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A História repete-se. Nunca se repete exactamente da mesma maneira, mas de cada vez que as circunstâncias se aproximam, a tendência é para que as decisões que levaram a determinada sucessão de acontecimentos se repitam, muitas tragicamente, confirmando a natureza imutável do espírito humano, para o bem e para o mal.

Foi para contrariar os erros do passado que o projecto europeu foi pensado. Foi para evitar que as decisões que conduziram à Segunda Grande Guerra ocorressem novamente que os países europeus (com o apoio e a ajuda decisiva dos EUA) começaram a construir, sobre as ruínas de um continente destruído, um espaço comum de solidariedade, onde os povos europeus pudesse caminhar em direcção a um futuro melhor, sobre o qual a sombra da guerra não pudesse voltar a cair.

O castigo infligido pelos vencedores da Primeira Grande Guerra aos vencidos, em particular à Alemanha, for o motor da ascensão do nazismo. O peso das indemnizações de guerra levou à destruição da economia alemã, e a década de vinte foi vivida entre a instabilidade política, a pobreza, o desemprego e a hiperinflação. A dívida que a Alemanha tinha era impagável, mas nem assim os seus antigos inimigos a deixaram de cobrar. Contra os avisos de alguns (entre eles, Keynes), os governos europeus persistiram em fazer pagar a Alemanha pelos seus erros.

Depois do crash de 1929 (a primeira crise económica global provocada pelos excessos do poder financeiro e pela desregulação dos mercados), a situação alemã piorou. Em 1931, o chanceler alemão Heinrich Brüning implementou um duro programa de austeridade que incluía cortes de salários e na assistência aos mais necessitados, o que por sua vez levou a um desemprego ainda mais elevado e à miséria generalizada. A impopularidade do chanceler coincidiu com ascensão do partido Nazi nas preferências dos alemães. Sabemos o que aconteceu depois.

A escolha que os vencedores enfrentavam depois do fim da Segunda Guerra Mundial era simples: persistir no castigo aos derrotados ou perdoar e reconstruir a Europa a partir desse perdão e da solidariedade entre povos. Fugiram aos erros do passado recente, e o Plano Marshall acabou por impulsionar cinco décadas de unidade e bem-estar na Europa, cinco décadas de um Estado Social que, ao combater a desigualdade entre europeus mais ricos e mais pobres e entre povos, através de um modelo de desenvolvimento que apostava na convergência entre nações e na inclusão social dos mais necessitados, levou também a que o crescimento económico acelerasse e a riqueza criada chegasse a todos.

O projecto europeu sempre foi, desde a sua génese, um projecto de paz e democracia e de desenvolvimento económico e social. Não há verdadeira democracia sem inclusão social, e a paz entre povos e nações depende sempre do bem-estar e da igualdade de oportunidades. Os extremismos nascem do descontentamento da população e do sentimento de injustiça. O Estado Social não é apenas um ideal humanista. Sempre foi uma ferramenta de combate aos extremismos que se alimentam da desigualdade e da injustiça social. Desde o Sozialstaat de Bismarck – que pela primeira vez oferecia aos seus cidadãos pensões e assistência médica gratuita –, criado para atenuar a ascensão do socialismo na Alemanha, passando pelo Estado Social inglês que fomentou o primeiro serviço universal de saúde e pelos programas de assistência aos mais pobres durante a Grande Depressão, até ao welfare state fortalecido dos anos do pós-guerra que apenas começou a ser destruído por Margaret Thatcher nos anos 80, o Estado Social tem servido de tampão ao comunismo, constituindo-se deste modo como muleta do capitalismo moderno.

A redistribuição de riqueza que o Estado Social promove é também essencial para o crescimento económico: as três décadas a seguir ao pós-guerra foram o período em que a economia mais cresceu no mundo ocidental. A riqueza acumulada durante estas décadas, redistribuída por todos, permitiu um desenvolvimento ímpar que manteve ao largo extremismos e a guerra na Europa (apesar de alguns sobressaltos pontuais, excepções que confirmam a regra).

Estas eleições para o Parlamento Europeu correm o risco de se tornar um ponto de viragem para o projecto europeu. Esta viragem poderá acontecer pelas boas razões (um reequilíbrio de forças, com o regresso da esquerda progressista a uma posição maioritária no parlamento europeu), mas também pelas piores razões: a extrema-direita apresta-se a tomar uma perigosa predominância em vários países, incluindo a França e a Grã-Bretanha. O que é lamentável nesta aparentemente imparável ascensão é que a culpa em parte é da esquerda. O discurso da Frente Nacional em França pega em bandeiras desprezadas pela esquerda social-democrata (o PS francês) e conquista território em feudos tradicionais da esquerda tradicional. A estagnação económica e o desemprego têm sido aproveitados pela extrema-direita para marcar terreno, juntando um discurso social e anti-europeu à ancestral xenofobia para ir ganhando votos aos partidos de extrema-esquerda e à esquerda social-democrata.

A esquerda precisa de um discurso europeu forte, que defenda a tradição de uma construção europeia que fez do Estado Social um dos seus principais pilares. São indissociáveis, as duas realidades. O LIVRE luta por uma Europa que regresse aos seus valores: solidariedade, igualdade, inclusão social. Por uma Europa que não deixe ninguém de fora. É a única maneira de combater os extremismos oportunistas, que se aproveitam parasiticamente do rumo errado tomado na última década pelos líderes europeus. A preservação do Estado Social deverá ser a marca identitária da esquerda, a sua principal bandeira. Quando a esquerda desistir não só de proteger os fracos, mas também de assegurar que se podem tornar tão fortes como os restantes, desiste de si mesma.

 

(A minha contribuição para o Terra LIVRE, blogue da campanha para as Europeias do LIVRE.)

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