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365 forte

Sem antídoto conhecido.

Sem antídoto conhecido.

29
Out14

Nuno Crato

Sérgio Lavos

Nuno Crato. O que restará ainda dizer sobre esta criatura que calhou ter caído num ministério do qual depende grande parte do futuro do país? O que resta dizer, depois das sucessivas decisões que arruinaram as áreas que o seu ministério tutela, do ensino à ciência? O que dizer de um ministro zombie? Pior: um zombie que continua a contaminar tudo o que toca, porque o sr. primeiro-ministro decidiu que teria de continuar a haver alguém mais incompetente do que ele no Governo. 

Passados dois meses do início das aulas, ainda há milhares de alunos sem professores, e o processo concursivo parece ter-se transformado numa história interminável, num pesadelo kafkiano sem fim à vista. E o que tem Crato, o outrora rigoroso Crato, o exigente Crato, a dizer? Balbucia coisas, como o louco da aldeia, baba-se perante a comunicação social, em desespero. O dele e o nosso. Um desespero disfarçado de uma insuportável arrogância, mas ainda assim desespero. Só assim se compreende que, quando questionado uma vez mais sobre o caos nas escolas, Crato tenha defendido o que está a fazer socorrendo-se de algo que, não só não é resultado da sua política educativa, como é produto de tudo o que ele andou a criticar nos planos inclinados desta vida. Diz Crato: «Sabemos pelas experiências internacionais, pelos estudos e pesquisas feitos ao longo dos últimos anos, que estamos na direção certa para melhorar a educação no nosso país». Deverá estar a referir-se aos mais recentes resultados do PISA e do TIMMS, que indicam uma evolução nítida dos alunos portugueses, fruto de um investimento de décadas. Ora, uma simples pesquisa sobre o que dizia Crato quando não era ministro sobre os métodos utilizados para chegar a estes resultados pode ser deprimente, sobretudo pelo contraste entre o que defendia e o que agora tem para apresentar. Ver o ministro, antigo campeão do rigor e da exigência, herói da luta contra o facilitismo e o "eduquês", elogiando agora o que antes execrava, é verdadeiramente lamentável, pela desfaçatez e pela ruína moral que esta atitude pressupõe. Anos e anos de críticas aos governos socialistas pela introdução de métodos pedagógicos que acabaram por dar resultados, e agora isto: a falência completa do seu ministério, nenhuma ideia nova para apresentar e um legado que não chega a ser legado, mas sim um rasto de destruição sem fim, de que levaremos anos a recuperar. 

Nuno Crato. O seu nome ficará para a História. Não duvidemos.

14
Out14

Incompetência ou estratégia?

Sérgio Lavos

Durante algum tempo, ainda quis acreditar que o caos que se vive na educação é apenas resultado de muita incompetência de Nuno Crato e da equipa do ministério da Educação. Mas depois de vários comentadores afectos ao Governo, do novo porta-voz governamental, Cavaco Silva, e do próprio Passos Coelho, terem vindo defender um novo modelo de colocação de professores, fiquei convencido da verdadeira causa da sucessão de erros que se têm vivido neste início de ano escolar: a vontade deliberada de provocar a desorganização no ensino público, deste modo levando a uma discussão que parecia mais do que encerrada há uns anos.

Com milhares de alunos ainda sem professor, atrasos nos programas e a incerteza sobre o futuro a curto e médio prazo, quantos pais não terão já tirado os seus filhos da escola pública, quantos não estarão a pensar fazê-lo? Essa é uma questão. Outra é a razão das sucessivas declarações de apoiantes do Governo, não atacando a aparente incompetência do ministro, mas o modelo em si - quando antes esse modelo sempre funcionou relativamente bem. O que parece acaso e erro poderá não passar de estratégia que visa provocar uma discussão que estava fechada. Se assim for, é ainda mais grave o que está a acontecer. Não se pode brincar com a vida de milhares de alunos apenas por motivações políticas ou ideológicas. Isso configura um crime sem perdão. Repugnante.

18
Set14

Sem perdão

Sérgio Lavos

A moda para a nova estação parece ter chegado: pedir desculpa. Dois dias seguidas, dois ministros a pedir perdão pela asneira feita. Isto é novo, neste Governo. O que já conhecíamos eram outras tácticas de diversão, desde negar que se esteja a passar qualquer coisa de errado (o rigoroso Nuno Crato é useiro e vezeiro nisto e Paula Teixeira da Cruz também tentou, durante duas semanas, esta táctica da avestruz), até desvalorizar a dimensão do erro ou das consequências, passando pelo famoso "não me demito" proferido pelo líder da matilha, Passos Coelho, nos idos de Agosto de 2013.

O que poderemos fazer com estes dois pedidos de desculpa? Eu sei onde Crato e Teixeira da Cruz deveriam introduzir tais pedidos, mas isso não é para aqui chamado. A minha questão é outra: o que poderão fazer os principais prejudicados com as decisões dos ministros com o perdão pedido? O que poderão fazer os pais, os alunos e os professores que vão sofrer com a escolha da fórmula errada (o rigoroso matemático Crato ter metido água nesta área é mais do que irónico, é ridículo) no cálculo de colocação de professores? Pior: o que farão os advogados, os réus e os queixosos com as desculpas pedidas por Paula Teixeira da Cruz? O que fará o país com os atrasos nos processos, com a paralisação completa do sistema de justiça, com o regresso ao papel, à caneta, aos faxes e às gravações de julgamentos em cassete (nos tribunais onde ainda estavam guardados os gravadores)? Três anos, diz a ministra, sem sombra de pudor, até novo programa estar pronto. Tudo parado. Desculpas?

Aquilo de que parecem padecer tanto Crato como Teixeira da Cruz é de uma coisa muito simples: sentimento de impunidade (e não tinha sido a ministra a dizer que ela tinha acabado?). Sentem-se, desde o verão passado, desde que Passos Coelho meteu o presidente da República no bolso, livres para fazerem o que quiserem, como quiserem. O pedido de desculpas não tem qualquer valor de verdade, as palavras perderam a sua qualidade performativa. Com erros desta dimensão, o pedido apenas teria valor, seria sentido, se fosse ligado a uma acção: o pedido de demissão. Mas, por falta de estatura e de postura ética dos ministros ou do próprio primeiro-ministro (a ordem deverá ter vindo dele), não há consequência na actuação.

Num país que valorizasse o mérito, os crimes destes dois ministros há muito teriam tido castigo. Crato, por repetição (desde que tomou posse, não há início de ano escolar que corra bem), Paula Teixeira da Cruz, pelo facto de ter deitado abaixo o terceiro pilar da democracia, o poder judicial. Não há mérito neste Governo, nem competência. Apenas um estertor prolongado impulsionado pela inoperância activa do presidente da República e pela apatia generalizada dos portugueses. Tudo se passa, e passará, assim, até às legislativas. E o país a andar para trás. Anos, décadas. O pó das ruínas pairará durante muito tempo.

19
Jul14

Sophia, oh Sophia

Sérgio Lavos

Como foi bonita a recente homenagem a um dos nossos maiores poetas, Sophia. Sophia, um nome só, entoado com a mesma sonora empáfia com que se diz Homero pela presidente da Assembleia da República. Como foi bonito, o corpo morto transportado em direcção ao teu segundo repouso eterno, um corpo guardado por cavalos, pompa e circunstância, cavaleiros de pluma na cabeça, elmos brandindo dourado ao sol. Como foi bonito, os discursos, eivados de poesia, metáforas e grandiloquência escorrendo das frases como mel sobre o doce âmbar da literatura. Como foi bonita, a presença no cortejo das figuras fátuas do regime, do primeiro-mininstro à reformada Assunção, todos muito compostos e sérios (é gente muito séria, esta, sabemos). O país, este país com novecentos anos de História e nove séculos de poesia, levou ao prometido Panteão a nossa maior poetisa, Sophia, apenas um nome, um apenas, a "justa homenagem" a uma figura que transcenderá gerações.

Como também é bonito o facto da poesia de Sophia não estar nos currículos escolares, a poesia tão emotivamente homenageada nos discursos e nas televisões. A poesia de Sophia, pompa e vazio, flor na lapela do casaco dos políticos que a decidiram retirar dos currículos escolares. Como Sophia, oh Sophia, iria gostar da honra, e da glória, em desfavor do desaparecimento, do desconhecimento da geração que se seguirá. A reformada Assunção e o Grande Líder Coelho serão certamente as pessoas certas para levar Sophia (oh Sophia) ao merecido panteão, o sepulcro onde apodrecem os poetas.

Como será bonito também vermos o ministro, Crato de seu nome, responsável por Sophia ter desaparecido dos currículos do Secundário, a homenagear Sophia, e a acabar agora com os dois únicos centros de investigação de Estudos Clássicos do país. Os dois únicos, o de Coimbra tendo como associados a maior helenista do país, Maria Helena da Rocha Pereira, e Frederico Lourenço, seu herdeiro e tradutor da Ilíada e da Odisseia. Sophia (oh, o teu nome é mar) adoraria saber que a sua amada Grécia, o seu amado Homero, são agora considerados obsoletos, redundantes, e indignos de receberem fundos do Estado português. A Antiguidade Clássica certamente não é rentável, já sabemos. Não interessa às empresas, como Coelho e Crato já disseram que deveria ser a investigação financiada pelo Estado. Que pode uma fábrica de enchidos fazer com uma Ode de Píndaro? Que uso uma empreendedora fabricante de um aplicador de Nutella poderá dar a uma tradução de Aristóteles? Nenhum, claro. No novo país que Coelho pacientemente está a construir, não há lugar para o passado, apenas para um radioso futuro.

Sophia, oh Sophia, tu, que do Panteão onde foste posta olhas o país que carregou o teu corpo morto até ao túmulo onde se celebra o vazio, que acharás do apagamento dos teus poemas, que acharás do esquecimento da tua amada Grécia? Sophia, na boca desta escória que agora domina Portugal, o teu nome apaga-se. O pior que te poderiam fazer, fizeram-no. E tudo continua.

11
Abr14

Mais novas da "década perdida na educação" II

mariana pessoa

"Portugal quase duplicou a percentagem de jovens adultos com cursos superiores desde 2002 e reduziu para metade os desistentes do ensino com idades entre 18 e 24 anos."

 

De facto, a trajectória de Portugal ao longo dos anos só pode ser caracterizada pelo falhanço. É mesmo uma década perdida:

 

 

Gráfico 1: Percentagem de jovens adultos, entre os 30 e os 34, com conclusão de curso superior. (Fonte: EUROSTAT)

 

 

 

 Gráfico 2: Desistentes do sistema de ensino e formação (18-24 anos) (Fonte: EUROSTAT)

 

Mais sobre a década perdida na educação aqui e aqui.

Já agora, onde estão as declarações de Mário Nogueira a salientar estes resultados? Ah, já sei, não interessa falar sobre isto. Na volta descobre-se que os professores não se viram assim tão impedidos de promover o sucesso escolar. Vá lá a gente perceber estas coisas.

28
Fev14

Mais novas da "década perdida na educação"

mariana pessoa

Foram ontem apresentados os resultados do Epiteen (Epidemiological Health Investigation of Teenagers) que acompanhou desde 2003 quase 3000 adolescentes nascidos em 1990 e que visa compreender de que forma os hábitos e comportamentos da adolescência se vão reflectir na saúde do adulto. 

 

Detenhamo-nos em dados da caracterização sócio-demográfica: a escolaridade dos pais e a escolaridade dos filhos. "Apesar de a maioria dos pais dos jovens inquiridos ter apenas o ensino obrigatório (53,2% das mães e 53,5% dos pais), no caso dos jovens apenas 8,5% não passaram daquele nível de ensino. O mesmo para o ensino superior: apenas 22,6% das mães e 20,95% dos pais concluíram a universidade, enquanto, entre os jovens inquiridos, 36,9% tinham já licenciatura e 27,8% estavam a frequentar a universidade."

 

 

“Estes dados mostram que o valor da educação está muito bem incorporado na sociedade portuguesa”, analisa Anália Torres, socióloga e investigadora no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa, instituição convidada agora a participar no projecto do Instituto de Saúde Pública e do Departamento de Epidemiologia da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto. A socióloga considera que estes resultados mostram que “o país mudou radicalmente em termos de escolaridade, no espaço de apenas uma geração”. Logo, “todos os tostões investidos em educação foram muitíssimo bem gastos”.

 

Mais sobre o Epiteen aqui.

Mais sobre a cruz do socialismo que temos de carregar aqui e aqui.

E o que foi papageado sobre o "eduquês" aqui, aqui e aqui.

 

 

 

 

 

04
Out13

Nunca é demais desmistificar

Cláudio Carvalho

Esquecendo um sem número de fatores, desde a evolução histórica, predisposição cultural para a prática de mecenato, disponibilidade de capital, entre outros ou, por outro lado, simplesmente relutâncias metodológicas associadas à construção do próprio ranking, n' O Insurgente procura-se criar uma relação direta - que não existe verdadeiramente - entre menor financiamento público e melhor posicionamento nos rankings internacionais de ensino superior. Como temos vindo sistematicamente a alertar neste espaço, Portugal tem (também) no ensino superior níveis baixos de financiamento público em função da riqueza produzida, em análise comparativa com os seus parceiros. Os indicadores do Education at a Glance da autoria da OCDE divulgados este ano - referentes ao ano de 2010 - são claros:

 

Despesa pública em ensino superior em percentagem do Produto Interno Bruto:
EUA: 1,4%
Reino Unido: 1,0%
OCDE: 1,4%
UE21: 1,4%
Portugal: 1,1% 

Um outro pormenor a ter em atenção: É destacado n' O Insurgente, mas mal interpretado pelo André Azevedo Alves, que o ensino superior nacional em particular, mas também os dos demais países europeus, estão em queda nos rankings. Tal é claro como água mas o problema são os fortes constrangimentos orçamentais que estão a ser impostos às economias europeias, assim como ao ensino superior e aos sistemas científicos e tecnológicos dos diferentes países do "velho continente".

 

Mais uma vez, a evidência não "cola" com a ideologia. As conclusões que se querem tirar não "colam" com a análise dos resultados. É por isso que nunca é demais desmistificar...

«As circunstâncias são o dilema sempre novo, ante o qual temos de nos decidir. Mas quem decide é o nosso carácter.»
- Ortega y Gasset

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