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19
Jul

Sophia, oh Sophia

por Sérgio Lavos

Como foi bonita a recente homenagem a um dos nossos maiores poetas, Sophia. Sophia, um nome só, entoado com a mesma sonora empáfia com que se diz Homero pela presidente da Assembleia da República. Como foi bonito, o corpo morto transportado em direcção ao teu segundo repouso eterno, um corpo guardado por cavalos, pompa e circunstância, cavaleiros de pluma na cabeça, elmos brandindo dourado ao sol. Como foi bonito, os discursos, eivados de poesia, metáforas e grandiloquência escorrendo das frases como mel sobre o doce âmbar da literatura. Como foi bonita, a presença no cortejo das figuras fátuas do regime, do primeiro-mininstro à reformada Assunção, todos muito compostos e sérios (é gente muito séria, esta, sabemos). O país, este país com novecentos anos de História e nove séculos de poesia, levou ao prometido Panteão a nossa maior poetisa, Sophia, apenas um nome, um apenas, a "justa homenagem" a uma figura que transcenderá gerações.

Como também é bonito o facto da poesia de Sophia não estar nos currículos escolares, a poesia tão emotivamente homenageada nos discursos e nas televisões. A poesia de Sophia, pompa e vazio, flor na lapela do casaco dos políticos que a decidiram retirar dos currículos escolares. Como Sophia, oh Sophia, iria gostar da honra, e da glória, em desfavor do desaparecimento, do desconhecimento da geração que se seguirá. A reformada Assunção e o Grande Líder Coelho serão certamente as pessoas certas para levar Sophia (oh Sophia) ao merecido panteão, o sepulcro onde apodrecem os poetas.

Como será bonito também vermos o ministro, Crato de seu nome, responsável por Sophia ter desaparecido dos currículos do Secundário, a homenagear Sophia, e a acabar agora com os dois únicos centros de investigação de Estudos Clássicos do país. Os dois únicos, o de Coimbra tendo como associados a maior helenista do país, Maria Helena da Rocha Pereira, e Frederico Lourenço, seu herdeiro e tradutor da Ilíada e da Odisseia. Sophia (oh, o teu nome é mar) adoraria saber que a sua amada Grécia, o seu amado Homero, são agora considerados obsoletos, redundantes, e indignos de receberem fundos do Estado português. A Antiguidade Clássica certamente não é rentável, já sabemos. Não interessa às empresas, como Coelho e Crato já disseram que deveria ser a investigação financiada pelo Estado. Que pode uma fábrica de enchidos fazer com uma Ode de Píndaro? Que uso uma empreendedora fabricante de um aplicador de Nutella poderá dar a uma tradução de Aristóteles? Nenhum, claro. No novo país que Coelho pacientemente está a construir, não há lugar para o passado, apenas para um radioso futuro.

Sophia, oh Sophia, tu, que do Panteão onde foste posta olhas o país que carregou o teu corpo morto até ao túmulo onde se celebra o vazio, que acharás do apagamento dos teus poemas, que acharás do esquecimento da tua amada Grécia? Sophia, na boca desta escória que agora domina Portugal, o teu nome apaga-se. O pior que te poderiam fazer, fizeram-no. E tudo continua.

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4 comentários

De Lúcios Gomes a 19.07.2014 às 23:48

Está mal estudada a lição, foi Crato que devolveu Sophia aos programas

De Sérgio Lavos a 19.07.2014 às 23:50

Não foi, não. Estude mais para fazer a sua propaganda.

De Francisco Clamote a 20.07.2014 às 01:06

Bonito texto. Digno de Sophia.

De Joe Strummer a 20.07.2014 às 14:40


E porquê só a Sofia? Não haverá ninguem mais que (des)merereça o panteão e ser apocrifo desta politica?
A Sofia tambem é de certo modo uma poetisa do regime, com ou sem razão mas sempre com merito. Beneficiou tambem de um certo lobbyismo. Não acho, salvo casos muito especificos como o Barbi ruivo, q os poetas devam ser consensuais. detesto tanto a clique q engole Sofia sem gostar dela como a claque que a quer impôr sem viver aquilo q ela representa.
Deixo aqui um poema de um grande poeta em homenagem ao teu defunto blog.

Auto-Retrato (ou -actualizando- Selfie)

Poeta é certo mas de cetineta
fulgurante de mais para alguns olhos
bom artesão na arte da proveta
narciso de lombardas e repolhos.

Cozido à portuguesa mais as carnes
suculentas da auto-importância
com toicinho e talento ambas partes
do meu caldo entornado na infância.

Nos olhos uma folha de hortelã
que é verde como a esperança que amanhã
amanheça de vez a desventura.

Poeta de combate disparate
palavrão de machão no escaparate
porém morrendo aos poucos de ternura.

José Carlos Ary dos Santos


Não merece Ary o Pintelhão?

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