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365 forte

Sem antídoto conhecido.

Sem antídoto conhecido.

23
Jan15

O mastro mais alto do barco

Teresa

Era desta forma que um meu professor, na primeira aula da cadeira, descrevia o Direito de Família. Se a sociedade era o mar e o Direito Civil um barco o mastro mais alto era o que primeiro indicava qualquer alteração nas águas e a ela se adaptava de imediato baloiçando de acordo com a ondulação.

Senhor Professor Doutor, informo-o, lá onde estiver, que agora não é assim. As águas baloiçam, os mares mudaram, mas os nossos homens das leis insistem em manter o mastro mais alto firme e hirto como uma barra de ferro, dizem eles que para o salvar, digo eu que assim vai partir não tarda. Leis da física, entendem? 

Ontem o Parlamento voltou a rejeitar a possibilidade de adopção e apadrinhamento civil por casais do mesmo sexo. Parece que estão cheios de boas intenções, querem defender uns direitos quaisquer das crianças e uma noção qualquer de família e estão convencidos, para além de que têm razão, que as tais águas onde navegamos estão serenas e não sentem qualquer alteração. Não percebem que o medo os paralisou e à força de não se mexerem ficaram atolados no lodo e o barco, o nosso, há muito que já navega por longe, noutras águas, já conseguiu cruzar o Cabo Bojador e até já lhe mudou o nome para Boa Esperança.
 
Senhores deputados do não, venham comigo até às águas onde nós, que não os senhores, navegamos, gostava de vos mostrar como é a vida cá fora, onde o mostrengo e os ventos do medo e dos preconceitos já não prendem os pés de ninguém. Vou deixar-vos espreitar o meu mundo, o da Teresa que assina o post lá em cima, porque o meu mundo é deste mundo e devia ser do vosso mundo também.
 
Comecem por conhecer minha avó, a beirã que cresceu embalada no conforto dos teares da fábrica do pai, que já tinha sido do avô, que já tinha sido do bisavô. Tradicionalista, católica, conservadora, que nunca se afastou um milímetro das suas convicções mas que sabia, acima de tudo, o que era uma família, o que era afecto, o que era amor, que via o mastro maior a mexer e baloiçava com ele, e que me amou perdidamente e às minhas filhas mesmo vivendo eu no pecado mortal de nunca me ter casado, mas isso era lá com deus e ela era só uma avó, que entendeu quando as mesas de Natal apareciam com menos um lugar porque um amor tinha acabado e o divórcio tinha sido o mais correcto, que aceitou sem olhares de lado o homem por quem um dos netos se apaixonou e casou porque percebeu isso mesmo, que estavam apaixonados e, mesmo dizendo que esse já não era o tempo dela, o reconheceu como digno, era outra família mas uma família também. 
 
Venham até a uma pequena aldeia do interior algarvio onde as minha filhas, há mais tempo do que aquele em que alguns de vocês sentam o rabo nessas cadeiras que também são nossas, andaram na escola e onde o A., com 9 ou 10 anos, me foi apontado pelos amigos como o menino mais corajoso de todos, o menino que não respondeu à professora que queria ser médico, ou carpinteiro, ou nadador salvador, o menino que se levantou e disse que queria ser menina. O menino mais popular e querido da escola por isso mesmo, por os outros meninos respeitarem e admirarem a coragem dele.
 
Venham comigo ao princípio deste século XXI e assistam ao baptizado das minhas filhas que a minha mãe, pilar da sociedade, exemplo a seguir, católica militante, filha da minha avó, fez questão de organizar e a que, por amor a ela, somos uma família, percebem?,  não me opus porque água na cabeça pode constipar mas não tira bocado e vejam o padrinho de uma delas, uma bichona brasileira maluca, um dia pen friend lá ao longe de uma de nós e quase logo a seguir membro honoris causa da enorme família, tradicional como gostam, vejam-no a subir a nave da igreja matriz, monumento nacional, lugar importante e digno, espectador há séculos da vida de tantas famílias, até daquelas que agora os senhores representam, levando ao colo a minha bébé Down com o seu longo vestido branco bordado a contrastar divinalmente com o fato vermelho brilhante do padrinho,  DKNY sêu padre, gostá?, e as gargalhadas do senhor prior e o sorriso enternecedor de toda a gente. É padrinho católico, ainda bem, não foram feitas perguntas apesar da evidência entrar pelos olhos dentro em tons de vermelho vivo, padrinho civil não pode ser porque agora é casado e os senhores, que deviam ser menos papistas que o papa, não deixam.
 
Venham à minha rua, à rua para onde voltei, à escola das minhas filhas, aos cafés desta cidade pequenina, vulgar, chata. Venham ver como as filhas da F. e da C. são felizes, como não são apedrejadas nos jardins, como são iguais a todas as outras da creche, venham à escola secundária ver os namoros nos mesmos cantos onde também já namorei mas sem que agora a miudagem pare para reparar se é menino ou menina, apesar de repararem, e reclamarem, por outros, quase tão tontos como vocês, lhes terem bloqueado na escola o acesso ao site da Amnistia Internacional por causa de um encontro LGBT.
 
Venham conhecer o antigo director da escola básica, o fabuloso C, cheio de penas e plumas, qual Ney Matogrosso de província, mas respeitado por pais, colegas, funcionários e adorado pelos miúdos.
 
Venham passar o Natal com a minha outra família, a escolhida, onde há irmãos que são irmãos sem o serem, onde nenhum casal tem filhos em comum mas conta os do outro como próprios, onde há ex maridos com as novas mulheres e ex mulheres com os novos maridos e crianças aos pulos e felizes por terem a família junta e onde a M e a P são o casal mais antigo, o sobrevivente às ondas do mar, avós de coração da miudagem toda.
 
Senhores deputados do não, as águas já mexeram há muito, o mastro mais alto do barco abana que se farta e o Direito de Família devia abanar com ele antes que deixe de ser Direito e, muito menos, da família.
 
Em 2007 a minha filha mais nova tinha 10 anos e pouco antes do referendo sobre o aborto telefonou à avó. Explicou-lhe que tinha 10 anos, não a deixavam votar, mas o que ia ser decidido poucos dias depois ia ser muito mais sobre a futura vida dela do que sobre a vida futura ou actual da avó portanto, se não se importasse muito, minha filha é educada senhores deputados, depois disto tudo é-vos estranho, não é?, a avó podia, em sua representação, fazer a cruzinha no quadrado do sim?
 
Senhores deputados do não, o vosso voto também não mexe com a vossa vida mas com a vida de miúdos, talvez de 10 anos, a quem também não deixam votar apesar de serem os principais interessados e que, talvez, não tenham avós para votarem por eles. Nem pais, nem mães, nem provavelmente  ninguém, mas a quem os senhores deputados, com receio de enjoarem com o balanço do barco e fazerem má figura a vomitar na amurada ou serem, medinho, muito, compreendo-vos, atirados borda fora,  se recusam a dar a possibilidade de virem a ter uma família. Será que é preciso dar-lhes o vosso número de telefone para vos poderem fazer o pedido simples que a minha filha fez à avó? 
- Votem por nós, pensem em nós, deixem-nos ter uma família, diferente de todas as outras porque as famílias são todas diferentes, igual a todas as outras porque as famílias são todas iguais, sintam o balanço do mar e olhem para o mastro mais alto do barco sem medo, nós agradecemos.
 
Eu também. 
22
Jan15

Crimes há muitos, seus palermas.

Teresa
 

Se um funcionário, um qualquer funcionário, passar informações sobre processos em segredo de justiça em troca de, sei lá, a promessa de um café, no fim de ano, no Brasil, ou até mesmo de uma caixita de robalos, estamos perante uma violaçãozinha do segredo de justiça, dois anos de cadeia no máximo ou seja coisa nenhuma, um crimezeco tão menor que pelos vistos preocupa pouco quem se costuma preocupar tanto com outras coisas ou isso não poderá ser um crime de corrupção, crime nobre, crime que põe procuradores e juízes aos saltos? Eu costumo baralhar-me mas vejam lá se o que acabei de descrever não se parece muito, mas muito, com isto: 


Respondam-me sem se rirem, as informações dos processos que são passadas cá para fora não são, de alguma forma, pagas? E o pagamento, vejam ali em cima se fazem favor, pode até não ser patrimonial, umas portas abertas quando for preciso pode ser pagamento qb. Querem portanto que eu acredite que o funcionário que sopra primeiras páginas de jornais para linxamentos na praça pública o faz só porque não tem tento na língua?  

Deixemo-nos de brincar às casinhas, o que nos últimos anos tem vindo a acontecer já não é só a violação reiterada do segredo de justiça, é um indício, grande, de corrupção na justiça, porque essa paranóia de que todos os políticos são potencialmentes corruptos e todos os agentes de justiça potencialmente uns santos dá jeito a muita gente mas eu sou niquenta e não como tudo o que me querem fazer engolir. 

Talvez, sei lá eu, fosse de investigar isto a sério, com escutas telefónicas e tudo, assim como se faz com os outros todos, os corruptos, porque isto parece-me coisa grave e até organizada e associações criminosas não são só as que se dedicam ao tráfico de cocaína no meio de caixas de bananas. 
21
Jan15

Eu também não sou a Angelina Jolie mas já vale tudo e mais um par de botas

Teresa

"Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos". Assim o diz o primeiro parágrafo do primeiro artigo da declaração universal dos direitos humanos proclamada pela assembleia geral da ONU. Essa, essa mesmo, essa ONU que trata a Angelina Jolie com umas honrarias com que não me trata a mim e se é por ser mais gira estão bem enganados que eu também sou um bocadinho esperta e às vezes simpática, nós somos iguazinhas, dizem eles e digo eu, portanto é discriminação pura e até o Guterres, que parece que é quase santo, anda todo pimpão com ela ao lado e a mim não me liga nenhuma. E se o Guterres vai com a Jolie  visitar campos de refugiados porque acha que se fosse comigo tinha menos visibilidade relembro-o, e aos senhores da ONU, que estão a discriminar-me só porque sou um bocadinho mais baixa que ela, um pouco, quase nada, mal se nota, se me pusesse em bicos de pés também me iam conseguir ver nas fotografias.

 
E a argumentação ridícula pode ficar por aqui, penso que toda a gente já me percebeu.
 
Eu não sou a Angelina Jolie e o preso 59 do estabelecimento prisional do Linhó também não é José Sócrates. É um ilustre desconhecido que, como ele, nasceu livre e igual em dignidade e direitos mas, temos pena, - eu às vezes tenho, de não ser a Jolie - não é José Sócrates. José Sócrates, como o advogado dele frisou em entrevista à SIC, é um ex primeiro ministro e é um ex primeiro ministro especial, porque se nem todas somos Jolies os ex também não são todos iguais, perguntem lá ao Woody Allen se no meio das outras ex mulheres a Mia Farrow não é uma ex especial.
Se me estais a seguir e se me fiz explicar temos, até aqui, que José Sócrates não é um desconhecido, é um ex primeiro ministro do nosso país, e não é um ex primeiro ministro qualquer -  parecendo-me absolutamente despiciente se tiver de explicar porquê, despiciente e denotador de alguma má fé se a pergunta for feita - mas a tudo isto, que já não é pouco, acresce que é um preso com um regime especial. Sim, exactamente isso, preso com regime especial, tal qual está escrito no Código da Execução das Penas e das Medidas de Segurança e no Regulamento Geral dos Estabelecimentos Prisionais. Já agora, e antes que o Coiso, bendito nome, em mais um brilhante rasgo de jornalismo de investigação descubra que estes dois diplomas foram paridos por Sócrates e o regime especial dos presos preventivos foi lá metido porque na altura já tinha um amigo, que tinha um amigo que lhe soprou que mais de três anos depois iria ser preso e seria avisado pôr um Especial na lei, a mesma especialidade aparece referida nas Regras Penitenciárias Europeias, recomendação feita em 2006 aos ministros dos estados membros e nessa altura Sócrates andava entretido com o Freeport, não era?, tinha pouco tempo para estes tremoços, e não deve ter conseguido pôr lá um outro amigo para lhe fazer este jeitinho.
 
Ora portanto, a lei diz, e quando a lei diz nós ouvimos, que a prisão preventiva, a de Sócrates e a de um 59 qualquer, tem um regime especial e que "A prisão preventiva, em conformidade com o princípio da presunção de inocência, é executada de forma a excluir qualquer restrição da liberdade não estritamente indispensável à realização da finalidade cautelar que determinou a sua aplicação e à manutenção da ordem, segurança e disciplina no estabelecimento prisional". E a lei diz que presos preventivos têm algumas regalias que os outros presos não têm, visitas todos os dias, por exemplo, ouviste Coiso?. A lei, a que diz, diz muitas coisas, mas não diz que cachecóis do Benfica são proibidos e muito menos edredons, sim, a lei diz que a roupa de cama é fornecida pelo estabelecimento prisional mas não diz, e se não diz a lei está lixada porque devia dizer se queria mesmo que os presos não tivessem edredons, que para além dessa roupinha básica gentilmente cedida pelo Estado português não podem ter outra a não ser que, e isto a lei não diz mas vai dizendo, haja perigo de a usarem para se enforcarem com ela mas parece-me que no dia em que, até o Coiso, já referi que é um grande nome?, disser que Sócrates se quer enforcar com um edredon um pais inteiro vai rir. Apesar de que, pensando bem, talvez seja um favor que nos faça, umas boas gargalhadas nunca são demais.
E, já agora, a lei, a que vasculhei do cimo ao fundo porque, raios!, aquela história das botas de cano alto andava a moer-me, também não diz que os presos, especiais ou não, Sócrates ou não, ex primeiros ministros ou não, não podem ter botas de cano alto mas eu até gostava que dissesse, esta eu gostava de ver por escrito, assim em letra de forma. Gostava de ver definido cano alto na lei, naquela que é aplicada a todos, quarenta e quatros ou cinquenta e noves, é que há gente de perna curta, portanto cano alto, na lei, seria o que batesse acima da barriga da perna do recluso ou o que tivesse mais de 20 cm? E era qualquer cano alto ou só cano alto com cordões? E se fosse botim com salto de agulha, já podia? E a bota alentejana, pelo meio da perna mas arma quase letal, essas são usadas nas cadeias portuguesas? Sapato de verniz mata baratas nos cantos, com biqueira que tira olhos, são permitidos? A lei fala em calçado, assim só, calçado, o recluso pode ter o seu próprio calçado, mas parece-me que está na altura da Fátima Campos Ferreira chamar Carrie Bradshaw e o director geral dos serviços prisionais para que num Prós e Contras que até eu veria ser, finalmente, discutida a definição dos vários tipos de calçado e as vantagens e desvantagens de serem usados nas cadeias portuguesas.
 
Há uns anos, valentes, explicaram-me que, apesar de tudo, e tudo é o tudo que se sabe, a prisão de Caxias antes de 74 era a que melhores condições tinha para os reclusos e isso aos presos políticos se podia agradecer. Ao contrário do preso comum habitual nessa época eles eram gente informada, reivindicativa, que fazia barulho e se fazia ouvir. Li há uns dias um relato de um deles, de como ele e os companheiros lutaram pelo direito de terem uma festa de Natal privada, só isso, uma festa de Natal, coisa quase tão prosaica como umas botas de cano alto.
Não me lembro de alguma vez ter ouvido discutir a problemática dos edredons e das botas de cano alto e dos cachecóis do Benfica nas prisões, não me lembro de alguma vez se ter discutido tanto na praça pública os direitos dos presos, do 44 ou do 59, direitos simples, direito ao conforto de um edredon, de umas botas de cano alto, de um cachecol, direitos que nem nos parecem direitos de tão irrelevantes que são mas que pelos vistos não são tão básicos assim nas cadeias portuguesas, isto presumindo que Sócrates não tenha um regime especial dentro do regime especial, presumindo..., direitos a que a lei parece que dá direito mas que podem, ou não, estar-lhes vedados por umas regras quaisquer que não conhecemos e a que nós, cidadãos honrados, não precisamos de ter acesso porque é coisa lá deles, dos presos, mas se  estamos agora a discutir esses direitos, simples, prosaicos, ao preso 44 de Évora o devemos e sim, é o devemos, porque discutir direitos, por mais que nos pareçam irrelevantes, de quem quase nunca se consegue fazer ouvir só pode trazer vantagens a quem não tem voz e fazer de nós melhores cidadãos e o 44 de Évora, doa a quem doer, incomode quem incomodar, seja incompreensível para quem não quiser perceber, é uma Angelina Jolie dentro do sistema prisional. E não, ó Coiso, não te baralhes, não tem nada a ver com o dormir com o Brad Pitt, o actor nem era esse, já se te confundem os pensamentos, é normal, Pavlov explica, mas é porque ele apesar de ter nascido igual a todos nós em dignidade e direitos chama-se José Sócrates, foi primeiro ministro do nosso país, não foi um primeiro ministro qualquer e sim, tem um vozeirão que, mesmo calado, se faz ouvir e, tal qual como a outra, basta-lhes estar lá para nós, iguazinhos a eles, diz a ONU, lhes darmos a atenção que não damos a um 59 qualquer ou, vá-se-lá saber porquê, sou só um bocadinho mais baixa que ela, não daríamos a mim, eu própria, num campo de refugiados do Sudão.
 

 

09
Jan15

Do medo

Teresa

Quando na manhã do dia 11 de Março de 2004 ouvi as primeiras notícias sobre as bombas na estação de Atocha o meu primeiro pensamento foi que muito poucos dias antes, àquela mesma hora, eu estava lá. É inútil pôr uma pose de boa pessoa e tentar disfarçar porque a verdade feia é que na altura, ao ouvir as notícias, não pensei nos que tinham morrido mas sim que podia ter sido eu e tive medo, um medo estúpido mas medo, e foi sem conseguir largar esse medo que me meti no carro para fazer os poucos quilómetros que me separavam do trabalho.

Nessa altura vivia no Algarve e o caminho do costume era uma estrada secundária com pouco ou nenhum trânsito e era por ele que eu seguia acompanhada pelo meu medo e pelas notícias do atentado que iam chegando pela rádio até que, numa curva mais manhosa, a carrinha branca de caixa fechada que seguia à minha frente derrapa, entra na berma e vira-se. Parei imediatamente a uns metros de distância, a carrinha estava meio desfeita e completamente tombada para um dos lados e da única janela livre saía um braço e esse braço que não se mexia era o único indício de gente que eu conseguia ver. Não presto para grande coisa em situações de sangrias desatadas e não sabendo o que me esperava liguei para o 112 sem sair do carro, de certeza que ajudariam mais do que eu, e comecei a responder às perguntas que me faziam do outro lado até chegar à parte do quantos feridos são e qual o estado deles. Expliquei,com algum embaraço, que não fazia a mínima ideia porque não me queria aproximar e de onde estava só via um braço imóvel mas a insistência, que se percebe, era grande e fui convencida a ir verificar o número de feridos.
Tinha acabado de sair do carro quando uma porta da carrinha tombada se abriu e começou a sair gente: um, dois, dois homens, dois homens cambaleantes vestidos de túnicas brancas até aos pés e turbantes na cabeça.
 
Fugi. Fugi sem olhar para trás. Desliguei o telefone, meti-me outra vez no carro e fugi dali o mais depressa que consegui. Madrid, Atocha, bombas e o meu medo fizeram com que no Algarve, no meio de uma estrada pacífica e conhecida, aqueles dois homens de túnicas brancas até aos pés e turbantes na cabeça deixassem de repente, só porque tinham túnicas brancas até aos pés e turbantes na cabeça, de ser dois homens que tinham acabado de ter um acidente e que eu queria ajudar e passassem a ser dois perigosos terroristas fugidos de Espanha com uma carrinha de caixa fechada cheia de explosivos. E aquilo tinha andado aos rebolões e ia rebentar tudo e eu ia morrer como não tinha morrido na estação.
 
Puta de medo que fez com que, ainda hoje, tenha vergonha de mim mas é desse medo que eu tenho medo porque já o experimentei e sei que é esse estúpido e preconceituoso medo que nos transforma em animais irracionais que ou fogem ou atacam.
E a tal vergonha, a mesma que ainda hoje tenho, de pouco nos serve depois.
08
Jan15

Je ne suis pas Charlie

Teresa

Desde logo porque já escrevi e apaguei o título deste post umas quantas vezes porque tenho medo, leram bem, medo, que me levem a mal.

Mas gostava, gostava de ser Charlie, ou melhor, gostava de ser destemida, de abrir a boca sempre que acho que o devo fazer e deitar cá para fora tudo o que me apetece dizer sem receio das consequências. Mesmo que as consequências pudessem ser, e quase nunca o são, uma rajada de tiros.
Ontem muitos foram Charlie, foram-no todos aqueles que saíram para as ruas sem medo de uns malucos que por lá andavam à solta carregados de armas, mas nós, os que acenamos com um JeSuisCharlie cá de longe sem receios de maior, continuamos de joelhos porque temos medo de morrer de pé. Ou de ser despedidos. Ou de ser mal vistos pela vizinhança. Ou de desagradar ao chefe, à namorada, aos amigos, ao gerente do banco, aos filhos teenagers, ao editor do jornal, ao político da praça, aos donos disto tudo.
 
Este não foi um atentado contra a liberdade de expressão, ou contra a humanidade, ou contra a Democracia, este foi um atentado contra a coragem de alguns, contra os que ainda não têm medo. A liberdade de expressão não tomba pelas mãos de uns encapuçados que matam a frio com tiros na nuca e fogem a seguir, a liberdade de expressão não treme assim, os três assassinos, e é só isso que eles são, assassinos, têm o poder de matar mas depende só de nós que passem a ter também o poder de abalar todos os nossos valores. Estes homens têm nomes e rostos e são eles, e só eles, que devem responder pela barbárie de ontem. A liberdade de expressão não foi atingida a tiro mas ao levantarmo-nos em massa contra um inimigo desconhecido estamos sem balas mas com o nosso medo a pôr em causa um outro princípio fundamental, o da justiça. Não procuremos a mão que embala o berço mas a que dispara a arma, que estes homens, estes e só estes, os que dispararam as armas, sejam perseguidos, apanhados, julgados e punidos de acordo com as regras civilizacionais de que todos nós, sem medo, nos recusamos a abrir mão.
 
Ontem homens foram assassinados porque sem medo exerciam o seu direito de se expressarem e a melhor, e única, forma de lhes fazermos justiça é de acordo com as mesmas regras do estado de direito que lhes permitiam serem livres nas suas convicções apanharmos os assassinos e julgá-los mostrando-lhes que independentemente das suas crenças pessoais ou dos gritos por um divino qualquer, eles não passam de criminosos comuns sentados num tribunal ao lado de outros criminosos comuns porque violaram a lei.
Generalizarmos a discussão com atentados à liberdade é estarmos a fazer a guerra deles, uma guerra santa qualquer onde todos os bons são Charlie e onde todos os outros são Saïd Kouachi, Chérif Kouachi e Hamyd Mourad.
 
 
 
06
Jan15

Escumalha

Teresa

Morais Sarmento diz que “Sócrates apanhou uma ponta em que já saiu da discussão das ilegalidades e vamos andar a discutir os direitos fundamentais”. 

 
Um miúdo numa loja de gomas, o Santana na mansão Playboy, o Tio Patinhas na caixa forte. Olho para esta frase do Sarmento e fico tão deliciada por se ter enterrado assim que não há imagem que consiga ilustrar a minha satisfação e só tenho uma dificuldade, pequenina, começo por onde?
Pelo princípio, pois então, pelo emissor, pelo próprio Dr. Morais Sarmento, licenciado em Direito, pós graduado na Católica sem constar que tenha sido ao domingo, distinto advogado, político, comentador, ex ministro da Presidência, de Estado, dos Assuntos Parlamentares, ex representante de Portugal em Comissões várias, ex muita coisa no PSD, e, last but, definitivamente, not least, ex membro do Conselho Superior do Ministério Público e ex membro da Comissão Nacional da Protecção de Dados. Ah, e brasonado, se bem que isso me interesse tanto como os direitos fundamentais lhe interessam a ele.
Curriculum de peso a indiciar sabedoria, longe, muito longe do solitário e iletrado anónimo que em caixas de comentários debita sentenças cheias de fel em vocês com cedilha mas muito, muito, mais perigoso. Se o solitário e iletrado anónimo pode, quanto muito, dar uns pontapés na gramática e maltratar a língua portuguesa sem consequências de maior o Dr. Morais Sarmento, homem ilustre dedicado à coisa pública, ou é, afinal, um ignorante ou é um malvado e numa penada, por acaso também muito pouco ortodoxa gramaticalmente falando, maltratou não só a língua portuguesa mas os próprios fundamentos do Estado de Direito. Maltratou Portugal.
O Dr. Morais Sarmento sabe e tem obrigação de não esquecer que Sócrates não pode discutir ilegalidades porque as ilegalidades discutem-se, apuram-se, determinam-se, medem-se, na audiência de julgamento e até lá só existem, ou não, factos e só existem, ou não, provas desses factos e se alguma discussão pode haver será sempre e exclusivamente sobre factos e provas e essa discussão faz-se, como o Dr. Morais Sarmento sabe e tem obrigação de saber, no âmbito de um processo penal, processo esse que o Dr. Morais Sarmento sabe e tem obrigação de saber, está limitado, condicionado, enformado, pelos tais direitos fundamentais que o Dr. Morais Sarmento não quer ver Sócrates a discutir quando são os únicos que se podem, e devem, discutir agora. Este é um dos princípios fundamentais do Estado de Direito que o Dr. Morais Sarmento já tantas vezes jurou defender em nosso nome.
Dr. Morais Sarmento, dou de barato as suas passagens pelos governos do PSD, deles espero ministros como o senhor e só alguns, poucos, me surpreendem, pelos orgãos do partido, pelas televisões, pelas rádios e pelos jornais mas considero extremamente perigoso que um homem que menospreza os direitos fundamentais e veste a beca de juiz na praça pública para apontar ilegalidades a dedo tenha feito parte do Conselho Superior do Ministério Público, da Comissão Nacional de Protecção de Dados e que tenha representado a República Portuguesa na Direcção da Autoridade de Controlo Comum do Espaço Schengen.
Peço-lhe, por favor, que na próxima vez que o convidem para um cargo que implique conhecimento e respeito dos tais direitos fundamentais que considera meras cortinas de fumo que desviam de uma essencialidade qualquer por si determinada, invoque incapacidades de toda a espécie e se faça subsitituír por um sapateiro a tocar rabecão porque esse já toda a gente presume que não é músico e toca mal mas o senhor, ou não sabe do que fala e anda há anos a ser levado a sério ou é profundamente desonesto e, quer num caso quer noutro, o mal que nos pode fazer a todos vai muito além de umas fífias.

 

«As circunstâncias são o dilema sempre novo, ante o qual temos de nos decidir. Mas quem decide é o nosso carácter.»
- Ortega y Gasset

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