Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]


24
Fev

A TINA MORREU

por João Gaspar

A grande lição que as legislativas de 2015 nos deram foi a de que em democracia há sempre - sempre - alternativa. Apesar do discurso vigente durante quatro anos, das imposições para além da troika, dos assaltos aos salários e pensões, dos ataques à constituição, dos excel do Gaspar e das trafulhices da Albuquerque, das heranças que são sempre pesadas, apesar da relutância do Cavaco em dar posse a um governo apoiado por comunistas, apesar do estertor do cavaquismo e do passoscoelhismo, apesar do quem é que paga, do não há dinheiro, do tem de ser, apesar disso tudo, afinal havia outra. 


A ausência de alternativa é a negação da democracia. A TINA foi morrendo aos poucos: primeiro a maioria de esquerda, depois o acordo parlamentar, a formação do governo e a estocada final da aprovação do orçamento no princípio de 2016. A alternativa nasceu e vai funcionando. O país está como está, as pessoas estão melhores. Passado mais de um ano já é oficial - saiu um obituário no Washington Post e tudo - a TINA morreu. Façamos-lhe um funeral digno, para que não nos esqueçamos que a TINA é o braço armado em parvo dos autocratas, perigosa aliada do limbo entre o eles são todos iguais e o não vale a pena votar.

 

E que se enterre de vez o discurso de que não há alternativa. Mesmo que algum dia seja a esquerda (cruzes, canhoto) a querer fazê-lo.

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

23
Nov

Pós-política

por João Gaspar

Pontos prévios:

1. A pós-verdade enquanto fenómeno político merece análise e preocupação. É um cancro que mina a confiança nas instituições (sociais, políticas, mediáticas), agrava o fosso eleitor/eleito, afasta pessoas da discussão pública, da participação cívica e democrática e dos centros decisórios, em suma: abala as fundações do contrato social em que se baseia a relação Estado-Cidadão.

 

2. As notícias falsas, as câmaras de ressonância, no fundo o facto de andarmos aqui todos a pregar aos convertidos em vez de jogar ao rebenta a bolha, agravam as clivagens sociais, destroem o jornalismo, impedem o debate e favorecem os que se aproveitam da pós-verdade (ver 1) para garantir o poder.

 

Não obstante:

1. Quase nada disto é novo. Muitas vezes a pós-verdade é só um nome pomposo para a mais crua das mentiras, com roupagens modernaças. A velocidade de propagação e o alcance das atoardas são o factor novidade aqui. Paradoxalmente, num mundo em que a informação devia mais rapidamente ser contrastada e desmentida, a ascensão do pós-facto ao discurso dominante e ao poder tem acontecido a uma velocidade vertiginosa.

 

2. Mas a falsa informação não é rapidamente contrastada e desmentida? É, claro que é. Diria que quase ao instante. A novidade está no facto de já não importar para nada. E não importa por razões que estão muito a montante dos Brexits e dos Trumps deste mundo. Não importa porque o caldo em que levedaram os Trumpettes é feito de pós-política.

3. O mundo pós-política. Começou de mansinho. O debate político deixou de ser feito com a razão. Gritar mais alto passou a ser um argumento válido. Ser autero, firme, que isto não está para brincadeiras. As ideologias foram diabolizadas (cruzes, canhoto!). O mundo sonhado passou a ser o da realidade-zinha, a vida dura e simples, livre de ideologia. Governar o mundo deixou de ser feito de opções. É o que tem de ser. Aceitemos, então. Aceitámos. Aceitámos tanto que interiorizámos os "isso não interessa nada", os "são todos iguais" os "nem vale a pena votar". As pessoas passaram a valer mais do que as ideias. Vieram os afectos. O carácter. A simpatia. Ideologias é que nunca, que isto da organização das sociedades não está para essas coisas de intelectuais que não sabem o que a vida custa. É preciso é dizer as coisas como elas são. Ou, melhor, como achamos que são. Equivalemos factos a opiniões. Deixou de ser preciso argumentar. E se for preciso amanhã dizemos o contrário. Nasceu a pós-vergonha. O debate político é secundário: um diz A, o outro diz B, já sabemos como é que isto acaba. Argumentos para A e B tornaram-se inúteis. Afastaram-se pessoas, minou-se o debate. E a sensatez impede gente valiosa de correr num campo minado. Perdemos todos. E ganharam os fascistas (que estão sempre à espreita, «com pés de veludo»). Recusou-se a dialética. E sem dialética não há democracia. Mas se calhar isso também não interessa nada, que são todos iguais e nem vale a pena votar.





Autoria e outros dados (tags, etc)

16
Abr

PSD, o amigo da Hungria.

por João Gaspar

orbán david.png

 

O primeiro-ministro húngaro Viktor Orbán (o tal que para o deputado do PSD Duarte Marques é «um líder nato» e merece elogios) esteve em Lisboa esta quinta-feira. Numa notícia que passou mais ou menos despercebida na imprensa diária nacional (excepção feita, pelo menos, ao Diário de Notícias, aqui), decorreu em Lisboa um encontro do IDC, associação internacional de partidos cristãos.

Nesse conclave, Orbán terá defendido a reforma do Espaço Schengen. Reforma essa que, sob o eufemismo de um Schengen 2.0, visa o reforço das fronteiras e a expulsão de refugiados do espaço europeu. Até aqui, nada de novo ou surpreendente, vindo de um primeiro-ministro cujo respeito pelos direitos humanos é, com simpatia, bastante escasso. Estava presente o recém-reempossado líder do PSD, Passos Coelho. Não há notícia de nenhum comentário de Passos Coelho à proposta húngara de revisão de Schengen.

 

Na cerimónia teve lugar a condecoração do ex-eurodeputado do PSD Mário David com a Ordem de Mérito concedida pelo Presidente da Húngria, János Áder, e outorgada pelo próprio Orbán (na foto). E por que razão foi o ex-eurodeputado português agraciado com semelhante honra? Pelo exercício das suas funções no Parlamento Europeu? Pelo serviço à causa comum europeia? Não, pela fidelidade na amizade com o governo húngaro. Nas palavras que acompanharam a condecoração, lidas pela emabixadora da Hungria em Lisboa, o Presidente húngaro agraciou Mário David «pelo seu empenho nos interesses e aspirações húngaras e na melhoria da percepção da Hungria na Europa.»

Ao cumprimentar o condecorado, Orbán salientou a fidelidade de David. «Como um verdadeiro amigo, ele [Mário David] apoiou-nos mesmo quando outros nos viraram as costas.» Acrescentou que «sabemos quem são os verdadeiros amigos quando estamos sob ataque.» E ainda que, em Janeiro de 2012, «quando a Hungria e o seu governo se viram sob um bombardeamento, foi a voz clara e amiga de David que criou ordem no caos de injustiça e palavras duras.»

Que orgulho, ver os nossos compatriotas a triunfar lá fora. Mais comovente do que assistir a uma amizade assim, é ver a fidelidade ser reconhecida. Parabéns, Mário David. Por uma questão de justiça, Orbán podia também ter agradecido aos portugueses que o elegeram.


[Nota: a notícia da condecoração faz parte da edição impressão do Expresso. Se alguém tiver link para a notícia online, a gerência agradece.]

Autoria e outros dados (tags, etc)

07
Abr

Fiscalex

por João Gaspar

IMG_20160406_191052.JPG

 
Todos os anos por altura da primavera, a mesma coisa: alergias ao pólen e preocupações com o IRS.

E todos os anos a dúvida repete-se: por que é que eu tenho que espirrar tanto e preencher uma declaração se o Estado sabe perfeitamente o que ganho?

O Governo, cuja preocupação com a modernização administrativa e com a relação justa e eficaz do cidadão com o seu Estado parece séria o suficiente para criar um Ministério para o efeito e para reactivar o meritoso Simplex, pergunta qual a minha sugestão. Pois bem, a minha sugestão é: não preencher a declaração de IRS. «Ai, ó João, então mas não queres declarar os teus rendimentos?», perguntam vocês, com o vosso mau feitio. Calma, claro que quero. Só não quero preencher a declaração de IRS. 

Vejamos, mesmo com estas lágrimas nos olhos devido às alergias sazonais.

Tendo em conta que:

a) os rendimentos por via do trabalho dependente ou independente são declarados electronicamente ao longo do ano às entidades de autoridade fiscal; 
b) a declaração do rendimento e/ou o pagamento da respectiva taxa são efectuados mensalmente à ordem da Segurança Social;
c) as empresas são obrigadas a pagar mensalmente a Taxa Social Única dos seus trabalhadores, em conformidade com o respectivo rendimento;
d) as entidades empresariais são obrigadas a declarar todas as vendas de bens ou serviços à Autoridade Tributária, que, portanto, já tem conhecimento de todas as despesas que o contribuinte pretenda declarar, (passemos por cima do aborrecimento que é aquilo do e-Factura;
e) em suma, o Estado, à data e hora do preenchimento do meu IRS, já tem conhecimento dos meus rendimentos e das minhas despesas, dos descontos feitos para a Segurança Social, do meu estado civil, da composição do meu agregado familiar, e até já me chama Sujeito Passivo;
f) e a declaração de IRS não é bem voluntária nem facultativa,

Por que razão não é o Estado a preencher a declaração de IRS e o cidadão a confirmar e aceitar?
Há algum constragimento técnico ou legal que impeça a inversão do ónus da declaração?


Não se aumentaria desse modo a eficácia da execução fiscal, poupando no caminho os contribuintes ao transtorno sazonal de contabilizar facturas e ter que abrir o Internet Explorer? Não terminariam as multas por atrasos na entrega da declaração e as reclamações perante as dificuldades? Não seria preferível uma que uma declaração tão central na administração fiscal fosse preenchida por funcionários especialistas durante o horário laboral e devidamente remunerados para isso, em vez de ser por cidadãos fiscal e informaticamente mais ou menos trapalhões, que perdem tempo de lazer e descanso em anexos de A a Quê?


Enfim, espero que o mui louvável Simplex chegue definitivamente à adminsitração fiscal. E que nesse ano, por esta altura, possa reclamar apenas pelos espirros infinitos, sem ter que me preocupar com as facturas dos anti-histamínicos.

Autoria e outros dados (tags, etc)

16
Mar

cajadada

por João Gaspar

em 2011, quando mentiu sobre o pec iv para precipitar a queda do governo, consta que passos coelho terá ouvido um ultimato interno: "ou há eleições no país, ou há eleições no partido.". sem surpresa e sem carácter, passos coelho pôs a ambição pessoal e o partido à frente do país. em 2016, ao votar contra o orçamento de estado e ao abster-se de propor alterações, e em pleno processo de reeleição interna, passos coelho (com alguma surpresa mas ainda menos carácter) expõe os deputados eleitos pelo psd a uma estratégia inqualificável num partido chave da democracia portuguesa. durante quatro anos tentou destruir o país, agora parece querer destruir o partido, o que, sem ironia, seria uma pena. a não ser que o psd se tenha realmente transformado nisto, o que, sem ironia, seria uma pena ainda maior.

Autoria e outros dados (tags, etc)

09
Mar

sobrevivemos ao cavaco.

por João Gaspar

 

sem outro mérito a não ser o facto de não termos falecido entretanto, hoje é dia de brindar à saída de cena do cavaco. finito. acabou. puta que o pariu. amanhã é dia de continuar a lutar contra o lastro do cavaquismo, um peso que se finge morto mas que demorará anos até que o seu cheiro despareça para sempre do ar que respiramos. um dia teremos que explicar aos nossos filhos e aos nossos netos como foi possível termos permitido que durasse tanto tempo ao comando do país a figura mais mesquinha e cretina da segunda república. explicar e, envergonhadamente, pedir desculpa. e esperar que nos perdoem.

Autoria e outros dados (tags, etc)

08
Fev

«Todas as coisas são metáforas.»

 

A frase é atribuída a Goethe mas quem a pratica diariamente é um nome cimeiro da filosofia contemporânea: Maria da Graça. Mais conhecida por Assunção Cristas, é candidata à liderança do CDS-PP e ao Nobel da Literatura. Cristas não perde uma oportunidade de introduzir uma bonita referência metafórica no comentário político ao Orçamento de Estado, assunto com incompreensível pouco destaque na história da filosofia.


Se para Saramago a Ibéria era uma jangada, no que toca a comparar porções de território com objectos, Cristas afirmou que «Bruxelas foi o despertador que acordou Costa dos sonhos rosa avermelhados.» Apreciemos então em detalhe os vários níveis de complexidade interpretativa contidos numa única frase com aparente simplicidade.
Costa, que aparentemente é alvo de uma crítica por estar a dormir (típico dos preguiçosos que a direita odeia), comete a ousadia de sonhar. O duplo sentido é desfeito na análise cromática dos referidos sonhos. Se numa primeira análise o leitor incauto pode ver aqui um apelo ao sonho, à utopia, à construção por um mundo melhor e que Bruxelas é o mau da fita, enquadrando a frase na obra da autora facilmente percebemos que os "sonhos rosa avermelhados" são apenas meros sinais de uma fantasia socialista tingida com as cores da raiva, do sangue e do comunismo (que a direita odeia ainda mais). Costa, ficamos a saber, sonha a cores como a mãe do Eddie Vedder. E, a julgar pelo bom termos das negociações com Bruxelas, Costa carregou no botão snooze e continuou a sonhar.

 

Cristas dedicou-se depois à crítica cinematográfica. Por duas vezes catalogou o Orçamento de Estado como «filme de ficção», salientando que «é um filme que já todos conhecemos muito bem» e que «Costa e Centeno merecem o Oscar para melhor ficção.». Claramente emulando Camus, Cristas quer recordar-nos que "a ficção é a mentira através da qual se diz a verdade". E a verdade é que este é um filme que todos conhecemos muito bem porque já o vimos. Um governo socialista toma posse, a política de direita é revertida, Paulo Portas abandona a liderança do CDS. O argumento é parecido, muda o protagonista. Cristas é a estrela de um remake. Tipo Mad Max.
Não deixa de ser curioso que na sua única nomeação aos Oscars (que se saiba), Cristas garante mais diversidade cultural entre os nomeados do que toda a Academia de Hollywood.

 

Não querendo deixar de fora o público que prefere o sofá às salas de cinema, Cristas desenvolveu um spin-off do filme candidato a Oscar e comparou o Orçamento de Estado a «uma telenovela que ainda nem sequer estreou e já nos faz temer os seus capítulos seguintes». Mais uma vez a ambiguidade interpretativa em toda a sua excelência. Na aparente crítica a um seriado de qualidade duvidosa, reside igualmente uma capacidade de prender o tele-espectador à expectativa pelo futuro, a antecipação do medo, a ansiedade frente ao desconhecido. Orçamento de Estado e Walking Dead - aposto que Cristas deixou os dois a gravar.

 

Quando o Orçamento Geral de Estado for finalmente aprovado e entrar em vigor não sei que metáforas Cristas lhe dedicará. Ainda assim, se os seus méritos políticos podem ser discutíveis, confio que os literários não nos defraudarão e nos proporcionarão momentos de igual deleite. Até porque, como disse de Assunção o seu mestre Goethe: «para compreender que o céu é azul em toda a parte não é preciso dar a volta ao mundo.»

Autoria e outros dados (tags, etc)

Atenção! Este post contém o nome do próximo Presidente da República.

 

voto.jpg

 

 

Henrique José de Sousa Neto - cidadão extremamente zangado com o mundo em geral e com a actual direcção do PS em particular. Fez previsões sobre o terrorismo e a economia e nós não ligámos. Mais ou menos como o Medina Carreira.

António Manuel Seixas Sampaio da Nóvoa - o ex-reitor. Tem dois doutoramentos mas o outro é que é conhecido como o Professor. Tem o desplante de se apresentar com uma barba mal aparada, uma visão para o país e para o mundo, uma posição sobre as políticas a seguir em Portugal, uma carta de princípios, uma série de causas bem definidas, uma catrefada de mandatários e o apoio de todos os ex-presidentes da República vivos. O PS finge que não o apoia.

 

Cândido Manuel Pereira Monteiro Ferreira - no primeiro debate anunciou que se retirava devido ao tratamento desigual das diferentes candidaturas. Sempre que teve tempo de antena queixou-se do pouco tempo de antena que tinha. Ah, foi o sonso porta-voz das insinuações caluniosas sobre a licenciatura do Sampaio da Nóvoa.

Edgar Freitas Gomes da Silva - ocupa um lugar obrigatório em eleições presidenciais: o candidato do PCP. Por inerência, sabemos muito bem o que pensa. Os jornalistas fizeram o juramento de não dar nenhuma notícia em que não se refiram a ele como «ex-padre». Andou metido com Deus e com Marx ao mesmo tempo. Optou pelo mais-poderoso.

 

Jorge Manuel Pais Seara Rodrigues Sequeira - o Pedro Chagas Freitas, o Gustavo Santos e o Miguel Gonçalves entraram num bar. Enfiaram-se na bimby. Saiu um Jorque Sequeira. É um livro de auto-ajuda com óculos.

 

Vitorino Francisco da Rocha e Silva - o artista anteriormente conhecido como o Tino de Rans, como a comunicação social fez questão de frisar sempre que se referia a ele. Aos microfones da TSF fez questão de nos explicar que prefere ser tratado «com carinho». Representa e percebe a igualdade republicana em todo o seu esplendor. Há poucas dúvidas de que é o Tino de Rans.

 

Marisa Isabel dos Santos Matias - é a Marisa (o paternalismo machista dispensa apelidos). Eurodeputada. Candidata oficial do Bloco e do Podemos. Foi alvo de ataques misóginos durante a campanha, o que infelizmente já era de esperar, visto que cometeu a ousadia de se candidatar a umas eleições em Portugal em 1516.

 

Maria de Belém Roseira Martins Coelho Henriques de Pina - é a candidata oficial do PS de 2012. Ex-presidente do partido, ex-ministra da Saúde e da Igualdade. Temente a Deus, não acha muito bem essa modernice das mulheres decidirem sobre a IVG nem dos homens se casarem uns com os outros. Candidatou-se porque o Francisco Assis não teve coragem. 

 

Marcelo Nuno Duarte Rebelo de Sousa - Ex-presidente do PSD. Comentador na Faculdade de Direito de Lisboa e professor na TVI. Tentou ser primeiro-ministro - não conseguiu. Tentou ser presidente da Câmara de Lisboa - não conseguiu. Tenta agora ser Presidente da República. Nadou no Tejo, andou de táxi, já disse tudo e o seu contrário. Muitos acham que é bom político mas ninguém sabe muito bem porquê. O seu grande feito político foi ter enganado o Paulo Portas com a ementa. Esteve com o Ribeiro e Castro e o PNR numa manifestação contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo. É um beato, intriguista e mentiroso. Tem o apoio do PSD e do CDS. E do Observador. E do Expresso. E do Público. E da SIC. E da TVI. E da RTP. E da TSF. E do Correio da Manhã.

 

Paulo Alexandre Baptista Teixeira de Morais - o do cabelo à PlayMobil*. O que está sempre a dizer corrupção mas nunca fala de casos concretos de corrupção. Um demagogo populista. Militante do PSD durante décadas, coisa que a comunicação social se esquece sempre que diz que o Marcelo é o único candidato de direita. Os outros são todos corruptos. Ironicamente, ele é a pessoa que mais corrompe o combate à corrupção.
*espero que a PlayMobil não me processe.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

08
Jan

o problema Marcelo

por João Gaspar

«Yeah, but no, but yeah, but no.» [Vicky Pollard]

 

 O recente debate entre Marcelo Rebelo de Sousa e Sampaio da Nóvoa, entre outras virtudes, terá tido o mérito de fazer cair dois mitos: Marcelo é uma espécie de Cavaco versão 2.0 e Marcelo é uma pessoa inteligente.


Marcelo não é um Cavaco que ri nem um Cavaco a cores. Percebe-se que para os adversários políticos essa colagem ao Presidente da República menos querido da democracia seja fundamental no discurso de campanha. E, claro, a relação de proximidade política, ideológica e, menos relevante, pessoal, existe e deve ser sempre tida em conta. Mas Marcelo não é nenhum Cavaco. Isso queria ele. Cavaco é um dos políticos mais habilidosos (na dupla acepção da palavra), mesquinhos e reaccionários da história recente de Portugal. Marcelo, por muito que comungue de posições retrógradas nomeadamente nos costumes, é só um pateta políticamente pouco acima de zero. Para passar de beato intriguista a sacana mesquinho ainda tem que comer muita vichysoise.

 

Cavaco passou décadas a fingir que não era político. Marcelo tenta agora fingir que não é mau político. Mas é este o grande problema: Marcelo é um político. Mas dos maus.


No debate com Sampaio da Nóvoa, Rebelo de Sousa cometeu um erro de principiante: desvalorizou o adversário. Tentou reduzir-lhe a sua dimensão política com dois argumentos principais:
1. Sampaio da Nóvoa não tem experiência política;
2. Sampaio da Nóvoa não tem participação cívica mediática.


Ora, mais do que saber se Sampaio da Nóvoa é atacável por este flanco ou não, esta é uma estratégia destinada à derrota. Se Marcelo não conseguir provar estes dois pontos, perde o debate. Se Marcelo conseguir provar estes dois pontos, eles tornam-se irrelevantes porque no debate de ideias e na discussão acesa, uma pessoa sem experiência política e sem intervenção mediática conseguiu entalar o auto e heteroproclamado distinto professor de Direito.
Ir a jogo com dois argumentos tão fracos e sem plano B (ainda tentou desesperadamente esbracejar, recorrendo ao populismo mais reles ao pôr em causa os custos da campanha de Sampaio da Nóvoa), independentemente do resultado, revelam a falta de preparação política e de inteligência. Não ter defesa possível para os constantes e óbvios ataques às suas contradições, revelam que Marcelo não esperava um confronto, que não vai para além da conversa simpática e perguntas mais ou menos cómodas de jornalistas. Ironicamente, foi Marcelo que se viu atraiçoado pela sua escassa e insuficiente dimensão política.

 

O problema não é Marcelo ter tido posições contraditórias ao longo dos anos.  O problema nem é sequer Marcelo ser capaz de defender tudo e o seu contrário com a mesma convicção. O problema é Marcelo ser capaz de defender tudo e o seu contrário com a mesma falta de convicção. Arriscamo-nos a ter como Presidente da República o professor Marcelo e o professor olecraM.

 

É fácil parecermos muito inteligentes se formos os únicos na sala. Marcelo foi construindo uma imagem de comentador perspicaz, abrilhantado por sorrisos e olhares cúmplices com os pivots, em homilia semanal, sem contraditório. Em debate com quem não se limita a sorrir e acenar simpaticamente e discute política sem rodeios, Marcelo perdeu ontem (e já antes tinha perdido com Marisa Matias) e perderá sempre. A mitomania tem um problema muito grande quando é confrontada com a realidade. E o mito Marcelo Rebelo de Sousa é um enorme castelo de areia. Não será fácil, porque o mar não está muito agitado, mas é fundamental que esta campanha presidencial crie uma vaga que o destrua. Se ficar de pé, o próximo Presidente da República é a Vicky Pollard.

Autoria e outros dados (tags, etc)

30
Dez

Eu não sou machista, mas.

por João Gaspar

Eu não sou machista, mas também não é preciso exageros.

Eu não sou machista, mas hoje em dia o feminismo já não faz sentido.

Eu não sou machista, mas as mulheres estão sempre histéricas e a queixar-se sem razão.

Eu não sou machista, mas até há mulheres que são muito piores do que os homens.

Eu não sou machista, mas as mulheres não sabem mesmo conduzir, a culpa não é minha.

Eu não sou machista, até acho que as mulheres devem ter os mesmos direitos dos homens, mas não é preciso estarem sempre a reinvindicá-los.

Eu não sou machista, até porque tenho uma chefe lá no escritório e parece um homem a mandar.

Eu não sou machista, mas não vou oferecer uma barbie ao puto, não vá ele virar maricas. Não que tenha alguma coisa contra os maricas (que não tenho), mas também não é preciso ter um lá em casa.

Eu não sou machista, mas quando o puto chora digo logo que parece uma menina, que é para ver se ele tem vergonha.

Eu não sou machista, até mudo as fraldas aos putos, mas mãe é mãe.

Eu não sou machista, mas também um piropo nunca fez mal a ninguém. E se a gaja for boa merece, caramba, é um prémio que lhe estou a dar. Só não gosta de piropos quem nunca teve um elogio. E se ela passa mesmo ali ao lado é porque quer alguma coisa. E se não gostar, mulher séria não tem ouvidos. Como a minha mãe.

Eu não sou machista, mas se alguém se meter com a minha filha vou buscar a caçadeira.

Eu não sou machista, mas se um gajo chega do trabalho cansado como é que ainda vai fazer o jantar e ver a bola ao mesmo tempo? 

Eu não sou machista. Aliás, não admito que ninguém me chame machista. Muito menos uma gaja.

Autoria e outros dados (tags, etc)



Sitemeter



Comentários recentes

  • Zzzzz

    Qualquer comparação, equiparação, ao nazismo, abso...

  • Sérgio Lavos

    Concordo, devemos respeitar quem é diferente de nó...

  • Bruno

    Muito sinceramente, isto é tudo muito lindo, mas h...

  • alvaro silva

    Só vejo dores de cotovelo e premonições de catástr...

  • J P C

    Se é isso o que o meu comentário lhe faz lembrar, ...







«As circunstâncias são o dilema sempre novo, ante o qual temos de nos decidir. Mas quem decide é o nosso carácter.» Ortega y Gasset