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365 forte

Sem antídoto conhecido.

Sem antídoto conhecido.

06
Out21

Meritocracia em tempos de pandemia

CRG

Durante anos, foi-nos dito que não se devia desperdiçar uma crise, que havia lições a retirar das dificuldades. Assim, foi com surpresa — ou talvez não — que foi esquecida, no mínimo pouco debatida, a lição principal que se devia retirar destes anos de pandemia: a economia como um sistema cooperativo de produção conjunta. 

 

Ao contrário do que nos é vendido diariamente, a riqueza não é formada por um punhado de empresários geniais, que por via do seu esforço conseguem produzir tudo sozinhos. Nestes tempos de pandemia foi demonstrado, se dúvidas ainda houvesse, que tudo é produzido por todos trabalhando em conjunto; que todos os trabalhadores se encontram interligados numa rede de produção e de consumo.

 

A capacidade de produção de cada trabalhador está, assim, dependente da produção de terceiros, quer seja comida, limpeza, de cuidados de saúde, escola, cuidados domésticos, etc. Durante a pandemia apenas foi possível ficar em isolamento porque outros mantiveram em funcionamento a produção de comida, a recolha do lixo, e para que estes pudessem trabalhar algumas escolas tiveram que se manter abertas para que os seus filhos não ficassem sozinhos. 

 

Deste modo, todos beneficiam da diversidade de talentos e dos papeis numa sociedade, em que ninguém tem uma contribuição muito acima dos demais. Daqui decorre inevitavelmente que deve existir reciprocidade entre todos os trabalhadores e uma justa divisão do lucro. 

 

Esta visão da economia deve ser traduzida nas seguintes formas:

Em primeiro lugar, qualquer salário deverá permitir que qualquer trabalhador a tempo inteiro consiga provir para si as necessidades básicas para viver. Não existem trabalhos menores, são todos úteis para o todo.

 

Em segundo lugar, a redução das desigualdades salariais. Com efeito, "em 2019, somando a remuneração fixa e variável, os CEO em Portugal passaram a ganhar quase 30 vezes mais do que a média do salário dos trabalhadores. Em 2018, ganhavam 25 vezes mais. Em média, cada CEO ganhou 916 mil euros em 2019, um aumento de 20% face ao exercício anterior, enquanto o salário médio dos trabalhadores, ficou-se pelos 29 mil euros, subindo 1,5% em termos homólogos. Esta diferença não é justificável nem aceitável". 

 

Por último, um sistema fiscal justo para todos. Conforme referido supra a sociedade é um sistema de cooperação que produz conjuntamente a riqueza total da economia. Daqui decorre que a sociedade moderna tem uma profunda dependência mútua. Desta forma, todos devem contribuir para a sociedade de acordo com os meios de cada um. 

04
Set21

Chegam pela sombra

CRG

Pat Riley, um dos mais famosos treinadores e dirigentes da NBA, cunhou no seu livro “Showtime” o conceito de “disease of more”: após alcançado o campeonato os jogadores nunca ficam satisfeitos, querem sempre mais, mesmo que seja contra a colectivo, concluindo que o sucesso é normalmente o primeiro passo para o desastre. 

 

A direita portuguesa parece ter chegado a este ponto. Todos os seus grandes objectivos políticos foram alcançados. O impulso final ocorreu com a troika, cuja chegada foi aplaudida por todos à direita - basta recordar o entusiasmo de Eduardo Catroga na assinatura do memorando ou como foi apregoado que iam para além da troika e que esse seria sempre o seu programa.

 

Neste momento, não existe praticamente nada para privatizar. E para o que falta (Caixa Geral de Depósitos, S. A., RTP, Seg. Social, Educação e Saúde) não existe suficiente apoio popular — a TAP é uma exceção em todos os aspetos. A percentagem de funcionários públicos na população empregada em Portugal é inferior à média da União Europeia. O equilíbrio de poder entre capital e trabalho pende claramente para o capital, desde os direitos laborais passando pela tributação. Apesar da manutenção do SNS, ocorreu um aumento substancial do número de portugueses com seguro de saúde - em fevereiro de 2021 já eram quase 3 milhões, cerca de mais de mais 80% dos que no final de 2015. 

 

Portugal pode não ser ainda o sonho liberal de muitos, mas está ainda mais longe do socialismo socialismo estatizante que muitos apregoam. No fundo, Portugal é uma sociedade construída à imagem do centro direita.

 

Face ao sucesso alcançado existe um claro vazio programático. E, por força das regras orçamentais europeias, não pode, neste momento, anunciar uma descida de impostos, sem ser acompanhada de uma redução drástica dos apoios sociais, que seria igualmente impopular. 

 

Nesta encruzilhada a direita aparentemente minoritária, seguindo uma visão verdadeiramente conservadora, procura manter o que há, fazendo pequenos incrementos, evitando a natural entropia do sistema.

 

No entanto, a maioria sofre do “disease of more”. Esta direita pretende continuar a caminhar, alterando ainda mais o centro político de forma a adaptar a este contexto, puxando a janela de Overton para ainda mais à direita.

 

Acontece que a maior parte dessas medidas não têm apoio popular suficiente para ganhar eleições. E aqui surge a ideia de agregar todo o espectro da direita para alcançar o poder. Para isso estão dispostos a fazer explodir o centro. 

 

Assim, assiste-se a uma cada vez maior polarização política:  a um tom crispado e acusatório; à utilização de um discurso anti-sistema contra um sistema totalitário imaginário, apelidando todo o espectro político à sua esquerda de radicalismo enquanto, ao mesmo tempo, normalizam uma extrema direita em ascensão. 

22
Jul21

Qual é o ponto da liberdade?

CRG

Em tempos recentes, a “liberdade” tem sido abusada: por um lado, reivindicado por uma certa direita e por outro lado, curiosamente ou não, por agências de marketing para vender todo o tipo de produtos. Em ambas os casos a liberdade é vista apenas na perspectiva individual. No primeiro caso esta é alcançada através de menos impostos, numa espécie de “trickle down” da liberdade — quanto mais livre eu for, mais liberdade sobra para os outros. No segundo caso através da aquisição do mais recente telemóvel ou de uma bebida gaseificada. 

 

No entanto, a liberdade só existe se esta for universal. Apenas se alcança a liberdade quando todos forem livres. Não é um objectivo individual, mas colectivo. Os cidadãos da Grécia antiga podiam ser livres, mas não havia liberdade.  Os homens brancos podiam ser livres na África do Sul ou nos EUA nos anos 50, mas não havia liberdade. Por ser universal esta não pode estar dependente de qualquer característica individual (cor da pele, sexo ou capacidade financeira). 

 

Deste modo, não há pior forma para definir liberdade do que aquela frase batida que “a minha liberdade acaba quando começa a do outro”*. É precisamente o contrário: a minha liberdade só começa quando o outro também é livre, quando são garantidas as condições de liberdade para todos. O objectivo principal na construção de um Estado democrático é a garantia de liberdade. Ora, se o Estado democrático é na sua essência cidadãos agindo de forma colectiva, a principal obrigação de cada cidadão é, desta forma, garantir para cada concidadão as condições de liberdade.

 

Por sua vez, se a liberdade é uma busca universal, qual a melhor forma de a garantir? Garantindo, como defende Elizabeth S. Anderson, que todos os cidadãos são considerados como iguais. Parafraseando a referida autora: iguais não são objectos de violência arbitrária ou coerção física; Iguais não são marginalizados por outros e consequentemente são livres de participar na política e nas principais instituições da sociedade; Iguais não são dominados, nem vivem à mercê dos desejos dos outros; Iguais não são explorados, pelo que recebem o valor justo pelo seu trabalho; Iguais não são sujeitos a imperialismo cultural, podem praticar a sua própria cultura, desde que respeitando os restantes. Em suma são livres de opressão, de participar e usufruir os bens da sociedade e autonomia democrática.  

 

Esta liberdade é apenas alcançável através de uma sociedade igualitária, que garanta a todos as capacidades necessárias para evitar ou escapar relações sociais opressivas e para funcionar como iguais num estado democrático. 

 

* Esta visão negativa negligencia a importância de ter meios para se fazer o que se quer. 

15
Jun21

Está tudo na net!

CRG

Eu não li o livro Os factos escondidos da História de Portugal – o que os compêndios não nos dizem (Lisboa, Oficina do Livro, 2021) da autoria do José Gomes Ferreira. Nem tenho conhecimentos de história para comentar os "factos" históricos revelados no livro*, para isso sugiro os post de Paulo Jorge de Sousa Pinto e o podcast "Falando de História".

 

No entanto, ouvi as intervenções do JGF nas diversas iniciativas de promoção do livro. Ele resumidamente considera que não se deve confiar nos historiadores, que vivem numa conspiração aliada ao poder político para evitar que o povo português conheça a verdadeira história de Portugal, sendo que esta verdadeira história se encontra na internet ao alcance de um click a qualquer um com bom senso.

 

No fundo, JGF é o homem modelo do efeito Dunning-Kruger, que usa a internet para alimentar o seu viés da confirmação (a tendência de lembrar, interpretar ou pesquisar por informações de maneira a confirmar crenças ou hipóteses iniciais). Este tipo de mecanismo intelectual é bastante comum e pode ser encontrado nos movimentos anti-vacinação, negacionistas das alterações climáticas, negacionistas da covid-19, etc. E os seus efeitos são bastantes perigosos. 

 

Esta situação seria um pouco menos grave, se fosse apenas uma estratégia do autor para vender uns livros. No entanto, as declarações de  JGF sobre a cor do planeta Marte (novamente preconceito contra especialistas, teoria de conspiração, elogios aos amadores, e recurso a páginas da internet) dissipam todas as dúvidas e demonstram que aquele mecanismo se generalizou a todo o seu processo mental. E isso já é preocupante; não só pela posição que ocupa como um dos jornalistas mais importantes no espaço mediático português, mas sobretudo pela capacidade que tem de influenciar a opinião pública — por alguma razão, JFG refere que o livro não é de história, mas de política. 

 

* Sempre se diga, porém, que é no mínimo estranho que um livro que pretende desvendar factos escondidos tenha como principal fonte a internet, mas adiante.

25
Jan21

Feiticeiro do Oz

CRG

"Keep cool, but care"

Thomas Pynchon, "V"

 

As noites eleitorais têm uma característica peculiar: o tempo é passado a serem feitas extrapolações, dinâmicas e narrativas com pouca ou nenhuma relação com os resultados em si. 

 

Na verdade, os resultados das eleições correspondem ao sentido de voto naquele momento e naquele contexto, não mais do que isso.

O contexto nas últimas eleições presidenciais é simples 1) existia um candidato que era favorito, o que propicia o voto protesto inconsequente; 2) o principal partido do centro-esquerda apoiou implicitamente Marcelo, o que levou alguns votantes da direita a procurar alternativas.

 

Ontem, Marcelo Rebelo de Sousa obteve uma maioria confortável. Pela primeira vez na história um candidato presidencial ganhou em todos os concelhos do país. Assim, a principal noticia da noite deveria ser a vitória expressiva do candidato do centro direita, com boas relações com o governo em funções do centro esquerda; e como esta vitória é  indicativa de que o regime, apesar de tudo, está sólido. 

 

No entanto, a análise focou-se no candidato que ficou em terceiro lugar com 12% dos votos, num contexto que lhe era vantajoso. Isto não quer dizer que se deva menosprezar o resultado de um candidato de extrema-direita, mas sim relativizar a sua importância.

 

Ao amplificar os resultados e relevo de um candidato extremista, estaremos - em especial, os outros partidos políticos (sobretudo o PSD do Rui Rio) e os OCS - a criar a imagem de uma figura poderosa, que marca a política e a agenda mediática em Portugal. Enquanto que na realidade, por detrás da cortina, continua a ser um homem pequenino sem poder, "cheio de som e fúria e vazio de significado". É bom que se mantenha assim.

08
Nov20

Chega de faustos

CRG

O percurso da ascensão da extrema direita em Portugal é como ver um filme depois de já se ter lido o livro. 

 

Após a celebração do infame acordo nos Açores, repetiram-se os mesmos argumentos e episódios que tinham ocorrido noutros países em situações semelhantes:

- Factos alternativos

O PSD repetiu por diversas vezes que não havia qualquer tipo de acordo com a extrema direita. 

- Projecção

O PSD não só negou a existência de qualquer acordo com a extrema direita (que finalmente admitiu existir), como acusou de mentiroso quem aludia à existência do referido acordo.

- Os media como inimigos

Na intervenção no fórum da TSF, o deputado do PSD repetidamente referiu-se aos media como "vocês" e acusou-os de empolarem a importância deste assunto (acordo com a extrema direita) em vez de falarem de assuntos mais importantes. 

- Falsas equivalências

O acordo com a extrema-direita que promove a castração química é equivalente ao acordo que o PS celebrou com a extrema-esquerda que promove as 35h semanais para a função pública.

- Demonizar os adversários políticos

Miguel Albuquerque justificou o acordo alegando que o principal inimigo do PSD é o PS. Nuno Morais Sarmento foi ainda mais longe e defendeu que o BE nega os princípios básicos da democracia. 

 

Como defendem Hugo Mercier e Dan Sperber, da Universidade Harvard: “A razão tem duas funções: produzir motivos para justificar a si mesmo e gerar argumentos para convencer os demais”. Ora, perante a ausência de argumentos válidos que permitem legitimar o acordo, apenas resta a utilização destas práticas, que, mais cedo ou mais tarde, destroem a democracia.

 

Assim, os partidos da direita dita democrática reconhecem que chegados a uma encruzilhada fazem acordos com a extrema-direita para alcançar o poder - objectivo que para eles se sobrepõe à própria democracia. É assim tão simples. 

16
Dez19

Chega quando cada um nós quiser

Pedro Figueiredo
Desde da noite de 6 de Outubro que ando a tentar colocar as ideias em ordem para saber o que dizer do facto de Portugal ter, pela primeira vez em democracia, eleito um deputado com públicas soluções fascistas (castração química como pena); racistas (segregação de minorias, apontadas como raiz da criminalidade); e xenófobas (ausência de qualquer sensibilidade para a questão dos refugiados) para alguns dos desafios que enfrentamos enquanto sociedade.
Não interessa aqui discutir o programa político do partido que o levou a São Bento, até porque já não é o mesmo com que se apresentou aos portugueses. Mudou, em dois meses. O ponto aqui é mais a forma e o conteúdo das mensagens que o agora deputado perigosamente propaga, com um sério risco de contaminação dado palco natural que tem. A avaliação ética e moral do mensageiro será objecto de análise individual, mas o que vomita na praça pública pode e deve ser alvo de exaustivo debate nacional, sem se correr na errada falácia de se poder estar a ampliar o eco, precisamente, do que não se quer para o país. No entanto, se não se falar no assunto, não se pode querer que ele desapareça por obra e graça do Espírito Santo. Pelo contrário. banqueiros como Ricardo Salgado deram fortes contributos, precisamente, para que este tipo de mensagens ganhasse sentido na cabeça de muita gente.
Ao paradoxo da tolerância de Karl Popper sobrepõe-se a necessidade de quebrar o silêncio dos momentos que mais precisam que se fale e discuta os reais perigos da demagogia populista. Não embarcar, nesse caminho, nas críticas à comunicação social por dar palco ao deputado, confundindo os objectivos e, acima de tudo, os verdadeiros desalinhados com as mais elementares regras de humanidade.
A chamada de atenção do presidente da Assembleia da República sobre o uso da palavra “vergonha”, por parte do recém eleito deputado numa só sessão, acabou por resvalar para mais um caso em torno da mesma personagem e do seu partido, que não teve pejo em, na primeira oportunidade, colocar um cartaz à porta da casa da Democracia com um recado que acaba por dar toda a razão a Ferro Rodrigues, inicialmente criticado pela iniciativa de mostrar as regras da saudável e elevada oratória.
O cartaz da #vergonha deve apenas envergonhar o seu promotor. Menospreza o mandato para o qual 67.826 portugueses o elegeram – provavelmente todos satisfeitos e orgulhosos com a iniciativa – e esfrangalha a dignidade de se representar uma parte de nós. Com toda a legitimidade, diga-se. O espírito democrático deve sempre prevalecer. A missão até aqui tinha sido impedir, legal e democraticamente, que tal representação chegasse ao hemiciclo. A partir daqui, a meta será a de evitar o seu crescimento. A solução não é impedir que as perigosas mensagens partam do emissor, mas evitar que cheguem ao receptor como a salvação para os males de que sofremos. Compreender as razões que levam a que discursos profundamente desumanos colem em mentes desinformadas. Atacar outros motivos de vergonha nacional que grassam no futebol, na justiça, na saúde, na educação, com desfechos que semeiam a cultura da inimputabilidade de certas personagens, aumentando assim o crescimento do sentimento de frustração e raiva que, invariavelmente, serve na perfeição de incubadora aos destruidores radicalismos.
Portanto, na sequência da velha máxima de um dos inspiradores de conservadores e liberais, Edmund Burke, de que “para que o mal triunfe basta que os bons fiquem de braços cruzados”, do meu lado, não contem com silêncio quando se trata de combater o fascismo, o racismo, a xenofobia, a homofobia e outras doenças que afectem o, já de si frágil, equilíbrio social.
Apesar de ser absolutamente contra divisionismos, sempre que colocam as conversas entre eles e nós, escolherei sempre o nós que inclua o respeito integral pelos Direitos Humanos. Porque, na verdade, poderemos sempre dizer que chega quando cada um de nós quiser.
 

JN.jpeg

Foto: Jornal de Notícias

10
Fev19

Sobre a evolução salarial

Nuno Oliveira

João Vieira Pereira volta ao tema dos salários. Mas não precisava ser tão enganador. Usa intervalos temporais despropositados certamente para iludir a evolução recente. E o que a evolução recente nos diz é que tem havido uma dinâmica salarial crescente no mercado de trabalho.

variação homóloga do rendimento médio mensal l

Se muitos dos novos contratos têm salário baixos não é menos verdade que a recomposição salarial está longe de se esgotar nos novos contratos. Nos últimos 3 anos, a desagregação por escalão de rendimento mostra que há mais 60 mil pessoas a receber menos de 900€ e há mais 120 mil pessoas a receber mais de 1200€.

variação da pop empregada por escalão de rendim

Aliás, se o artigo de JVP mostra algo é a sua profunda insensibilidade para os números. Fala em 600 mil empregos criados, ainda que não se perceba onde foi buscar este número. O volume do desemprego criado pela direita tinha um perfil baixo de qualificações muito marcado.

Ora, não se percebe que medidas idealiza JVP para o volume de desempregados criado em 2011-13. A fórmula da direita para que eles não originassem novos contratos com “baixos salários” era condená-los a um desemprego eterno.

Há dois grandes elementos a condicionar a evolução salarial. A estrutura do nosso tecido produtivo muito dificilmente dissociável do nosso padrão de qualificações. E o prémio salarial que patrões decidem dar a trabalhadores, aqui não independente da capacidade de negociação e da taxa de desemprego.

Ora, existem ainda grande margem de progressão dos salários quando o peso dos salários no PIB é da ordem de 44% muito abaixos dos 50% de muitos países da Europa. Mas sobre este indicador, JVP parece ter pouco ou nada para dizer.

peso dos salários e contribuições pagas ao trab

Mas percebemos que seria muito pedir a JVP que se pronunciasse sobre medidas que aumentem a capacidade reinvidicativa dos trabalhadores visando uma mais justa remuneração do trabalho, visando uma mais justa distribuição da riqueza.

17
Nov18

Revenge do romantismo

CRG

"By gaining greater knowledge of how others think, we can become less certain of the knowledge we think we have, which is always the first step to greater understanding."

Julian Baggini

 

A História não se repete, mas rima. Para encontrar a rima perfeita dos nossos tempos deve-se recuar ao romantismo do início do século XIX. Este período caracterizou-se por enfatizar a emoção, o individualismo e pela glorificação do passado e da natureza. Surgiu como uma reacção à revolução industrial, ao racionalismo e às normas políticas e sociais do Iluminismo — oposição à modernidade. Outra das suas ideias e um dos seus legados mais importantes foi o movimento nacionalista. 

 

É impossível não reconhecer nestas características o actual zeitgeist: o movimento anti-vacinas; a moda da "união com a natureza", das dietas paleo e dos produtos sem químicos (ou lá o que isso possa querer dizer); os negacionistas do aquecimento global; a exacerbação do indivíduo; o ressurgimento de movimentos nacionalistas. Mas como se chegou aqui?

 

As "real news"

 

Nos últimos tempos o foco da discussão tem sido as fake news e os seus efeitos no sistema democrático. No entanto, não deverão ser igualmente analisados os efeitos dos ciclos noticiosos de 24 horas como argumenta Tyler Cowen num artigo da bloomberg?

 

As instituições nunca estiveram tão expostas ao crivo público como estão hoje — e ainda bem, assim como é positivo o aumento do nível de exigência sobre estas. Álvaro de Campos sabia porém que somos todos vis e erróneos nesta terra, se submetidos a uma análise minuciosa e constante. Uma das principais alterações nas sociedades contemporâneas foi a redução ao mínimo do custo da informação bem como a facilidade no seu acesso, isto é, nunca, como hoje, foi tão simples e barato consumir informação. Por sua vez, as linhas editoriais estão desenhadas para relatar erros e insuficiências e sustentar ao máximo qualquer polémica que possa dar audiência. Deste modo, a facilidade de acesso à informação, as linhas editoriais e o intenso ciclo noticioso amplifica a percepção pública das falhas das organizações, sobretudo comparado com um passado em que a exigência e a transparência eram menores. 

 

Se estes factores forem menosprezados a sociedade é tomada pelo cinismo — um instrumento de defesa sofisticado destinada a justificar compromissos, a desculpabilizar a realidade, permitindo que os seus utilizadores planem sobre esta — e pela desconfiança, e cria igualmente uma nostalgia de um passado ficcional que teria sido mais nobre e ético. Assiste-se à submissão resignada do sujeito ao mundo que o rodeia: a aceitação consciente do estado das coisas actuais e futuras, bem como o seu aproveitamento sob o manto de "todos assim o fazem". Revelador deste cinismo é a própria análise dos media do discurso político que centra-se sobretudo na sua vertente táctica ou de marketing, em vez da sua sinceridade ou na capacidade de ser inspirador. 

 

Ao mesmo tempo, a crise financeira de 2008 e a resposta ineficaz, em muitos casos errada, aos seus efeitos conjugada com o húbris das elites potenciou o crescimento do cinismo e acelerou a desconfiança no sistema político e nas instituições em geral (financeiras, universidades, media tradicionais). 

 

Num contexto de crise das instituições os factos são desvalorizados, uma vez que tal como defende Latour "facts remain robust only when they are supported (...) by institutions that can be trusted, by a more or less decent public life, by more or less reliable media.” 

 

Liberalismo

 

O liberalismo, a actual ideologia dominante, diz-nos que "o eleitor é soberano, o cliente tem sempre razão e que devemos pensar por nós próprios e seguir o nosso coração"*. Tal como no individualismo do romantismo esta visão de liberdade ilimitada não consegue sobreviver ao dilema do relativismo que gera ou as perversões de tirania e exploração que produz. Na verdade, no seu extremo a opinião individual, o que eu sinto, predomina sobre tudo, inclusivamente a verdade, o que origina uma epidemia do efeito Dunning-Kruger. Temos então uma cultura que sobrevaloriza a opinião individual e uma estrutura institucional demasiado enfraquecida para sustentar a "robustez dos factos".

 

Por outro lado, a infinitude da internet alimenta o viés da confirmação (a tendência de lembrar, interpretar ou pesquisar por informações de maneira a confirmar crenças ou hipóteses iniciais). Esta predisposição abre espaço às "fake news", cujo papel não é mais do que reforçar as crenças dos seus destinatários. Conforme escreveu o filósofo inglês William Kingdon Clifford "No real belief, however trifling and fragmentary it may seem, is ever truly insignificant; it prepares us to receive more of its like, confirms those which resembled it before, and weakens others; and so gradually it lays a stealthy train in our inmost thoughts, which may someday explode into overt action, and leave its stamp upon our character". A conjugação de todos estes elementos cria a tempestade perfeita: as crenças individuais ficam reforçadas e na ausência de espírito crítico há a recusa de quaisquer factos e opiniões desafiantes, chegando a ser hostis a estas.

 

Política identitária

 

O indivíduo, já sem confiança nas instituições cada vez menos capazes de lhe dar respostas perante um presente cada vez mais incerto e volátil, sente-se impotente e sozinho. Em situações de incerteza a tendência é agarrar com mais força ao que se tem, recear o desconhecido e, paradoxalmente ou não (o ser humano é um animal social), recuar ao tribalismo. 

 

O problema do tribalismo é que encerra a discussão em si mesma: há uma atitude defensiva, numa visão maniqueísta de nós contra os outros, que se vai auto-alimentando. Neste campo cresce o nacionalismo e o egoísmo; deixa-se de acreditar que é possível defender alguma posição sem que exista algum incentivo, a manutenção de algum privilégio ou um qualquer interesse oculto. A sociedade fica entrincheirada em diferentes facções, sem lugar a compromissos, cada vez mais longe do ideal de justiça de Rawls, colocando em causa o sistema democrático.  

*A nomeação em 2006 do indivíduo como pessoa do ano pela revista Time talvez tenha sido um prenúncio dos nossos dias.  

«As circunstâncias são o dilema sempre novo, ante o qual temos de nos decidir. Mas quem decide é o nosso carácter.»
- Ortega y Gasset

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