Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

365 forte

Sem antídoto conhecido.

Sem antídoto conhecido.

28
Nov13

Vamos virar-nos para o mar mas em privado

Pedro Figueiredo
O ar triunfante com que Paulo Portas anunciou que o Governo resolveu a questão dos Estaleiros Navais de Viana do Castelo, "problema" que dois governos socialistas não conseguiram ultrapassar, é revelador da forma como o vice primeiro-ministro encara as reais soluções que o seu executivo tem para o país.
Foi talvez por esquecimento que a solução prevê o despedimento de 600 pessoas, o que na economia local de Viana do Castelo pode ser um desastre.
O presidente da Câmara já anunciou que fez seguir para a Procuradoria-Geral da República uma participação de eventual gestão danosa de dinheiros públicos, acusando o Governo de "pagar para se livrar de uma empresa. Nem sequer deu ao desbarato".
Os trabalhadores já foram explicar ao ministro que pegue nos 30 milhões que estão previstos para as indemnizações e invista na modernização tecnológica, porque a empresa é rentável. A provar estão os dois asfalteiros para Venezuela e mais duas encomendas dos Açores para barcos de transporte de passageiros.
A Martifer pode ter muito interesse na subconcessão dos ENVC e até já mostrou ter bons planos, mudando-lhe logo o nome para West Sea. Se houver consciência social no apurado faro de gestão comercial do subconcessionário ainda há esperança que o negócio se possa desenvolver noutros moldes. Há negócios que são tão bons, que às vezes tolda a visão do lucro num plano mais abrangente. A Martifer é um grupo sólido que não precisa destas benesses. Goza de boa imagem pública. Duvido que a mantenha se tudo correr como o Governo não só prevê como dá como certo.
A comissão de trabalhadores apela ao primeiro-ministro e ao Presidente da República para intercederem neste negócio. Crentes.
28
Nov13

Aftershock - Robert Reich

Nuno Oliveira

(...) A 5 de Janeiro de 1914, Henry Ford anunciou que pagava aos trabalhadores da sua linha de montagem em Highland Park, no Michigan, do Modelo T, famosa pela sua produtividade, cinco dólares por dia de oito horas. Era quase três vezes o que o típico empregado fabril ganhava na altura. À luz desta jogada audaciosa, alguns elogiaram Ford como amigo do trabalhador americano; outros chamaram-lhe louco ou socialista, ou ambas as coisas. O The Wall Street Journal classificou o gesto dele como «um crime económico». Ford achava que era uma acção empresarial astuciosa e a história demonstrou que ele tinha razão. O salário mais elevado fez dos empregados na indústria automóvel de Ford clientes que passaram a poder despender 575 dólares por um Modelo T. De facto, as suas aquisições fizeram regressar alguns desses pagamentos de cinco dólares à Forde ajudaram a financiar uma produtividade ainda maior no futuro. Ford não era louco nem socialista, mas um arguto capitalista cujos lucros mais do que duplicaram de 25 milhões de dólares em 1914 para 57 milhões dois anos depois.


(...) Os economistas clássicos viram os mercados como autorregulados. Tinham suposto que o pleno emprego acabaria sempre por prevalecer. Qualquer excesso de desemprego faria os salários cair até que os empregadores voltassem a considerar lucrativo contratar trabalhadores. De acordo com esta perspectiva, o desemprego persistente resultava da resistência teimosa da parte dos trabalhadores que insistiam em conservar os seus anteriores níveis salariais, mesmo que não trabalhassem o suficiente para os justificaram. A única solução consistiria em fazê-los sentir a falta de trabalho o tempo suficiente para que aceitassem salários mais baixos. Esta visão das coisas enquadrava-se perfeitamente no darwinismo social predominante da altura: só os mais aptos deveriam sobreviver e qualquer tentativa de proporcionar mais conforto aos menos aptos estava condenada a ser danosa para a maior parte da sociedade. Depois da Grande Derrocada de 1929, o secretário do Tesouro de Herbert Hoover, o industrial milionário Andrew Mellon, fazendo eco desta visão predominante, admoestou contra a acção do governo. Aconselhou ele que se deveria deixar cair os salários e os preços, depurando assim o sistema de desperdício e lassidão. «Liquide-se o trabalho, liquidem-se os stocks, liquide-se o agricultor, liquide-se a propriedade imobiliária. Isso eliminará a podridão do sistema. [...] As pessoas trabalharão mais e levarão uma vida mais virtuosa.» Tratava-se dos mesmo disparates contra os quais Marriner Eccles se insurgira, o que o levou a concluir que as pessoas no poder estavam a tentar justificar o status quo pela invocação de uma moralidade duvidosa.

Tal como Eccles, Keynes não via o desemprego como um enfraquecimento moral. Via-o como uma falha na procura. Os trabalhadores de rendimentos médios careciam de suficiente poder de compra para comprar o que produziam. (...)

 

28
Nov13

Quem não se dá ao respeito, não pode ser respeitado

Cláudio Carvalho

Nas últimas duas semanas dois eventos exaltaram, quase transversalmente, a sociedade portuguesa, da esquerda à direita. Primeiro, registou-se uma manifestação das forças policiais que culminou numa invasão pacífica da escadaria que dá acesso à entrada principal da Assembleia da República e que não teve resposta por via da violência física das (escassas) forças que protegiam o edifício. Já esta semana, trabalhadores afetos a organizações sindicais invadiram vários ministérios demonstrando o seu descontentamento e exigindo serem ouvidos pelos respetivos ministros. Estes eventos têm tanto de preocupantes como de naturais e tão ou mais preocupante do que se sucedeu é/foi a pronta condenação destes eventos por personalidades e grupos políticos - partidários ou não - afetos à esquerda. Ora, instituições democráticas que não se dão ao respeito não podem - ou nunca vão - ser respeitadas. Esta é a premissa básica para compreender que uma democracia sai fragilizada sempre que o principal infrator é um órgão de soberania, nomeadamente o poder executivo e mesmo que o culpado principal seja unicamente este (que não é o caso até), a democracia representativa na sua globalidade é sempre afetada. Como já aqui referimos, existe um «trilema da gestão política da crise» (vd. http://365forte.blogs.sapo.pt/118020.html de 5 de outubro de 2013) que não pode ser descurado. Não é possível compatibilizar dois destes três conceitos: austeridade, paz social e democracia. Os agentes socioeconómicos reagem a estímulos. Não adianta cair nos desejos idealistas do que deveria ser o comportamento adequado, descurando todos os pressupostos, toda a ação a montante - i.e. austeridade desproporcionada, mal distribuída e/ou ferindo, por várias vezes, o pilar contratual da nossa sociedade que é a Constituição - que deu origem à perturbação da paz social e que fragiliza a democracia a cada dia que passa. Uma esquerda democrática e não preconceituosa relativamente a certos grupos socioprofissionais não pode nem deve censurar à reação natural desses mesmos grupos a estímulos induzidos por instituições que não se deram ao respeito e que não fizeram respeitar a democracia em tempo útil. Esquerda que não respeite este princípio, não é esquerda: é um «ombro amigo» de quem nos governa.

«As circunstâncias são o dilema sempre novo, ante o qual temos de nos decidir. Mas quem decide é o nosso carácter.»
- Ortega y Gasset

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

No twitter

Arquivo

  1. 2025
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2024
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2023
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2022
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2021
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2020
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2019
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2018
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2017
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2016
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2015
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2014
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2013
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2012
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D