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365 forte

Sem antídoto conhecido.

Sem antídoto conhecido.

07
Fev17

Trump, a infecção oportunista de um organismo doente

Sérgio Lavos

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Factos alternativos. Pós-verdade. Pós-facto. Diferentes nomes para algo que todos os políticos usaram ao longo dos tempos: propaganda. Os regimes democráticos usam-na, os totalitários também. Mas a propaganda dos nossos tempos tem outro rosto, mais feio, mais perigoso. A derrocada dos media tradicionais e a ascensão das redes sociais e dos media alternativos, on-line, levou a que o mundo se enchesse de um ruído de tal forma ensurdecedor que qualquer pessoa se perde facilmente num caudal lamacento onde verdade e mentira se misturam de forma quase indistinguível. Não se trata de um processo amoral, de progressiva substituição da verdade pela mentira, o que costuma acontecer com a propaganda tradicional dos regimes totalitários: o Estado substitui a realidade por uma realidade alternativa, a verdade pela mentira, e os cidadãos apenas têm acesso à narrativa oficial do regime. No mundo pós-facto, toda a gente tem acesso a todas as narrativas, mas não consegue separar o que é falso do que é verdadeiro. Do ponto de vista da ética, as categorias “verdade” e “mentira”, que podemos classificar como duas faces da mesma moeda (a primeira é um valor “positivo” e a segunda um valor “negativo”), deixaram de existir, foram abolidas. Não absolutamente, claro: o bem e o mal ainda existem como valores éticos, simplesmente torna-se muito difícil catalogar a informação que recebemos, classificá-la correctamente de acordo com os princípios universais que regem o comportamento humano.

O livro 1984 trepou aos primeiros lugares dos tops depois da tomada de posse de Trump. Mas a obra de George Orwell não explica totalmente o fenómeno. Trump não é o “Grande Irmão”, o ditador invisível que controla o fluxo de informação através da linguagem, moldando a realidade definindo o valor das palavras, mas é o oportunista, o “con man”, surfando uma corrente reaccionária que surgiu na última década, uma força de combate aos avanços progressistas que transformaram o mundo ocidental, as conquistas sociais e culturais de minorias que foram criando o ressentimento na maioria. A maioria que olha para os direitos das minorias como uma ameaça ao status quo e que assistiu a cada nova lei que estabeleceu igualdade de direitos com perplexidade, encarando-a como uma inadmissível perda de poder. O combate ao “politicamente correcto”, bandeira do Tea Party e depois do movimento neonazi “alt-right”, não é mais do que um eufemismo (newspeak) para um avassalador movimento de reacção, conservador, uma tentativa de regresso ao que o mundo que existia antes das conquistas sociais das últimas décadas.

O movimento alt-right vai mesmo longe do que o Tea Party. Este era conservador na sua dinâmica e incorporava facções do Partido Republicano que estavam descontentes com o deslocamento do GOP para o centro. Os alt-right são revolucionários na sua essência (e isto não é contraditório com a essência reaccionária das suas ideias), pretendendo corroer por dentro o sistema até que voltem a ser estabelecidos os valores conservadores que o avanço progressista minou. Partem das margens onde permaneceram durante décadas (as principais figuras do movimento estiveram na sua juventude ligados a movimentos supremacistas brancos, como o Ku Klux Klan) em direcção ao centro. Encontraram em Trump o meio para chegar ao poder e implementar a sua agenda racista, xenófoba e racista. Voltando um pouco atrás: apesar da natureza revolucionária (têm isto em comum com o Partido Nazi original) da sua estratégia de chegada ao poder, o seu objectivo final é o regresso a um mundo que já não existe, quando os WASP e os seus valores de raiz puritana (white anglo-saxon protestants) dominavam a América. Make America great again.

O site Breitbart (e outros da mesma natureza), fonte de notícias falsas, exageros retóricos, propaganda anti-islâmica e xenófoba, impulsionou a tomada de poder disseminando pelas redes sociais durante os últimos anos os “factos alternativos” que foram alimentando a paranóia e o medo que sustentaram a vitória de Trump nas eleições. Esta força não seria suficiente para a tomada de poder. Mas Trump foi o veículo ideal para o processo. O seu oportunismo e a sua maleabilidade moral permitiram que todos os temas que preocupavam as franjas mais desfavorecidas da sociedade americana fossem incorporados nos seus discursos e na sua proposta eleitoral. Falou directamente para os brancos despojados de poder durante os anos de crise, proletários que acreditavam no sonho americano e que não tinham conseguido recuperar do descalabro económico pós-2008. Um populista alimenta-se das fraquezas da sistema que parasita do mesmo modo que uma infecção prospera mais facilmente num organismo debilitado. Menosprezado pela elite norte-americana, Trump aproveitou-se dos medos e do “disempowerment” dos WASPs para concretizar o seu sonho narcisista de bully nascido em berço de ouro. Não é acaso, e a ascensão de movimentos neonazis por todo o mundo é prova disso mesmo. Estamos a viver os tempos mais sombrios desde a Segunda Guerra Mundial.

11
Nov16

Bem-vindos ao deserto do real

Sérgio Lavos

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Choque. Pavor. O horror. O que era antes improvável, impensável, é agora real. Bem-vindos ao deserto do real, como Morpheus diz a Neo em Matrix. Slavoj Žižek tomaria de empréstimo esta frase para título de um seu livro, que por sua vez já vinha de Jean Baudrillard (Simulacros e Simulação). Tudo isto tem a ver com Trump, o Donald, claro, o candidato que, estranhamente, Žižek apoiou. Porque o mundo em que Trump reina é o mesmo pnde existem os Simpsons, que preveram a ascensão do presidente côr-de-laranja há mais de quinze anos. O mesmo mundo que nos oferece reality-shows como Jerry Springer Show. Ou The Aprentice. Vamos ser audazes: o mundo em que vivemos é um palco onde encenamos personagens, e Trump é personagem do seu próprio reality-show, vinte e quatro horas sobre vinte e quatro. Vamos arriscar: não só vivemos na era pós-facto (a verdade deixou de ser um valor positivo e absoluto), como vivemos na era pós-real, simulacro do real, encenação grotesca, ampliada pelos media, na qual o fio que une a crença à descrença e à ilusão se vai tornando cada vez mais ténue. Uma era em que a política - desde sempre também ela pose, retórica e encenação - pouca ligação tem à realidade, mesmo quando as decisões tomadas pelos políticos interferem e incidem sobre a vida dos cidadãos. 

Neo escolhe o comprimido vermelho; e mergulha na realidade suja, recusa a ilusão. O salto (de fé) de Neo é semelhante ao que milhões de americanos deram ao votar em Trump. Por (poucas) boas e (muitas) más razões, mas decidiram dar. O comprimido azul, Hillary Clinton, foi recusado. A repetição do mesmo, o establishment, o sistema, foi a luz fria que milhões não quiseram, optando antes por votar em Trump ou por ficar em casa (a abstenção é a arma dos alienados do sistema). O maior poder dos demagogos é o de conseguirem captar o ar dos tempos, capturarem os corações e as almas de quem, ou tem pouco a perder, ou perdeu muito, e quer recuperar. As tais más razões - o medo do outro, o ódio de classe - são os nutrientes de que o demagogo se alimenta. Trump e a sua equipa apanharam tudo o que pairava, e disseram o que tinham de dizer para ganhar. Hillary, por seu lado, foi a cara do sistema - e a mensagem de Trump foi eficaz ao martelar e martelar esta ideia, porque apenas o sistema se consegue iludir a si mesmo, achando que se pode perpetuar, intocável. Claro que o sensato dirá que Trump é uma encarnação do sistema que diz combater - o demagogo nada na era pós-facto como girino na água -, mas, como muitos estudos indiciam, o eleitor decide mais com o coração do que com a cabeça. E quando os simulacros (cópias que carecem de original, cópias desligadas do original que imitam) preenchem os dias, soturnamente, entram pelas casas e tomam conta das nossas almas, a razão ancora ao largo, num barco, e quando tenta reentrar no porto, é rechaçada pelas balas de canhão disparadas pelos demagogos que vivem do medo, e do ódio ao outro.

O mapa desenhado pelos cartógrafos, tão perfeito que substituiu o mundo que imita, é agora a nossa casa. Vivemos no deserto do real, e o melhor que podemos esperar é que o demagogo Trump faça o que todos os demagogos fazem: volte ao seio do sistema, recusando a ruptura em que o ódio votou. É a aposta mais segura, mas eu arrisco que o caminho de Trump será uma feia mistura entre retrocessos de vária ordem, pedidos pela facção mais reaccionária do GOP - o fim do Obamacare, da lei Row vs Wade, etc. - e a redistribuição de privilégios na direcção dos mais abastados: a descida de impostos para os maiores rendimentos será certamente concretizada. Transformar-se-á numa perfeita peça do sistema, e por isso não surpreende que, depois da surpresa inicial, os mercados tenham disparado. Donald Trump é o homem de Wall Street - tanto quanto seria Hillary Clinton, é certo, mas a sua actuação não deixa de ser mais moralmente repugnante (vamos ser exactos aqui, sem cinismos), porque irá beneficiar exactamente o sistema contra o qual jurou lutar.

Poderá haver outro caminho, o mais perigoso para o mundo. Trump pode escolher a via extremista, a via do ódio, e tornar-se de facto o primeiro fascista eleito nos EUA, ecoando o romance de Philip Roth, A Conspiração Contra a América. Aí, o mundo dos simulacros que permitiu que ele chegasse à presidência irá estilhaçar-se, e a realidade mostrará a sua feia carantonha. O mapa do cartógrafo voltará a ser própria realidade, mas será talvez demasiado tarde - chegaremos a um ponto em que a violência será inevitável.

Chegados aqui, só podemos recordar com um sorriso nos lábios os optimistas da década de 90, os que sonhavam com o fim da História anunciado pelo fim do bloco comunista e o domínio conceptual (e real) de uma ideia liberal de democracia. Como estamos longe desse optimismo antropológico... O conforto da certeza de que pelo menos numa coisa - a História tem avanços e retrocessos, nada permanece, tudo o que é sólido se dissolve no ar - Marx estaria certo não dissipa a angústia que rói cá dentro, a angústia do tempo que aí vem. Deveríamos todos ter a oportunidade de tomar o comprimido azul, continuando a viver no doce enlevo da floresta da ilusão. Demasiado tarde.

24
Abr16

Calar Sócrates

Sérgio Lavos

Ainda por aí um alvoroço por causa de um editorial do Público que supostamente mandou calar Sócrates. O editorial em causa, apesar de citar a frase que o rei Juan Carlos atirou a Chávez numa cimeira, não é mais do que uma crítica (não especialmente virulenta) ao que Sócrates disse numa entrevista, sobre diversos assuntos. Afirma o editorial que melhor faria Sócrates em não emitir a sua opinião, dada a situação em que se encontra. Podemos discordar da crítica do Público, é certo. Mas é incompreensível tanta gente clamar pela liberdade de expressão de Sócrates. Logo este, que, mesmo sob investigação, não tem feito outra coisa senão exercer a sua liberdade de expressão, em diversos palanques e formatos. Já Passos (e muita gente de direita), recorrendo a um já habitual cinismo oportunista, aproveitou para candidamente defender o uso da palavra de Sócrates. Claro que, como não somos todos parvos, sabemos por que razão Passos fez isto: na entrevista em questão, Sócrates afirma que não teria aceitado ser primeiro-ministro caso tivesse perdido as eleições. Não interessa que Sócrates tenha dito isto em resposta a uma questão muito concreta sobre as eleições de 2011 (e qualquer um naquela situação não aceitaria ser PM). Passos chega-se à frente porque, na cabeça dele, ainda é primeiro-ministro. Tudo normal. Menos a reacção de muita gente de esquerda, indignando-se contra o editorial do Público. Ameaça à liberdade de expressão? Tenham juízo.

21
Abr16

O liberal português, essa espécie rara

Sérgio Lavos

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É atribuída a Napoleão Bonaparte a frase: "Não interrompas um adversário quando este está a cometer um erro". Sem querer negar a sabedoria que esta frase encerra, não deixa de ser um interessante exercício ir observando, entre a perplexidade e o escárnio, os erros que a direita vai cometendo. 

E tem sido uma sucessão de asneiras estratégicas, desde que a esquerda se organizou para formar Governo. Paulo Portas percebeu logo a travessia do deserto que se avizinhava e empurrou um "crash test dummy" para a liderança do CDS, alguém que dê o corpo às balas enquanto ele ganha fôlego para uma nova investida ao poder. Passos Coelho, claro, ainda não chegou lá. Por isso passeia-se por aí, ao deus dará, escondendo-se atrás do ridículo pin sem perceber como, fazendo-se de morto, dificilmente voltará a ser primeiro-ministro. É deixá-lo andar.

E continuará a andar, sobretudo enquanto tiver a apoiá-lo por aí uma certa direita radical. Ela anda por aí, na barra lateral direita do Observador (por vezes também no miolo) e em blogues como o Blasfémias e o Insurgente. São os auto-denominados "liberais", numa curiosa derivação semântica da palavra "liberalismo" (pelo menos na acepção tradicional do termo). Este curioso grupo de indivíduos tem uma inteligência acima da média, por isso não se atreve a influenciar o debate público para além da presença nos jornais e nas redes sociais. Sabem que, no dia em que por exemplo formassem um partido e submetessem as suas ideias de "estado mínimo" e da privatização da Educação, da Saúde e da Segurança Social à escolha dos eleitores, passariam por um espectacular vexame (como de resto aconteceu em outros países, como Itália ou Alemanha). Por isso, a sua estratégia passa pela influência da opinião pública, seja financiando um projecto como o Observador, seja através dos referidos blogues ou da presença em colunas de opinião, sobretudo em jornais económicos. Esta estratégia de não dar o corpo às balas já teve resultados, o mais importante dos quais foi a ascensão de Passos Coelho à liderança do PSD, afastando uma social-democrata tradicional como Manuela Ferreira Leite. Claro que o "neoliberalismo" de Passos era tão postiço como agora é o seu amor à social-democracia - Passos é daquela raça de homens forjada no cadinho da JSD, um deslumbrado que aprendeu os fundamentos das doutrinas de Hayek e de Mises nos apontamentos Europa-América, encontrando nesse "liberalismo" de pacotilha apenas uma oportunidade de se distinguir da liderança à qual se opunha e de assim chegar ao poder - com a decisiva ajuda de Marco António Costa, curiosamente um dos símbolos máximos do caciquismo regional, sintoma de um Estado capturado pelos interesses privados contra o qual supostamente estes "liberais" lutam.

Apesar da evidente fragilidade do "liberalismo" de Passos, este continua a ser a esperança desta falange de direita. Não surpreende por isso o aparecimento de textos como este. O ataque ad hominem e o amesquinhamento de uma voz desalinhada dentro do PSD, José Eduardo Martins, é a prova de que Passos continua a ser o homem de mão desta gente. Claro que o excesso de perspicácia desta facção de iluminados não lhes permite ver para além do seu radicalismo (por isso até fazem bem em não constituir o tal partido). Não percebem que a maioria do eleitorado português é ideologicamente de esquerda e esquecem que Passos apenas conseguiu ganhar as eleições de 2011 porque garantiu (de forma mentirosa) ir acabar com a austeridade de José Sócrates. Passos ganhou nesse ano porque prometeu mais Estado Social, sabendo que apenas assim conseguiria chegar ao poder. E apenas perdeu as eleições de Setembro de 2015 (sim, perdeu, ultrapassem lá o trauma) porque, depois de quatro anos a fazer o contrário do que tinha prometido, não podia voltar a ensaiar um discurso social-democrata. 

Pareço estar a interromper um adversário quando este está a cometer um erro crasso, não é? Mas isto é tudo tão divertido, que é muito difícil resistir. Seria tão bom se eles não mudassem, nunca...

20
Abr16

Lúgubre espectro, triste figura

Sérgio Lavos

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Passados cerca de cinco meses de Governo de esquerda, quase que nos esquecemos de que até Outubro ocupava o poder o pior conjunto de políticos que este país viu desde o 25 de Abril. Entrámos na normalidade institucional. Foi aprovado um Orçamento de Estado sem inconstitucionalidades e a cooperação entre os diversos órgãos de soberania - Assembleia da República, Governo, Presidência e Tribunal Constitucional - é serena e respeitosa. E aquela unanimidade burra em volta de coisas como "austeridade" ou "reformas" desapareceu, substituída por uma governação que depende da negociação com os diversos partidos representados na "casa do povo", o parlamento. As sibilas que durante semanas, meses, auguravam que as sete pragas do Egipto se abateriam sobre nós no momento em que perigosos comunistas tomassem o poder recolheram-se humildemente nos seus covis, apenas espreitando a cada flutuação dos mercados ou estrebucho das taxas de juro da dívida soberana. 

Não tem sido no entanto nada fácil, o caminho. O Governo enfrentou desde o início a resistência, não só da oposição (que teimava em reconhecer a derrota) mas também de uma legião de comentadores enraivecidos que, dos seus palanques mediáticos, iam perorando sobre a impossibilidade da situação. Mas, como toda a gente já deveria saber, a política é a conjugação dos possíveis, e, de possível em possível, chegou-se a um momento de estabilização. Aos olhos da União Europeia, o Governo passou a ser respeitado. E, imagine-se, sem subserviência. Claro que os vários desafios próximos (o PEC está prestes a ser apresentado, a economia continua estagnada no mundo inteiro) não serão fáceis de enfrentar, mas nada nos indica que não poderão ser ultrapassados, como tem acontecido até agora.

E depois, há o descanso. O descanso de sabermos que não temos um primeiro-ministro que diz coisas como a que esta noite recordei no Twitter (a propósito de um debate sobre o BANIF): o saudoso Passos Coelho que, em Setembro de 2015, garantia que o "dinheiro emprestado ao fundo de resolução está a render" foi-se, desapareceu. Sim, eu sei, eu sei que há por uma figura vagamente parecida com ele. Mas não passa de uma assombração, lúgubre espectro, triste figura. Ele e o seu pin, Dom Quixote e Sancho Pança. Primeiro-ministro no exílio que se recusa a falar na Assembleia da República e inaugura escolas abertas há anos, dizendo de vez em quando coisas sem nexo a que ninguém liga. A sombra do que foi, e do que disse: tanta coisa absurda, afrontosa, miserável. Como estas maravilhosas afirmações sobre o dinheiro que o Estado tem no fundo de resolução. Num momento em que o actual Governo tenta apagar o fogo deixado aceso pela sua incompetência, pelo seu oportunismo eleitoral, no Novo Banco e no BANIF, recordar estas palavras serve de lição, aprendizagem de uma herança negra. E também nos ensina muito sobre o homem sem qualidades que, por acaso do destino, foi nosso primeiro-ministro durante quatro anos. Não queremos ver novamente esta alma penada a pairar sobre o país. Também esta responsabilidade pesa sobre os ombros do Governo e dos partidos que o apoiam. Seria bom, muito bom, que não falhassem.  

17
Mar16

O maior aumento de combustíveis de sempre, dizem eles

Sérgio Lavos

Os media vão fazendo o seu trabalho, agora como antes das eleições, criando percepções erradas, manipulando a opinião pública e corroendo a coligação de esquerda. Há muito tempo que não se ouvia falar tanto do preço dos combustíveis em Portugal e da diferença em relação a Espanha. Mas nunca é dito que o diferencial entre os preços em Portugal e Espanha disparou com a liberalização, ocorrida em 2004, com um Governo de direita. Desde essa altura, a diferença entre os dois países foi-se acentuando, não só porque os impostos cá são de facto mais elevados, como as margens praticadas pelas gasolineiras são maiores (dada a dimensão reduzida do mercado, quando comparado com Espanha). Soma-se a isto o monopólio na refinação de produtos petrolíferos detido pela Galp, que lhe permite praticar preços à saída mais altos do que os praticados em Espanha (que contribuem de modo decisivo para os lucros anuais da empresa portuguesa, na ordem das centenas de milhão).
Outra ideia criada pelos partidos de direita e difundida acriticamente pelos media foi a de que o aumento nos impostos sobre os combustíveis decidido por este Governo foi o maior de sempre. A ideia tem sido de tal modo martelada que de facto as pessoas ficaram com essa percepção. Errada, como se prova por esta notícia de 2014.
Só acredita quem quer na propaganda? Não é bem assim, como sabemos. Apesar de tudo, as pessoas continuam a confiar mais nos media do que nos políticos. Mas este tipo de distorções prova que, afinal, temos mesmo de desconfiar, muito a sério, dos media em Portugal. Casos como este aparecem todos os dias nas televisões e nos jornais, servindo interesses partidários de uma forma vergonhosa. Até quando?

03
Mar16

A santa Maria Luís

Sérgio Lavos

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Maria Luís Albuquerque (para os amigos, Miss Swaps) é um fenómeno da direita. Enquanto administradora da REFER, contratou swaps tóxicos que custaram milhões de euros ao contribuinte. Depois, quando era responsável da IGCP, autorizou mais swaps tóxicos, da Estradas de Portugal. Chegou ao Governo, primeiro como secretária de Estado do Tesouro e depois como ministra das Finanças e renegociou alguns dos swaps que tinha contratado ou autorizado antes, ajudando à antecipação de receitas das entidades financeiras com quem tinha negociado. Entretanto, o Estado injecta 800 milhões no Banif, tornando-se dono do banco. Enquanto ministra da tutela, supervisionou indirectamente (ou pelo menos teve conhecimento de) as operações financeiras do banco, que incluíram a venda de crédito mal parado do Banif à Arrow Global. E três meses depois (3!) de ter saído do Governo, lá tem o lugarzito à espera na (rufem os tambores) Arrow Global. Ela diz que é tudo legal, e tem toda a razão, até porque o partido a que pertence, o PSD (em conjunto com o CDS), chumbou em 2012 uma lei proposta pelo BE que previa que os governantes tivessem um período de nojo de seis anos até poderem ocupar cargos em empresas que tinha sido tuteladas por eles (mas não deixa de ser verdade que a lei em vigor diz que esse período de nojo é de três anos). Como ela afirma no seu comunicado, qualquer especulação que possa ser feita sobre eventuais promiscuidades ou pagamento de favores não passa de "mero aproveitamento político-partidário". Ficamos assim, então, a senhora é uma santa (chegou a falar-se na possibilidade de ela vir a ser líder do PSD), e ninguém poderá pôr em causa isso. Ámen.

05
Fev16

Social-tonteria, sempre!

Sérgio Lavos

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No anterior e falecido Governo houve sempre algo que funcionou relativamente bem: a propaganda - pese embora uns percalços que levaram à constituição de um "conselho de coordenação da coligação" depois de algumas irrevogabilidades de Portas. A máquina, bem oleada, foi conseguindo sempre fazer passar a mensagem de que a austeridade seria a oitava maravilha que iria salvar Portugal e o nível de interiorização desta mensagem simples atingiu níveis assinaláveis. Velhos e bons tempos, quando Passos Coelho era vendido na comunicação social como "estadista" e "homem sério", uma máscara que cobria o rosto do trampolineiro de pin (dos chineses) na lapela, do farsante que se "esquecia" de pagar impostos, do homem dos negócios tecnofórmicos em conluio com Miguel Relvas.

Mas como dizia o grande filósofo, "tudo passa, tudo passará", e a "frente trampolineira" foi atirada para o seu devido lugar no caixote de lixo da História e substituída por um Governo que, espanto dos espantos, promete governar em nome dos portugueses e não de um desígnio maior (outro nome para "interesses estrangeiros" ou "austeridade redentora"). Os outrora patrióticos pineiros de direita ou desistiram (Portas) ou fazem figuras tristes na casa da democracia e lamentam-se pelos quatro cantos prometendo um regresso a uma social-democracia que em devido tempo meteram na gaveta (em 2011, Passos afirmava numa entrevista que o nome do partido, "social-democrata", era uma relíquia dos anos 70), ostentando do outro lado da lapela a mesma falta de vergonha de sempre.

Enquanto o líder derrotado nas legislativas de Outubro carrega aos ombros a sua infinita tristeza, a antiga máquina de propaganda vai tentando fazer o seu trabalho. A chinfrineira que se fez ouvir nas últimas semanas a propósito da apresentação do Orçamento de Estado à UE é um eco distante desse furor propagandístico de outrora, mas falta-lhe em eficácia o que lhe sobra em histeria. A ofensiva terá chegado aos corredores das instituições europeias, e uma embaixada liderada pelo garnizé emplumado Rangel parece ter andado a tentar influenciar os comissários europeus afectos ao PPE. Houve quem tivesse chamado a esta mítica criatura "Miguel de Vasconcelos dos tempos modernos", mas sinceramente acusá-lo de tal é atribuir-lhe demasiada importância. Um garnizé será sempre um garnizé: barulhento mas completamente ridículo e impotente. Por cá, as galinhas poedeiras do costume cacarejaram nos poleiros habituais. Nos jornais, rádios e TV's, alertaram com todas as forças para o caos que se avizinha, para o fim do mundo em cuecas. Os cacarejos de Camilos e Gomes Ferreiras, Medinas e pintos acabados de pôr a cabeça de fora (como João Miguel Tavares) criaram uma onda que, de acordo com qualquer manual de comunicação, apenas iria tornar uma previsível aprovação do OE por parte de Bruxelas uma vitória para António Costa e a esquerda.

A tonteria e o desnorte são tais que, nas redes sociais, propagandistas que estão ainda mais abaixo na cadeia de alimentação oscilam bipolarmente entre as críticas ao despesismo e às contas descontroladas da esquerda e a denúncia de uma suposta austeridade. O Governo PS tanto é preso por ter cão (acomodar no OE reposição de vários cortes) como por não ter (substituir os cortes por aumentos de impostos que visam manter as contas equilibradas). Seria avisado reunirem-se todos estes propagandistas e constituirem um qualquer órgão de coordenação. Poderia ser um "conselho de coordenação da oposição", por exemplo. Conviria que a narrativa fosse afinada e que não cedessem munições à esquerda, permitindo a Costa que, ao fim de três semanas de choro e de ranger de dentes, tivesse uma inquestionável vitória estratégia. Mas não sou eu que darei conselhos a esta alegre turba de tontos que por aí anda. Espero que continuem nesse caminho. E que continuem a apoiar o cavaleiro da triste figura, Passos de seu nome, no caminho para a retomada do poder. A diversão estará garantida. 

11
Jan16

David Bowie (1947-2016)

Sérgio Lavos

David Bowie, nos dois últimos álbuns, regressou às sonoridades da trilogia de Berlim (Low, Heroes e Lodger) - álbuns experimentais e ambientais temperados pela produção de Brian Eno. Uma intuição sobre a sua melhor fase e um regresso aos seus anos mais selvagens de boémia e de vitalidade criativa (as duas andam a par). Terá sentido que era ali que tinha sido mais vivo. O penúltimo, "The Next Day" é uma revisitação da sua vida e o último, "Blackstar", uma preparação para a morte e legado final. Há letras destes últimos dois álbuns que são lamentos de fantasma passeando pelas ruínas do que foi. Lembrei-me de Herberto Helder, ao perceber o modo como David Bowie se despediu do mundo, encenando a sua saída de palco, criando uma derradeira personagem, uma última máscara para usar. Esta, mais real do que todas as anteriores. Ou não. Todas as máscaras usadas são verdadeiras, sucessivas peles de que se foi despindo até nada restar. A não ser a música, claro. O suficiente?

03
Jan16

O candidato das novas "conversas em família"

Sérgio Lavos

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A esquerda portuguesa parece ter relaxado desde que chegou ao poder. Mas tanto "tempo novo" e tanta "recuperação de rendimento" não podem fazer perder de vista o próximo combate: as presidenciais. Há quem julgue que o candidato da direita, Marcelo Rebelo de Sousa, até irá facilitar a governação. Pura ilusão, daquele tipo em que apenas ingénuos ou políticos inexperientes podem cair. Estas presidenciais são tão ou mais importantes do que as duas eleições anteriores, as que deram a vitória a Cavaco e à sua magistratura de ingerência e de facção. 

Os ingénuos dizem, então: Marcelo não é nenhum Cavaco. Podemos acrescentar: pois não, será pior. Pior porque é muito mais imprevisível do que Cavaco. Pior porque ainda tem um ego mais inflado do que Cavaco. E pior porque sabe guardar humores para a melhor ocasião e servir vinganças geladas. A popularidade alimentada pela TV é o combustível certo para uma magistratura de interferência e de confusão.

O homem que há mais de dez anos está ligado ao tubo de alimentação da máquina que "tanto pode vender sabonetes como presidentes" é o que mais próximo temos de um Silvio Berlusconi. É certo que o seu domínio emana de qualidades telegénicas e não empresariais, mas a verdade é que Marcelo teve as suas "conversas em família" com Judite durante tanto tempo que já ninguém se lembra das suas aventuras enquanto candidato à câmara municipal de Lisboa ou do seu breve romance com o irrevogável Portas. Marcelo lidera destacado as sondagens porque aos olhos do povo ele não é político, é o tio Marcelo da televisão. 

E todos os media vão atrás, seguem a onda lançada pela TVI. O espaço mediático que Marcelo ocupa corresponderá certamente a mais de cinquenta por cento do tempo total dedicado aos candidatos. As estações televisivas dirão que a predominância de Marcelo se deve ao seu élan e ao seu potencial em termos de audiências. Pode até ser, mas a verdade é que isso leva a uma distorção completa, uma ameaça à democracia e à igualdade de oportunidades que esta pressupõe. Marcelo Rebelo de Sousa parte com uma vantagem mediática de dez anos, e mesmo assim ocupa muito mais tempo do que qualquer um dos outros candidatos. A desfaçatez com que ele ufanamente anuncia uma "campanha frugal" é apenas o toque final no ramalhete composto em sua honra. Ele sabe muito bem que não precisa de gastar muito, o foco das TV's irá sempre segui-lo, como as mariposas seguem a luz que as mata. 

Ah, por falar em "conversas em família", o célebre programa que Marcello Caetano decidiu criar para limpar a imagem de um fascismo de décadas. Marcello Caetano, o padrinho de Marcelo Rebelo de Sousa, uma afiliação que misteriosamente não é mencionada nos panegíricos que diariamente a imprensa lhe dedica. Será que a parte do eleitorado comunista que pretende votar em Marcelo está a par deste pormenor biográfico? Não terá interesse, imagina-se. Como certamente a capa que o Públicou dedicou hoje ao tio Marcelo é desinteressada, até porque nos próximos dias todos os outros candidatos presidenciais irão também ser capa do diário. Eu acredito. 

É portanto necessário que a esquerda acorde e deite mãos à obra para enfrentar Marcelo. Não ajuda a dispersão de candidatos; ajuda ainda menos o aríete segurista para minar o poder de António Costa, Maria de Belém. Mas ainda assim é preciso concentrar o fogo no essencial: a derrota de Marcelo. Para depois ninguém dizer que Marcelo saiu muito pior do que a encomenda.

«As circunstâncias são o dilema sempre novo, ante o qual temos de nos decidir. Mas quem decide é o nosso carácter.»
- Ortega y Gasset

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