vossa irmã na rua.

Mas temos imenso dinheiro no Banco, que outro Banco nos emprestou. Só não está a render juros, e ainda temos de pagar uns trocos. Se isto não é uma familia modelo não sei o que seja.

Agora comam a vossa côdea devagar que queria ver se fazíamos isto mais quatro anos."

22
Mar15

Peticionemos

David Crisóstomo

 

"Venho por este meio chamar a atenção de Vossas Excelências para o caso do jornalista Rafael Marques de Morais, que foi acusado de denúncia caluniosa na sequência da publicação do seu livro, em que descreve alegados abusos de direitos humanos contra comunidades da região de Lunda, em Angola.

 

Venho ainda expressar a minha profunda preocupação com as acusações criminais contra Rafael Marques, que aparentam ter motivação política, e parecem ter como objetivo silenciar as suas críticas às políticas do Governo de Angola.


Rafael Marques tem sido repetidamente perseguido por responsáveis do Governo de Angola, e está agora a ser alvo de acusação pelo simples exercício do seu direito à liberdade de expressão, reconhecido e garantido pela Declaração Universal dos Direitos Humanos, e pelos Artigos 40 e 44 da Constituição de Angola, assim como por outros instrumentos jurídicos dos quais Angola é signatária, incluindo a Carta Africana dos Direitos Humanos e dos Povos e o Pacto Internacional sobre os Direitos Civis e Políticos.

(...)


Venho ainda aproveitar esta oportunidade para instar o governo português a encorajar Angola a pôr fim a qualquer tipo de perseguição a defensores de direitos humanos,  e permitindo-lhes o livre exercício  dos seus direitos fundamentais.
    
Atenciosamente"

 

 

Angola: a liberdade de expressão é mais importante do que os diamantes

 

 

19
Mar15

Angola, by Kristof

CRG

This is a country laden with oil, diamonds, Porsche-driving millionaires and toddlers starving to death. New Unicef figures show this well-off but corrupt African nation is ranked No. 1 in the world in the rate at which children die before the age of five.

(...)

One child in six in this country will die by the age of five.

(...)

That’s only the tip of the suffering. Because of widespread malnutrition, more than one-quarter of Angolan children are physically stunted. Women have a 1-in-35 lifetime risk of dying in childbirth.

(...)

Yet kids like Longuti who are seen by a doctor are the lucky ones. Only about 40 percent to 50 percent of Angola’s population has access to the health care system, says Dr. Samson Agbo, a Unicef pediatrics expert.

(...)

Angola is a nation of infuriating contradictions. Oil and diamonds give it a wealth that is rare in sub-Saharan Africa, and you see the riches in jewelry shops, Champagnes and $10,000-a-month one-bedroom apartments in the capital, Luanda.

Under the corrupt and autocratic president, José Eduardo dos Santos, who has ruled for 35 years, billions of dollars flow to a small elite — as kids starve.

President dos Santos, whose nation’s oil gives him warm, strong ties to the United States and Europe, hires a public relations firm to promote his rule, but he doesn’t take the simplest steps to help his people. Some of the poorest countries, such as Mauritania and Burkina Faso, fortify flour with micronutrients — one of the cheapest ways possible to save lives — yet dos Santos hasn’t tried that. He invests roughly three times as much on defense and security as on health.

(...)

Statisticians say that Angola’s child mortality is, in fact, declining — but achingly slowly.

(...)

It may get worse. With falling oil prices, the government has proposed a one-third cut in the health budget this year.

(...)

There are many ways for a leader to kill his people, and although dos Santos isn’t committing genocide he is presiding over the systematic looting of his state and neglect of his people. As a result, 150,000 Angolan children die annually. Let’s hold dos Santos accountable and recognize that extreme corruption and negligence can be something close to a mass atrocity.

 

Adenda: Kristof na sua newsletter: "It took me many years to get a visa to visit Angola, and after today's column I guess I won't get another."

18
Mar15

Podridão

Sérgio Lavos

Viver todos os dias cansa. Sobretudo em Portugal, o país em que a anormalidade é habitual e tornou-se regra, o país que se pode orgulhar de ter um primeiro-ministro que mentiu mais vezes publicamente do que a maior parte de nós mente durante toda a vida, algumas delas no parlamento, lugar onde, segundo a lei, é obrigado a dizer a verdade sob pena de incorrer em crime, tal como acontece num tribunal.

A última mentira aconteceu quando garantiu que não existia lista VIP. Assegurou, olhos nos olhos perante o deputado do PS que o questionou, olhos nos olhos de todos nós, portugueses, que nada sabia de tal lista. É claro que essa lista existia. Aliás, a melhor maneira de entendermos a realidade do país, neste momento, é acreditarmos no contrário do que o Governo (e o seu porta-voz, Cavaco) diz. Quando nos asseguraram que o BES era sólido, quando agora garantem que nada sabiam do que se passava lá dentro, quando primeiro mentem, depois ocultam e depois admitem como se antes não tivessem jurado o oposto. Mentir é a segunda pele destes governantes, liderados por um Passos que ficará para a História como o pior primeiro-ministro desde o 25 de Abril, um menino que nos faz recordar com saudade o Governo de Santana Lopes, um tipo sem carácter, medíocre até à raiz dos ossos. 

E Passos e os governantes sabem, estão carecas de saber, que já ninguém acredita neles. Como acreditar? Como acreditar que o primeiro-ministro não sabia de nada, que não é o responsável directo, com conhecimento, pela criação da lista VIP? Como não, se esta foi criada no auge do escândalo Tecnoforma, em Setembro passado, quando foi revelado que nos anos 90 Passos não tinha declarado rendimentos? A lista VIP existe, e existe apenas porque alguém da Autoridade Tributária decidiu consultar o processo de Passos e passar a informação aos jornais. Pode-se questionar a legalidade desta consulta (sou contra o sigilo fiscal absoluto de titulares de cargos públicos, mas a verdade é que ele existe), mas o que não se deveria poder questionar é a sequência de acontecimentos: alguém consultou, foi noticiada a fuga ao fisco de Passos nos anos noventa, a hierarquia ordenou aos serviços que se encontrasse os culpados, e foi criado um filtro que na prática dava o alarme de cada vez que alguém consultava os dados fiscais de Passos e de outras personalidades públicas (quase que aposto que todos os governantes estão nesta lista). Mas alguém acredita, por um momento que seja, que esta iniciativa não foi tomada com o conhecimento do secretário de Estado Paulo Núncio e com indicação directa do primeiro visado, Pedro Passos Coelho? Somos todos assim tão tontos, ou sonsos, ou já estamos tão anestesiados que aceitamos tudo o que nos tentam enfiar pela goela abaixo? 

O que cansa é a modorra instalada, pelo menos até às eleições. Mas não nos iludamos: esta sensação de impunidade absoluta de que gozam os governantes está a fazer mossa na democracia. Não é uma questão circunstancial, passageira. O dano que está a ser infligido por este Governo e por este Presidente da República nas instituições vai ser muito difícil de reparar. Pior: a sensação de crime sem castigo a que o Governo está associado está a bater fundo nos portugueses. Seja qual for o próximo Governo, vai ter de mostrar que a democracia é mais do que isto, esta triste História, um conjunto de incompetentes mal intencionados tomando o aparelho de Estado e subvertendo algumas leis democráticas e todas as regras de bom senso e, sobretudo, decência. Deixar de acreditar nos políticos e na política é deixar de acreditar na democracia. O legado desta gente será difícil de ser apagado. 

16
Mar15

Um Primeiro-Ministro no Jardim-Escola

CRG

Uma das primeiras coisas que se aprende em criminologia é que o criminoso não é diferente de cada um de nós. Na sua grande maioria a prática de crimes é potenciada pela oportunidade. Longe vão os tempos da escola italiana de criminologia, fundada por Lombroso, que defendia que os criminosos detinham características físicas únicas (ex: orelhas grandes; face assimétrica; crânio de proporções exageradas, etc). 

 

No entanto, à medida que o crime se vai tornando mais hediondo surge a necessidade de distanciar o criminoso do que nos é familiar, da "nossa humanidade", apelidando-o de monstro, com características psicológicas especiais - só assim se consegue assimilar a crua realidade. 

 

Deste modo, é compreensível que resista a confusão entre a pedofilia, que é um transtorno da sexualidade, e os agressores sexuais de menores, apesar de apenas 8% coincidirem. O senso comum dificilmente consegue conceber que alguém agrida sexualmente um menor sem que denote algum especial transtorno. 

 

No entanto, o que não é compreensível é que o Governo, ao propor a criação de um registo de identificação criminal de condenados por crimes contra a autodeterminação sexual e a liberdade sexual de menores, use esta confusão e esta necessidade emotiva para, através da sua técnica preferida - a da divisão -, nós contra os criminosos, procure retirar dividendos políticos.

 

E se dúvidas houvesse o espectáculo degradante que foi o discurso do Primeiro-Ministro numa creche demonstrou claramente qual a verdadeira motivação desta medida.

 

Acresce que é também esta confusão que permite à Ministra da Justiça afirmar impunemente que a taxa de reincidência neste tipo de crimes ronda os 90%, quando na verdade deverá rondar uns 7%, conforme indicado por Ricardo Barroso, professor na Universidade de Trás-os-Montes.

 

Ora, se a taxa rondasse os valores indicados pela Ministra a criação da lista ia contra as melhores práticas de política criminal (haveria claramente diminuição de culpa, a medida da pena, e consequentemente as penas teriam que ser reduzidas) e consubstanciaria uma verdadeira desresponsabilização das autoridades: em vez de uma pena seria necessário a aplicação de uma medida de segurança, dependente de análise de técnicos, o que permitiria na teoria a "prisão perpétua".

 

Se a motivação e os fundamentos estão errados, os efeitos poderão ser devastadores. 

 

Por um lado, um resultado negativo da consulta da lista, acrescido da sensação transmitida pela Ministra da Justiça de que o mais normal neste tipo de crimes é a reincidência, poderá transmitir uma falsa sensação de segurança, pese embora 92% dos agressores serem familiares ou conhecidos das vítimas. 

 

Por outro lado, quanto tempo irá demorar alguém a fazer o salto lógico natural: se 90% dos membros da lista irão repetir o crime não será melhor fazer desde já algo que o impeça?

«As circunstâncias são o dilema sempre novo, ante o qual temos de nos decidir. Mas quem decide é o nosso carácter.»
- Ortega y Gasset

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