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365 forte

Sem antídoto conhecido.

Sem antídoto conhecido.

08
Jun13

A importância de se ser turco

Pedro Figueiredo

Ficou famosa a expressão Ich bin ein berliner quando Kennedy a proferiu em 1962, em Berlim, pouco tempo depois de ter sido erguido o muro. O discurso ficou na história como um dos melhores do então presidente dos Estados Unidos porque simbolizava o orgulho de pertencer ao lado livre do mundo.


Os incidentes na Turquia foram despoletados por um protesto contra a construção de um projecto imobiliário na praça Taksim, que levaria à destruição do parque Gezi. O que começou com menos de uma centena de pessoas, acabou com praticamente todo o país envolvido. No entanto, Taksim parece ter sido apenas a gota de água.


A herança de Ataturk marcada pela laicidade equilibrada do Estado de que tanto se orgulham os turcos, sobretudo por se tratar de um país muçulmano, estava a ser manifestamente colocada em causa por leis aprovadas que interferem com a liberdade individual sem estar em causa o superior interesse do país.


Afinal de contas, qual é o problema das hospedeiras de bordo andarem de lábios e unhas pintadas durante o serviço? Ou de se venderem bebidas alcoólicas a menos de 100 metros de uma mesquita? Ou desde quando é que manifestações públicas de afecto são consideradas imorais?
Há sempre um momento em que o copo fica cheio. Tão cheio que basta um protesto inócuo contra um projecto imobiliário para acender o rastilho de um Bósforo incandescente. Curioso é que o primeiro-ministro, Recep Erdogan, tem sido democraticamente eleito. Desde 2003, partido (AKP) agora com maioria parlamentar. Depois dos protestos, onde fica a legitimidade?

Somos todos turcos. Uns mais do que outros, é certo. A avaliar pela última manifestação de 1 de Junho do movimento "Que se lixe a Troika", que coincidia com outras a nível nacional e internacional, Portugal está no bom caminho. Aguenta-se tudo neste país.

Dizia uma mulher entrevistada por um canal de televisão que Passos Coelho, ao ver as imagens da Alameda, só podia estar rir-se do resultado. É verdade. Até um dia aparecer um qualquer projecto imobiliário que transborde o copo nacional.


07
Jun13

Governo de Esquerdas - o primeiro obstáculo é Seguro

mariana pessoa

Diz Pedro Nuno Santos, do Partido Socialista, numa entrevista ao jornal i:

 

"A questão do Memorando tem sido usada para distinguir o PCP e o Bloco de Esquerda do PS. Mas o Memorando tem um prazo - e o prazo é Junho de 2014. Se tudo correr como está previsto, a troika vai-se embora em final de Junho de 2014. O Memorando passa a ser um não-problema."

 

"Vão ter todos de ceder e o PCP não pode, com 12 por cento dos votos, impor um programa a 100 por cento. É óbvio que se estiver genuinamente interessado em retirar o país do desastre em que caiu tem de, como se costuma dizer na minha terra, "sujar as mãos" com a responsabilidade de governar."

 

A visão em relação ao Bloco de Esquerda tem diferentes tonalidades: "Vejo com muita esperança as declarações de António José Seguro à saída da reunião com o Bloco de Esquerda. É uma esperança para os portugueses, que precisam de uma mudança política sem a direita. O PS está a dar mostras de que quer construir uma alternativa política."

 

As questões que Pedro Nuno Santos levanta, de desenho concreto (haja alguém que dentro do PS fale de modo concreto), são realmente sensíveis. Porém, passa ao lado do óbvio. Sim, qualquer esperança de ética de responsabilidade por parte do PCP é para cair em saco roto. É um partido cristalizado, centrado matricialmente na perspectiva de ser oposição, nunca governo. Não tem configuração genética para tomar decisões. E talvez (diria que é uma aposta ovo kinder) a relação com o Bloco de Esquerda possa ser diferente.

 

Mas, como dizia, passa ao lado do óbvio: a liderança do Partido Socialista.

 

António José Seguro (por muito que seja notória a preocupação de Pedro Nuno Santos em poupá-lo), é, efectivamente um líder fraco, sem chama, sem conteúdo, sem capacidade mobilizadora. Nem o próprio partido Seguro consegue mobilizar (a blindagem dos estatutos fala por si sobre a sua receosa forma de estar). Depois da gestão ruinosa destes 2 anos, com a insatisfação dos portugueses a níveis históricos, o PS não capitaliza nas sondagens. Nem sequer dá mostras de que isso possa acontecer no futuro. Facil: Seguro é em 2013 o Pedro Passos Coelho de 2011. Forjado nas jotas, com ar benigno e de copinho de leite em riste. A dizer "isto não fazemos", mas sem dizer como faria nem porquê. Titubeando. Titubeante.

 

E é este o líder da oposição que temos por responsabilidade dos próprios militantes do PS, que perante a ameaça de avanço de António Costa, tremeram com a possibilidade de haver alterações às listas para as eleições autárquicas. Os militantes do PS escolheram primeiro as autárquicas, depois o país. O que também diz muito dos seus objectivos e da mundividência do sustentáculo do Partido Socialista. E, convenientemente, Seguro deixou a proposta que preconizava a eleição do líder do PS aberta a simpatizantes a marinar. António Costa, por seu lado, ficou electus interrompidus, num inenarrável, primário e imaturo movimento para quem está há tanto tempo na política.

 

É, uma coligação à esquerda é terreno minado. Mas talvez não fosse mau de todo a liderança do PS começar a achar que é, ela próprio, neste momento, também um obstáculo ao desejável governo de esquerdas. Esperemos que o momento "pá de porco" das Autárquicas passe rápido para que os socialistas, sentados confortavelmente nos seus pavilhões gimnodesportivos e nas suas rotundas, possam agora concentrar a sua atenção no governo deste país na desgraça plantada.

06
Jun13

Take a look at me now

David Crisóstomo

Tinha perdido o passe. A senhora que acabara de entrar no autocarro da TST em Alcântara às 18h35 estava em pânico: não tinha passe. Não sabia dele, não estava nos bolsos, não estava na mala, não estava no chão. E começou a chorar. A chorar e a soluçar. Não devia ter mais que 55 anos. Soluçava, sentada no terceiro lugar a contar do motorista, do lado esquerdo. Revirava a já velha mala em busca do documento. Não o encontrava. Tirava tudo e nada. Em lágrimas, levantou-se e, com o seu pequeno porta-moedas, pagou o bilhete ao motorista. 4 euros e 10 cêntimos. De olhos vermelhos e cabelo desarranjado, explicava a situação ao motorista. Ou tentava. Meio autocarro, que ia cheio, estava a tentar entender o que se passava. E foi então que ela desabafou ao motorista num tom audível e desesperado: "Eu não sei o que fazer. O mês acabou de começar e eu já tinha comprado o passe. São 80 euros. Eu não tenho esse dinheiro. Não sei o que fazer". Voltou a chorar. Uma senhora de idade sentada ao lado da porta tentava consolá-la. "Não fique assim, vai ver que o encontra". Uma outra senhora sentada ao meu lado acrescentou: "Não se preocupe, eu também já perdi o passe uma vez e depois fui Cacilhas [terminal dos autocarros] e tinham-no encontrado". Tentando recompor-se, a senhora foi se sentar no seu lugar. Voltou a procurar na mala. Mas nada. Levou as mãos à cara num acto de aparente desesperança angustiante. Explicou a um casal do lado que vivia num pequeno apartamento longe de Almada, longe de Lisboa, longe do seu emprego. Tinha estado desempregada mas conseguira há uns meses um trabalho numa empresa de limpezas. Recebia mal e a más horas, mas recebia. Tinha um filho, cuja a idade não revelou. Vivia com ele. Aparentemente, só com ele. E estava desesperada. Um rapaz ofereceu-lhe um lenço para limpar a cara. Agradeceu, envergonhada. Agradecia as palavras amáveis que ia ouvindo de outros passageiros e pedia desculpa. Pedia desculpa mas não sabia o que fazer: não tinha dinheiro para comprar outro passe. Não tinha dinheiro. E tinha medo.

  

Isto passou-se há umas semanas. Nunca mais vi aquela senhora, no autocarro ou fora dele. E ontem lembrei-me dela. Lembrei-me após ouvir as declarações do senhor primeiro-ministro. "Hoje Portugal e os portugueses são vistos como gente trabalhadora, cumpridora e honrada". Hoje. Antes não eram, portanto. Mas agora, depois dum processo económico lunático e desacreditado, que decorre há já dois intermináveis anos, já o são. Mas as consequências dessa credibilidade ganha, o desemprego inqualificável, a miséria indiscreta, um longo prazo inexistente, uma economia que insiste em não cumprir com os desígnios do mui credível Gaspar, tudo isso e tudo o que é mau e maligno, 'não é do processo de ajustamento'. Nem dos senhores que foram para além do processo de ajustamento. Estão inocentes. Foi a realidade, algo que não controlam, algo que desprezam, não lhes diz respeito. Não é com eles. Enquanto lá fora, na Amadora que Passos quis outrora administrar, se gritava e protestava, um saxofone, uma melodia de Phill Collins, soava na sala onde o senhor primeiro-ministro iria falar. Against All Ods. Quem diria que isto seria Portugal numa Primavera de 2013.

 

06
Jun13

Dois anos de embuste

Nuno Pires

 

Completaram-se ontem 2 anos desde as eleições legislativas que conduziram à posse do XIX Governo Constitucional.

 

Um Governo que foi eleito com base num programa eleitoral onde se lia, sobre o mesmo, que "resiste a qualquer teste de avaliação ou credibilidade". Um programa cujo conteúdo era infalível, pois, alegadamente, "tudo o [que] nele se propõe foi estudado, testado e ponderado".

 

A este bonito programa eleitoral juntaram-se várias promessas de facilidades e prosperidade, proferidas ao longo da campanha por Pedro Passos Coelho. Bastava afastar Sócrates, davam a entender várias vozes do PSD (e do PP) na altura, e tudo se resolveria como num passe de magia. Não era preciso despedir, não haveria aumentos de impostos, não haveria cortes em subsídios. Nada disto era necessário e até eram classificados como "disparates" os avisos que alguns já estavam a fazer de que aquele delirante cenário não tinha nada a ver com aquilo que estava a ser preparado.

 

Pelo caminho, também não faltaram insultos ao primeiro-ministro de então: Hitler, Saddam, Drácula, apenas para mencionar alguns. Política de alto nível, a desta rapaziada.

 

Mas a verdade é que esta deplorável estratégia foi premiada nas urnas. E eis-nos chegados a 2013, o ano em que, garantia Passos Coelho se fosse eleito, já estaríamos com as contas públicas "saneadas" (o que quer que isso quisesse dizer), o "exército de desempregados" já teria desaparecido, a dívida e o défice já estariam controlados e a descer a olhos vistos.

 

Nada disto aconteceu, mas, pior do que aquilo que não aconteceu... foi o que aconteceu: o exato oposto do que foi "propagandeado" em campanha eleitoral, a que se juntaram novas "ideias" que não foram sufragadas por ninguém. Dois anos depois, o país vê-se confrontado com o embuste colossal em que este Governo se transformou. A função pública está a ser atacada como se de um inimigo público se tratasse. Os pensionistas parecem ter adquirido o estatuto de cobaias privilegiadas de uma bizarra e indigna experiência de empobrecimento coercivo. Há desemprego a níveis nunca vistos, há aumentos de impostos, há cortes nas funções essenciais de um Estado que se quer Social, há cada vez mais casos preocupantes de carências, há cada vez mais emigração.

 

"Assumimos um compromisso de honra para com Portugal. E não faltaremos, em circunstância alguma, a esse compromisso", lia-se no programa eleitoral do PSD. Pois claro que não, Pedro. Claro que não.

 

 

(Gráficos)

 

05
Jun13

Dear Mr. Draghi

Vega9000

Como celebração dos dois anos de credibilidade crescente que este governo, com um esforço considerável, conseguiu para Portugal junto dos mercados financeiros, partilho a carta que hoje enviei, em meu nome e de outros cidadãos preocupados, por correio, ao Presidente do BCE, Mario Draghi:

 

***

Lisbon, Portugal, June 5, 2013

 

Dear Mr. Draghi,

 

last July, you pledged in a press conference to do “whatever it takes” to save the Euro. From that moment on, interest rates for the peripheral countries have consistently gone down.

Although we’re sure that it was necessary at the time to calm down turmoil in the markets, this presented a problem for some countries, and Portugal in particular. As you are surely aware, our country is currently in the middle of a painful but necessary adjustment, which all european institutions have recognized that has so far been very successful in restoring the necessary credibility to stand on our own feet, and ensure a smooth transition from the assistance program to the normal market financing of our debt.

However, we feel that, because of the pledge made by you and the ECB last July, this credibility and the scope of our efforts has not been fully recognized by the financial system. There is some talk, particularly by those opposed to the necessary reforms and adjustments, that the only reason the rates for portuguese public debt have been going down is because of that particular pledge. We find this misleading and unacceptable, especially since our efforts, and the sacrifices that the portuguese citizens have made, were so big, and our enthusiasm for reform is second to none.

So here’s our request: in your next press conference, please inform the financial markets that your pledge to act as a “buyer of last resort” does not apply to portuguese bonds, since we don’t need it, given the extent of our adjustment and the credibility our government has gained. Please let us stand on our own two feet, and give the markets a chance to evaluate our efforts fairly and according to free market rules. We believe this is a necessary step to show the world just how far we’ve come, and given that our economy is now entering the investment stage, this would also be invaluable in proving to potential investors that the portuguese economy is exiting the painful adjustment with regained credibility and is now ready for a sustained, and well deserved, growth.

 

Our best regards

 

For a group of concerned citizens



Nuno Salgueiro

04
Jun13

A ver se nos entendemos

David Crisóstomo

Do nosso caça-lobbies de serviço:

 "Seguidamente, para não discriminar os gays e as lésbicas, substituir-se-ão nos documentos oficiais as palavras "mãe" e "pai" pelo termo "progenitores" (...)"

 

Se não for muito incómodo, o senhor bastonário da Ordem dos Advogados [jesus!] é capaz de me explicar em que parte do bilhete de identidade ou do cartão de cidadão (ou do passaporte,  já agora) é que vêm os termos «mãe» e «pai»? É que já não é a primeira vez que martela neste 'problema'... 

 

 

 

 

 

01
Jun13

Gente séria é outra coisa

David Crisóstomo

 

Ufa! Já soube da nova, caro co-cidadão? A divida não vai aumentar. Nada. Niente. Afinal é só impressão nossa. Se formos a ver bem, a divida pública, com este governo que transpira credibilidade, nunca aumentou. Disparate. São os comunas do costume que andam para aí a caluniar o sucesso económico destes nossos salvadores governamentais. Mas olhe caro co-cidadão, o nosso primeiro-ministro é tão honesto, tão casto, tão probo, tão integro que até diz que não culpará nenhum ranhoso que deseje outra coisa para a nação. Vivemos tempos históricos caro co-cidadão, pois com este governo, esta maioria e este palhaço presidente, o povo pode descansar, pois a mentira está ausente. São o cumulo da decência, o cúmulo da respeitabilidade. Com Passos Coelho a divida não aumentará. E 2013 será o ano da estabilização económica. 

 

Pág. 3/3

«As circunstâncias são o dilema sempre novo, ante o qual temos de nos decidir. Mas quem decide é o nosso carácter.»
- Ortega y Gasset

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