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18
Jun

 

O desfecho de uma possível saída da Grécia da zona euro tem tudo para se tornar uma tragédia clássica tal como Aristóteles a descreveu. E não necessariamente para os gregos, ainda que a situação financeira do país fique por resolver mesmo abandonando a moeda única. Isto porque a ideia de Europa, em consonância com os desígnios de quem a pensou na sua forma original, tinha tudo a ver com a solidariedade entre os povos.

Churchill dizia que em tempo de paz o que deve prevalecer é a boa vontade. No entanto, esta parece estar a ser sacrificada pelo simples facto de um país recusar impor aos seus cidadãos a agonia de um estrangulamento económico que apenas agrava (e compromete seriamente) o desejado (por todas as partes) pagamento das obrigações.

Ainda ninguém conseguiu avaliar a real dimensão da saída da Grécia do Euro e há opiniões para todos os quadrantes ideológicos. Porque, que se queira quer não, é de ideologia que se trata e não de simples contabilidade orçamental. O Syriza, radical ou moderado, teve o mérito de afrontar o discurso vigente das inevitabilidades que desde 2008 tem sido vendido à opinião pública. O resultado dessas inevitabilidades vem hoje muito bem descrito na primeira página do The Guardian. Brevemente podem fazer o mesmo com Portugal.

É possível que a saída da Grécia seja um caso isolado. Que não haja perigo de contágio ou, mesmo a haver, a boa vontade que parece não haver com os gregos agora, tenha que obrigatoriamente surgir mais tarde com as economias mais débeis da zona euro, com Portugal (de cofres cheios) obviamente na linha da frente das vítimas. O certo é que para a história ficará uma ferida das que deixam marcas num projecto comum (importante), no qual se deixou cair um parceiro por razões meramente contabilísticas. Como no elo mais fraco: “adeus”. Sem que se tenham ouvido vozes suficientes para a defesa de um Estado membro da União (monetária, neste caso).

Para os mais acérrimos defensores da lógica mercantilista é sempre bom lembrar que existem na equação activos intangíveis. Que discurso terá a Eurogrupo depois de permitir a saída da Grécia do Euro? Que solidariedade pode defender sem manchas de ridículo por ter desistido do sexto mais populoso país dos 19 da moeda única? Não será difícil adivinhar quem será o maior prejudicado desta tragédia clássica que se perspectiva. Entre Euro e Grécia, o futuro o dirá.

 

A propósito…

 

M: This private vendetta of yours could easily compromise Her Majesty's government. You have an assignment, and I expect you to carry it out objectively and professionally!

James Bond: Then you have my resignation, sir.

M: We're not a country club, 007!

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4 comentários

De ricardo a 19.06.2015 às 20:04

So tenho uma duvida!!passo a citar(que discurso tera a dizer o eurogrupo de pois de ((permitir)) a saida da grecia do euro.eu tenho ideia que qualquer pais pode sair da zona euro quando lhe apetecer.basta olhar para o caso dos ingleses que ja abandonaram o barco a muito tempo.e nao vejo ninguem preocupado com que eles abandonem!!?

De João Henriques a 20.06.2015 às 01:57

A União Europeia era um projecto de solidariedade, após um 1º Resgate, resgate esse para pagar salvar bancos Franceses e Alemães, veio um 2º Resgate para pagar parte do 1º Resgate e para os bancos Gregos, etc.
Os Gregos esses são alvo de uma austeridade brutal que está a destruir não só a economia de uma país, está a destruir um país e as vidas de seus cidadãos.

Considero que Portugal não tem politicos à altura do momento histórico que vivemos, o nosso país não tem voz própria na Europa, porque andamos sempre a reboque de Ingleses, Franceses e Alemães.
Os nossos politicos em vez de pensarem pelas suas cabeças e defenderem os interesses de Portugal, não passam de marionetas atrás de uma espécie de compensação ou protecção de países mais poderosos.

Na realidade e tendo em conta a posição extrema que a Grécia atravessa, não será do interesse de Portugal (Espanha, Itália, Chipre e Irlanda) manter a Grécia na Europa?
Se a Grécia sai, há o risco de efeito dominó, os próximos países em risco de serem "atirados" para fora da União Europeia serão Portugal, Irlanda, Espanha, Itália ou Chipre. Sim porque alguém terá de pagar a divida dos Gregos, que já estão falidos...

A pior pessoa que poderemos enfrentar é uma pessoa que já não tem nada a perder.
Em 500 milhões de habitantes na UE, 11 milhões não têm nada a perder, eles já estão falidos, só ainda não são oficialmente porque a Troika continua a emprestar-lhes dinheiro para eles pagarem divida...

Sinceramente não me revejo nesta União Europeia - a egoísta...




De Aerdna a 20.06.2015 às 10:18

Revejo a minha opinião no seu comentário, e no texto do autor do blog.

Eu penso que os interesses da Troika são difíceis de combater porque eles é que têm o dinheiro.
Mas a Grécia já entrou a perder. Aconteça o que acontecer, eles já estão na posição desconfortável.
A Troika tende a não admitir que lhe pode sair o tiro pela culatra.
O plano da Troika era simplesmente genial: emprestar dinheiro a estes países que sempre tiveram problemas de produtividade e gestão desastrosa, e depois cobrar-lhes com juros milionários.
Mas esse não é o único ganho. Também os colocaram na posição de reféns das suas ideologias e vontades. Veja-se Portugal, dobrou-se completamente.
E a sua vontade, tem sido empobrecer as populações de forma a obter “escravatura” barata que permita encher os bolsos dos empresários. E ainda fazer as famosas privatizações que são o paraíso dos empresários: Empresas que só geram lucros, porque os prejuízos o “zé povinho” paga.
Não é genial?
E nem sequer é novo, porque já é mais ou menos o que se faz nos países árabes: vão lá buscar as riquezas, vendem-lhes as armas, e mantêm 2/3 carniceiros que mantenham a população empobrecida e refém.
Não contavam é com a reacção grega. Porque pode até não conseguir negociar, mas já conseguiu colocar as pessoas a perguntar-se: A Europa é uma “instituição do povo para o povo” ou é uma “instituição do dinheiro do povo para dar a ganhar a empresários”?
Se a Troika aceita a negociação ainda vai a tempo de salvar a imagem e manter a paz, apesar de que vai ter de estar disposta a renegociar com os outros estados em dificuldades.
Se a Troika recusa, a sua função vai ser questionada e quem nada tem a perder pode colocar tudo a perder. No séc. XVIII, foi assim na França: os ricos padeceram nas forquilhas dos mais pobres.
Deixo o link do discurso do Varoufakis que em nome da transparência (palavra ausente do dicionário politico, não?), resolveu publicar e o Expresso traduziu:

http://expresso.sapo.pt/internacional/2015-06-19-Palavra-por-palavra-proposta-por-proposta-o-que-Varoufakis-pediu-e-a-Europa-rejeitou.

Boa Semana!

De cheia a 20.06.2015 às 21:53

Só acredito na saída da Grécia, quando ela acontecer, porque não me cabe na cabeça, que os dirigentes europeus sejam tão atrasados , para não escrever outra palavra, ao ponto de não darem mais uma oportunidade à Grécia, só porque os gregos tiveram a coragem de dizer basta, elegendo representantes que não rastejam. Têm medo que os gregos arrastem outros países a fazer o mesmo, visto que a CE. é um barco à deriva? Onde está a Europa da solidariedade e fraternidade?

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