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A descoberta de um fragmento da cauda de um dinossauro não-aviano preservado em âmbar é um evento científico daqueles que acontece uma vez numa década. Nada melhor do que um banho de ciência para nos refrescar da tão proclamada "era pós-verdade" ou "pós-facto". Qualquer de seja a designação, estranho muito a complacência que normalmente acompanha algumas das constatações do advir desta nova era, qual inevitável e inexorável. A associação de temas não é óbvia, mas dêem-me o benefício da dúvida.

Em primeiro lugar, permitam-me explicar porque falo em "dinossauros não-avianos" e não apenas em "dinossauros". Existe hoje um consenso, assente no registo fóssil, de que as aves evoluíram dentro dos Theropoda, grupo de dinossauros que inclui o T-rex e os Velociraptors, celebrizados nos filmes da série Jurassic Park. Desta forma, as aves são, em rigor, dinossauros, daí a distinção entre "dinossauros não-avianos", aqueles que nos habituamos a ver como "dinossauros", e "dinossauros avianos", as aves.

Sobre os dinossauros não-avianos, o nosso imaginário foi construído desde os livros infantis até ao cinema com uma representação destes como criaturas semelhantes a répteis, cobertos de escamas, de sangue frio. As ilustrações que encontramos habitualmente reforçam essa associação na escolha das cores e padrões de cores construídos por analogia aos de crocodilos ou lagartos. A verdade é que, até agora, ninguém fazia a menor ideia de qual era a cor dos dinossauros cujos fósseis podemos encontrar nos museus de história natural.

Quando em 1993 estreou o filme Jurassic Park, ele apresentava aos espectadores uma visão crível e aterradora do que seriam as criaturas que habitavam o planeta até há cerca de 65 milhões de anos. Para além do feito técnico que foi à época, a produção do filme esforçou-se por usar os mais recentes dados científicos disponíveis para ter a melhor aproximação possível da aparência e comportamentos daqueles animais pre-históricos. Tanto mais que, nas duas primeiras sequelas do filme, datadas de 1997 e 2001, há diferenças na aparência de algumas espécies, que acompanham a evolução do conhecimento sobre elas.

Na década seguinte, tornar-se-ia evidente que muitas das espécies de dinossauros não avianos que vimos nos filmes e nos livros infantis e juvenis estavam, na realidade, cobertos de penas, em particular, os famosos T-rex e Velociraptors, reforçando o elo evolutivo com as aves modernas. 

Ora, chegados a 2013 e com esse dado já bastante conhecido e divulgado, há uma nova sequela de Jurassic Park, desta feira, o filme Jurassic World. Apesar da evidente evolução das técnicas e meios ao dispor das equipas de efeitos especiais, permitindo um realismo muito maior, a produção, desta vez, decidiu não acompanhar o progresso feito no conhecimento sobre a aparência dos animais extintos que surgem no filme. Foi uma escolha deliberada de apresentar ao público uma aparência familiar, que não fosse contra as suas expectativas, formadas no imaginário pelos livros e filmes anteriores, de como se parece um "dinossauro".

Naturalmente, trata-se de uma escolha criativa legítima, mas, além de uma oportunidade perdida de divulgação de conhecimento, interpreto-a retrospectivamente como mais um sinal de uma tendência que ignora os factos e reforça as ideias pré-existentes. Isto leva-me a questionar de enviesamento para a confirmação que hoje prevalece tem origem nas redes sociais, como muitos assumem, se estas são apenas mais um sintoma de um movimento cultural que desvaloriza o conhecimento.

A descoberta do fragmento do dinossauro com penas é, de facto, extraordinária. Para além de confirmar para lá de qualquer dúvida a existência de plumagem no dinossauros não-avianos do grupo Theropoda, é a primeira vez que se tem acesso a material original que fez parte de um indivíduo vivo, por oposição a impressões em rochas ou fósseis.

Isto deu-me o pretexto, não só para fazer um pouco de divulgação de ciência, mas de abordar um tema cuja amplitude ainda não é clara para mim. A atitude anti-intelectual, anti-ciência ou, se não "anti", pelo menos "indiferente a", tem ramificações no crescimento das ditas medicinas alternativas, nos negacionistas dos aquecimento global, nos "anti-vaxers" e na propagação de notícias falsas. Vou ficando convencido que estas várias vertentes fazem parte de um mesmo fenómeno de fundo contra o qual não pode haver a mínima hesitação, sob pena de nos deixarmos levar para o obscurantismo.

 

 

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