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365 forte

Sem antídoto conhecido.

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08
Set14

Seguro e a interioridade

Nuno Pires

António José Seguro não se cansa de falar no interior como sendo o "país real", o bom e o belo, que é injustamente ostracizado por uma corte de iluminados de Lisboa. Em entrevistas e intervenções públicas, Seguro não tem hesitado em hostilizar Lisboa e os lisboetas, numa estratégia política que, para além de insultuosa, não parece ser lá muito inteligente quando o objetivo último é liderar um Governo de Portugal.

 

Apesar de tudo isto, a verdade é que de interior, de políticas públicas para a promoção da interioridade, António José Seguro parece perceber muito pouco. Muito pouco mesmo.

 

Mas Seguro apaixonou-se pelo interior e nada nem ninguém o vai separar do interior amado. Observe-se, a título de exemplo, mais um vídeo, publicado ontem na página de Facebook de AJS. Aquilo que Seguro demonstra neste vídeo, antes mesmo de olharmos ao interior em particular, é um profundo desconhecimento da importância do financiamento não reembolsável (ou a "fundo perdido", como se preferir) na atenuação de desequilíbrios estruturais. Não é novidade: Pedro Passos Coelho, em diversas ocasiões e a propósito da negociação dos fundos do envelope financeiro comunitário para o período 2014-2020, repetiu por várias vezes a ideia absolutamente errada de que o financiamento não reembolsável é algo de mau e que deve ser evitado. Seguro segue-lhe o (mau) exemplo - é esclarecedor.

 

Mas avancemos então para a noção de AJS daquilo que deve ser uma política pública de apoio ao interior do país. Após o visionamento daquele vídeo com o excerto de um discurso de Seguro, senti-me na obrigação de revisitar as ideias apresentadas pelo ainda Secretário-Geral do PS. E descobri que é aí que reside a principal evidência da vacuidade de ideias suas sobre o interior. Na moção política sobre Grandes Opções de Governo entregue na apresentação da sua candidatura às eleições primárias, Seguro não menciona uma única vez o interior. Não tem uma única ideia sua para aquela que, recentemente, se parece ter tornado a sua única e verdadeira paixão no país.

 

Ainda assim, e apesar de não compactuar com atropelos à propriedade intelectual, percorri as 80 medidas de que Seguro se apropriou e lá acabei por encontrar uma menção ao interior: ao fim de 50 ideias, chegamos à tal em que é referida a criação do "Programa de Desenvolvimento do Interior" de que Seguro fala, com o qual, através de financiamento comunitário, se pretendem a "criação líquida de emprego", a "captação de investimento privado nos setores transacionáveis internacionais" e a "promoção da natalidade e fixação das populações".

Como é que, em concreto, isso se atinge? Bom, logo se verá. O que interessa é desejar que o emprego se crie, que o investimento privado apareça e que as pessoas tenham filhos. Como se chega lá, não se sabe, mas pelo caminho Seguro podia ter também desejado o fim da fome e a paz no mundo.

 

De todo o modo, a verdade é que um "Programa de Desenvolvimento do Interior" que assente em financiamento comunitário é, numa palavra, um erro. Logo à partida porque seria, forçosamente, um programa limitado aos 7 anos de duração de um quadro de financiamento comunitário, um período de tempo que não permite resolver, de forma estrutural, o problema de despovoamento do interior que tanto apoquenta Seguro. É, sem dúvida, importante o contributo que os fundos comunitários podem dar a este nível, mas assentar toda uma estratégia num envelope de financiamento comunitário é uma ideia, no mínimo, fantasiosa. Diria mesmo que uma ideia destas, de que um problema estrutural do país é passível de resolução em menos de 7 anos, chega a ser ainda mais bizarra do que a ideia de acabar com os sem-abrigo no período de uma legislatura.

 

Há ainda mais um motivo para estranheza na análise ao que um apaixonado pelo interior tem para dizer sobre este tema. Com efeito, é motivo de surpresa constatar que Seguro nem sequer refere na sua intervenção o trabalho e a história, em muitos casos com bastante sucesso, que o PS regista ao nível da atenuação das clivagens entre o interior e as zonas do litoral. Exemplos como a implementação de benefícios fiscais à interioridade (que não estão dependentes de um programa financeiro comunitário), a criação de medidas de apoio à empregabilidade em regiões específicas do país ou a aposta em eixos rodoviários que permitam ligar estas zonas do interior quer às fronteiras quer às principais cidades do país (de que a A23 é, porventura, o melhor exemplo), são medidas concretas, concretizáveis e específicas, que contrastam em absoluto com a simplória alusão a um "programa de desenvolvimento", limitado à duração de um quadro de financiamento e sem qualquer detalhe ou medida concreta.

 

Tamanho grau de desconhecimento da realidade, do legado histórico do partido, e de incapacidade de concretização de medidas é, de alguma forma, compatível com a ideia de uma pessoa minimamente preocupada com o interior do país?

 

 

 

 

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«As circunstâncias são o dilema sempre novo, ante o qual temos de nos decidir. Mas quem decide é o nosso carácter.»
- Ortega y Gasset

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