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365 forte

Sem antídoto conhecido.

Sem antídoto conhecido.

18
Jul14

Os intelectuais de direita também têm direito a existir

Sérgio Lavos

Lembrei-me da recente polémica sobre o coming out de uma certa direita intelectual ao ver esta vídeo-instalação de Ana Vidigal, que ensaia uma espécie de resposta a esta crónica de Maria de Fátima Bonifácio.

Lembrei-me enquanto sujava a cara e a boca com a gordura de um belo leitão e sentia nos lábios o sabor de um tinto carrascão comprado na Bairrada em homenagem aos congressistas do CDS-PP que há uns meses se queixaram de ter sido roubados por um empresário mal-intencionado.

(Isto veio a revelar-se mentira, o que por um lado lamento e por outro confirma que do partido irrevogável é sempre de esperar a mais torpe das mentiras. No caso em questão, acusar alguém de roubo.)

Lembrei-me enquanto arrotava, assim evocando esse grande vulto da intelectualidade de direita, Henrique Raposo, que tanto sabe escrever sobre a mais recente flutuação dos mercados como sobre a flatulência das mulheres de seios grandes, discorrendo diariamente fazendo uso das ferramentas que Deus lhes deu, a saber: a alarvidade sem dó e a mais abjecta ignorância sobre todos os assuntos. Raposo é portanto um homem com todas as qualidades, como aliás confirma a resposta dada ao jornalista na tal reportagem sobre o coming out, quando questionado sobre as razões de ter espaço na imprensa que em tempos era considerada de referência: "se estou no Expresso, é porque sou bom." Não reparando, coitado, que a folha dele no jornal de referência assemelha-se um pouco a um acidente na estrada em que todos param para ver ou à presença do Telmo do Big Brother nos ecrãs da TVI24. Gera audiência, shares no Facebook etc. e tal. Mérito suficiente para ser considerado um intelectual de direita.

Ora, Maria de Fátima Bonifácio tem outra estaleca, outra pátina. Sem querer escarafunchar excessivamente em tal existência (não resisto muito tempo em apneia), sei que Fátima pertence a uma das mais ruins estirpes do nosso país: a dos burgueses que durante o PREC namoraram com a extrema-esquerda mas com o passar do tempo regressaram à sua zona de conforto, reajustando-se à crisálida que tinham abandonado durante os conturbados anos de juventude. São os calores juvenis, a alegre loucura revolucionária, os fervores maoístas, as febres mais tarde domadas pelo berço, que lá do fundo da infância não cessa de chamar à razão esta burguesia perdida na sua própria transigência revolucionária. De volta para o aconchego dos braços familiares, esta estirpe passa a sofrer de uma culpa interiorizada. O conservadorismo que abraçam tem uma raiva latente, dirigida exteriormente - em crónicas de jornal - à esquerda em geral, mas na realidade interiormente direccionada a eles próprios, como se fosse cuspo atirado contra o vento batendo com força nas fuças. Tal regurgitação de ódio anti-esquerdista (sempre aliado a um desprezo a tudo quanto soa a progresso e modernidade, seja na política, seja na estética) tem na realidade um reverso de auto-desprezo (self-loathing, como a língua inglesa melhor explica), e mascara a impotência, tão irremediavelmente humana, de não conseguirem mudar o seu passado. Esta raiva auto e heterodireccionada põe esta gente num patamar diferente dos conservadores que nunca viraram costas ao berço e preferiram exilar-se no Brasil ou na redacção do Independente durante os anos 80. Sabem que por se terem tresmalhado da via justa, dos saraus de poesia na Lapa e das orgias badalhocas na Quinta da Marinha, por terem durante breves momentos (e eles querem tanto que tivessem sido breves) flirtado com um destino revolucionário, nunca serão plenamente aceites de volta. E por isso redobram esforços no ódio e no fanatismo ideológico, chegando a surpreender os verdadeiros conservadores (de modo geral bastante tolerantes com as escolhas políticas dos outros).

Perdidos nas suas próprias contradições, presos a um passado que não deixa de estar lá, ao fundo da memória, que os envergonha profundamente, estes novos intelectuais inorgânicos passam por outro verdadeiro martírio: sabem que os líderes que defendem agora são de outra linhagem, de outra educação, gente da província portuguesa ou ultramarina. E por isso ainda estrebucham mais, e defendem com mais energia os gurus que a vida lhes trouxe, consolando-se na raiva e no ressentimento a que uma existência cravejada de frustrações obriga.

Devemos mimar desta gente, porque sofrem de um sofrimento sem fim. O charco de ódio em que medram serve-lhes de tudo ao mesmo tempo: prato, copo e latrina. Que andem muitos anos por aí, sempre em paz.

«As circunstâncias são o dilema sempre novo, ante o qual temos de nos decidir. Mas quem decide é o nosso carácter.»
- Ortega y Gasset

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