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365 forte

Sem antídoto conhecido.

Sem antídoto conhecido.

23
Fev13

Cala-te. Está Calado.

David Crisóstomo

 

Houve uma greve geral no dia 14 de Novembro. A greve corria com grande êxito de Santa Cruz das Flores a Santo Aleixo da Restauração. O remate final dessa greve foi uma marcha de protesto que culminou naquele pedacinho apertado de calçada portuguesa em frente à escadaria da Assembleia da República. Esse protesto final, convocado pela CGTP, estava finalizado por volta das 16h30. Os sindicalistas arrumavam as faixas e os microfones e Arménio Carlos retirava-se após o que tinha sido, sem dúvida, mais uma 'greve histórica'. Contudo, os meios de imprensa começaram a notar que certos manifestantes não arredavam pé do final da nobre escadaria. Passados uns minutos começou o evento que iria marcar o dia: uma amostra desses manifestantes começou a escavacar esse mini-passeio onde a magna-escadaria concluía e iniciou-se uma série de bombardeamentos às forças policiais que ali estavam estacionadas. Todos sabemos como isso acabou. 

 

Socorro-me deste episódio do passado altamente recente com intuito de questionar: quem defendia que a policia não devia ter sofrido aquele apedrejamento, quem criticou aquela mão cheia de vândalos revoltados, estava a defender o Governo? Quem censurasse aquela matilha que não sente remorsos em pegar num calhau de calcário e atirá-lo à cabeça dum outro ser humano, estava a atacar a manifestação que horas antes ali tinha estado? Estava a atacar a greve geral? Se afirmarmos que o comportamento das bestas que ali estavam com o objectivo de partir crânios foi nojento e revoltante, estaremos então, por lógica barata, a defender o Governo e seus ilustres membros? Quem tem repulsa pelo canhoneio a policias que defendem o parlamento português, está a aprovar Relvas?

 

Recordo estas questões face ao tumulto de opiniões que têm por estes dias polvilhado a sociedade face aos acontecimentos da passada terça-feira no ISCTE, envolvendo a douta criatura que dá pelo nome de Miguel Relvas. Acontece que, passado o período de reacções ao sucedido, chegámos à fase onde três correntes de opinião se formaram: 1) quem acha que o que se passou foi uma manifestação legitima, justa e apropriada ao grau de repulsa que tal fulano causa nas pessoas com neurónios; 2) quem, tendo nojeira por todos os actos passados do Dr. Relvas, tem dúvidas ou manifesta oposição à forma de protesto escolhida naquela tarde; 3) quem acha que tudo aquilo foi um golpe d'estado onde o estimadíssimo Ministro Adjunto, dos Assuntos Parlamentares & Outros Assuntos viu a sua imaculada honra atacada por um bando de assessores do PCP, do BE e sabe lá Deus nosso-senhor donde. Ignorando esta última (também é pouca gente, deixem lá), ficamos com duas opiniões que, partilhando do mesmo desprezo pelo mestre da simplicidade da busca pelo conhecimento permanente, discordam na aprovação total do que se passou naquela faculdade pública, estando na base dessa discordância a violência (verbal, que não foi física por centímetros) utilizada e a limitação do direito à liberdade de expressão do vil ser. E numa sociedade evoluída ficar-se-ia por aqui, com um debate de ideias e argumentos respeitoso e maduro. Há discordâncias, pronto, olhem, c'est la vie. 

 

Todavia, não é isso que se tem passado. A fação que defende que aquilo foi lindo, genial, de aplaudir, dedicou-se nos últimos dias a atacar quem dela discorda. A argumentação basicamente tem sido um 'badamerda, relvistas, salazarentos, mansos, betinhos de direita, vocês são mazé contra o direito à manifestação, pró-troika,  pró-pacto de agressão, vocês morrem d'amores pelo governo que a gente já vos topou!' ou qualquer coisa deste género. Basta um passeio pelas redes sociais da 'verdadeira esquerda' para vermos como é que a coisa funciona: ou se está ao lado deles em tudo e de toda a forma, ou temos fotos do Passos Coelho escondidas debaixo da almofada. É um mundo simples. É um mundo onde toda a outra argumentação, todo o outro pensamento critico oposto é rotulado como sendo 'contra o povo' - mesmo que essa argumentação se possa basear em valores tão universais como a liberdade de expressão, o direito à integridade física e moral, à igualdade perante a lei, etc... 'Ou estás comigo, ou és meu inimigo' é basicamente o motto. Fascistas e sonsos são aqueles que não estão com eles. 

 

É difícil não entender o ridículo e o deplorável deste tipo de raciocínio. Baseiam-se em falácias e pensamentos fechados infantis, onde pode-se atacar sem pudor aquele de quem desgostamos/discordamos/desprezamos porque sim, porque tem que ser. Este desconforto com o debate, com a pluralidade de opiniões (e não a dualidade que teimam em querer vender) revela-nos o estado ainda precoce de desenvolvimento da cultura democrática em Portugal, onde a mera divergência é tratada como um ataque directo e personalizado à base de valores fundamentais. Tudo é justificável, desde que seja feito em prol dos 'verdadeiros ideais'. Se for necessário o silenciamento, que se silencie. Se for necessário o ataque verbal e psicológico, que se o faça. Se for necessária a violência física, avante. Se for necessário partir a cara de todo o cidadão que esteja no seu caminho, siga. Se for necessário o apedrejamento, é um mal necessário, pois a revolução não pode esperar. Relvas é Relvas por alguma razão, pois nesta sociedade floresceu. 

 

Camaradas, moderem-se, pensem um pouco no que dizem, a quem dizem, como dizem. Formalmente, (ainda) vivemos em democracia e num estado de direito. Há pessoal que discorde de vocês? Paciência, amanhem-se. Ou argumentem como gente crescida.

 

 

Post-scriptum - antes que me venham, como de costume, acusar de gostar muito do Relvas e das suas boas-companhias, deixo aqui claro que me revejo na opinião do Porfírio Silva e recomendo a leitura da posição do José Manuel Leite Viegas. Boa noite.


21
Fev13

A árdua marcha do génio Camilo

Vega9000

Camilo Lourenço, um dos génios económicos da nossa praça. Morceaux choisis desde 2011, bolds meus:

***

Até porque as suas declarações podem ter o efeito pernicioso de convencer o português comum de que temos alternativas: menos sacrifícios e mais tempo. Não temos. E se não percebermos isso agora, daqui a uns meses estaremos a receber os mesmos (humilhantes) ultimatos da Grécia.
27 de Novembro de 2011

***

O relativo sucesso do nosso programa de ajustamento deve-se a um único ponto: pressão. Da Troika, traduzida em avaliações trimestrais em função das quais é desbloqueado o financiamento. Se assim é, é razoável pensar que no dia em que deixarmos de ter pressão está tudo estragado. Não é por acaso que Vítor Gaspar tem dito evitado falar em revisão do programa, insistindo que Portugal não vai pedir mais tempo nem dinheiro.
É por isso que o episódio de 5ª feira, em que Vítor Gaspar foi surpreendido a sondar Wolfgang Schäuble sobre a abertura da Alemanha a uma revisão do programa português é uma péssima notícia

13 de Fevereiro de 2012


***

 

 

 


21
Fev13

Demasiadas Aurelias

Catarina Pereira

Aurelia Rey tem 85 anos e mora num apartamento na Corunha desde 1979. Paga 126 euros de renda, mas no último mês não conseguiu cumprir com o senhorio. As autoridades judiciais foram rápidas: ordem de despejo e aparato policial para retirar de casa a idosa.

 

No entanto, não contavam com o apoio que Aurelia teve do povo. Centenas de pessoas colocaram-se à porta de casa da senhora e não deixaram os funcionários judiciais entrar. As imagens, como diria o líder parlamentar do PSD, são até um pouco anti-democráticas. Os senhores até só estavam ali para fazer o seu trabalho: despejar pessoas que não pagam o que devem.

 

A questão não deve, nem pode, ser os meios que estas pessoas utilizaram (e até agora com sucesso) para impedir o despejo. O que nos devia preocupar, e não só a nuestros hermanos, é o fim: os tribunais e a polícia não têm qualquer pudor em despejar de casa uma idosa porque esta não conseguiu juntar uns trocos.

 

Sim, 126 euros de renda é um benefício. Por um apartamento no centro da Corunha, valha-me deus, que sorte que a Aurelia tem. Não vi imagens do interior, embora faça all-in que a casa da Aurelia não poderá ser equiparada à prisão domiciliária de Duarte Lima, mas compreendo que para o senhorio aquela idosa possa ser um empecilho para um grande negócio de aluguer.

 

Até agora, foram oferecidas duas opções à senhora: um lar de idosos ou um apartamento municipal num bairro na periferia da cidade. Dirão alguns que é uma escolha. Gostava que essas pessoas tivessem de a fazer. 

 

A dona Aurelia tem 85 anos e desde 1979 só falhou uma renda. A dona Aurelia, como tantos espanhóis e tantos portugueses, viu a sua pensão cortada, paga mais pelas compras no supermercado e deve ter de fazer o pino para conseguir pagar todos os meses a água e a luz. Não sei, estou a imaginar, mas quantos de nós não conhecem uma Aurelia Rey?

 

No meio disto tudo, salvaram-se os bombeiros. Conta alguma imprensa espanhola que os primeiros a serem chamados ao apartamento de Aurelia (que estava com uma espécie de cadeado colocado pelos manifestantes) se recusaram a ajudar a polícia. Um deles até terá passado para o lado dos activistas. Porra, que homem! Claro que, logo a seguir, veio um superior hierárquico estragar este momento de decência e arrombar a casa. Mas os bombeiros foram, esses sim, superiores a isso.

 

 

Os despejos em Espanha envorgonham a Europa. Que raio de comunidade é esta que expulsa uma idosa de casa sem vergonha, sem culpa, sem responsabilidade? Ah, claro, porque 126 euros são 126 euros e temos de pagar e vivemos acima das nossas possibilidades e não sei quê. Mas milhões deixam de ser milhões quando, em vez de Aurelia, falamos de banqueiros. Não é?

 

 

P.S. Sobre os desahucios em Espanha, recomendo esta reportagem.

21
Fev13

O nosso filme não devia ser este

Nuno Pires

As contradições de elementos do atual Governo são já frequentes, mas ontem de manhã as piruetas de Gaspar foram verdadeiramente acrobáticas. 

 

Num ápice, Vítor Gaspar duplicou a previsão de recessão económica constante do Orçamento do Estado para 2013, passou a encarar o investimento e o crédito como prioridades  e assumiu que o país necessitaria de mais tempo para cumprir as metas definidas com a Troika.

 

Tudo isto sem se rir, corar de vergonha ou esboçar qualquer outra reação particular, não apenas por estar a contrariar praticamente tudo o que tem vindo a defender desde que chegou ao Governo e nos começou a brindar com a sua peculiar capacidade para falhar metas, mas, essencialmente, por estar a negar os pressupostos que estão na base de um Orçamento do Estado que entrou em vigor há menos de 2 meses.

 

Fica a clara sensação de que Vítor Gaspar, face ao descalabro da execução orçamental que se adivinha, está totalmente desorientado e de cabeça perdida, o que, na situação que as famílias e as empresas estão a atravessar, é o pior que poderia acontecer.

 

Numa peça com menos de 2 minutos a RTP sintetizou parte das contradições de Passos e Gaspar. Ver este pequeno vídeo é um exercício que tem tanto de patético como de aterrador, por nos confrontar com a total falta de coerência de quem está à frente do executivo, na altura em que o país mais necessita de um rumo claro e bem definido.

 

A confirmar-se a tendência de Passos e Gaspar para se contradizerem, vamos mesmo viver um triste filme, em que o Governo continuará a tentar encontrar desculpas exógenas para a sua própria incompetência.

 

20
Fev13

Revolta dos sem futuro

Pedro Figueiredo


@TVI


Muito me admiraram algumas reacções de surpresa e contida reprovação à forma como terminou a passagem de Miguel Relvas pelo ISCTE. Menos de 24 horas depois de ter acontecido, basicamente, a mesma cena no Clube dos Pensadores em Gaia. Relvas conseguiu relegar a EMEL e congéneres quase ao anonimato como bode expiatório dos males da vida dos portugueses, que se limitavam a esconjurar as multas que, na verdade, a maioria ignorava. Só que há situações que não dá para ignorar.


Desde o célebre episódio envolvendo a editora de política do Público que o país, de novidade em novidade sobre o ministro da presidência, anda a perguntar quais são as razões (políticas e, acima de tudo, de interesse nacional) para Miguel Relvas continuar no exercício das suas funções, com toda a responsabilidade que tal acarreta.


A oposição pode estar 'amarrada' aos incansáveis pedidos de demissão em sessões de plenário e referências na Imprensa. No entanto, há o direito à manifestação. Contra. Sobretudo àqueles que mais sentem os efeitos das opções do Governo. "Bolsas sim, propinas não" pode parecer fora de moda, mas essa é apenas a antecâmara do que já foi aqui referido neste blog, em relação ao futuro daqueles que estão para terminar a universidade. Foi a revolta dos sem futuro.


Miguel Relvas não discursou no encerramento da conferência promovida pela TVI no seu 20.º aniversário e isso terá incomodado alguns. A liberdade de expressão do ministro nunca esteve em causa. Nem estará. O que não lhe faltam são palcos para teatros. Mas é preciso recordar o que havia respondido na noite anterior, quando lhe foi perguntado porque não se demitia o Governo? «A questão do Governo se ir embora é uma opção que os portugueses vão ter em 2015. Nessa altura, essa questão vai estar na mesa e vão poder optar.»


A questão não está na mesa apenas em 2015. Está sempre. Basta lembrar o Artigo 117.º da Constituição, sobre o estatuto dos titulares dos cargos políticos. O mandato emanado das eleições tinha um prazo de quatro anos, mas tal não significa que o mesmo tenha de ser cumprido escrupulosamente na íntegra. A resposta foi a possível, o que não a torna numa inevitabilidade. Outra.


Para terminar, e porque a Grândola Vila Morena parece estar a tornar-se viral, na sequência da interrupção de Passos Coelho no debate quinzenal na AR por um grupo de pessoas a cantá-la, Ângelo Correia disse na SIC Notícias que não tinha ficado preocupado com o episódio. Estaria mais se fossem um milhão de pessoas a fazê-lo na rua. Pode ser que tenha uma surpresa no dia 2 de Março.

19
Fev13

Taxa de pobreza antes e depois da transferência

Rui Cerdeira Branco

Imagine dois países exatamente iguais com o mesmo PIB, desigualdade de distribuição de rendimento e taxa de pobreza. Agora imagine que em ambos há transferências sociais mas num deles estas são o dobro das que existem no outro.

Feitas as transferências e reapurando-se a taxa de pobreza, descobre-se que, no país onde há mais transferências, a taxa de pobreza desceu mais. No final, vem um político do país com as transferências menos generosas e diz que o seu Estado Social é menos eficaz pois, após as transferências, conseguiu reduzir menos a pobreza. Conclui assim que é preciso reformar o Estado Social talvez mesmo acabar com ele tal é a manifesta ineficácia do dito. 

Creio que fica claro para o leitor que estas conclusões do político são um disparate pegado, afinal talvez o problema seja tão singelamente não haver uma redistribuição dos rendimentos tão significativa ou, de facto, haver problemas de afetação das transferências ou... um pouco de ambas. Certezas, com este tipo de dados, é que ele não pode ter.

 

Em Portugal, mesmo com mais variáveis em cima da mesa (aquela história dos dois países iguais não existe, como se sabe) temos um Primeiro-Ministro que conclui disparates destes e vai mais além.

Triste sina.

 

A ler: "Da série “A Fenomenologia do Ser”: Ignorância ou má-fé? [27]"

19
Fev13

Peticionemos

David Crisóstomo
19
Fev13

O povo é quem mais ordena

O problema não é não saber a letra, é não sentir a canção. Mas em relação a isso já não se pode fazer nada.

 

Grândola, vila morena
Terra da fraternidade
O povo é quem mais ordena
Dentro de ti, ó cidade

 

Dentro de ti, ó cidade
O povo é quem mais ordena
Terra da fraternidade
Grândola, vila morena

 

Em cada esquina um amigo
Em cada rosto igualdade
Grândola, vila morena
Terra da fraternidade

 

Terra da fraternidade
Grândola, vila morena
Em cada rosto igualdade
O povo é quem mais ordena

 

À sombra duma azinheira
Que já não sabia a idade
Jurei ter por companheira
Grândola a tua vontade

 

Grândola a tua vontade
Jurei ter por companheira
À sombra duma azinheira
Que já não sabia a idade

«As circunstâncias são o dilema sempre novo, ante o qual temos de nos decidir. Mas quem decide é o nosso carácter.»
- Ortega y Gasset

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