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05
Abr

Preconceitos

por David Crisóstomo

Ele não é dos meus. Ele é-me estranho, pouco batido, pouco comentado. Ele não comentou muito, não fez um percurso típico, não fez um percurso que eu fizesse, não fez um percurso que estivesse ao meu alcance. Ele não alcança bem este mundo, ele vem de fora, fora dos típicos, dos clichés, dos velhos costumes e rotinas, da usual política. Ele não é "político", naquela definição da senhora do talho da calçada Bento Rocha Cabral, mas ele quer fazer política, e só "os políticos" podem fazer política, a política é dos "políticos", não é dos que não são "políticos", porque não é e prontus. Ele não está pronto, ele não tem a experiência dos outros que se perfilam para o cargo, ele vem d'outro mundo, não pode. Ele não pode, não tem condições, porque nunca se filiou e isto é um cargo para filiados, só apoio filiados, os que não carregam com o cartão na carteira não merecem os meus cinco minutos, que para fazer política há que militar. Ele não milita nem é militar, como o outro de outrora, não tem "sentido de Estado", o que, como sabemos, vem com a quota do partido, mal se rubrica a declaração de filiação é-se logo embutido com uma capacidade política magnânima que os outsiders não entendem, não sabem e não possuem. Ele não possui as qualidades, nomeadamente a qualidade de se submeter a uns estatutos, uns quaisquer, não precisam de ser os meus, mas tinha que haver uns estatutos na história do senhor. Ele não tem história, chegou aqui de pára-quedas e eu quero alguém do meu meio, do meio dos mesmos, do meio dos acenadores de bandeiras desbotadas e dos "ai, sabe, eu queria votar contra, mas lá o chefe não quis, mas eu juro que queria". Ele não quis ir outrora para outro cargo, um outro aleatório, uma assembleia de freguesia que fosse, então eu agora não o quero para isto, que as coisas têm a sua ordem natural, como deve de ser. Ele não deve ser candidato porque não é de cá da profissão, é doutra, logo desconfio, desconheço. Ele é desconhecido, para mim talvez não, mas tenho a certeza que muito do "país real", como o do outro senhor de Penamacor, não faz puto de ideia de quem ele seja, logo não dá, tem que ser popular, tipo a Casa dos Segredos, popularucho, que isto da popularidade é o mais importante, todos os presidentes são conhecidos e reconhecidos, como o Aníbal, que isto tem regras, não é chegar assim. Ele se chega assim é porque é populista, é anti-políticos, é anti-sistema, é anti, é perigoso, é rasteiro, é tipo Podemos ou coisa parecida, 'tão a ver? Ele não está a ver o que isto é, ele não sabe no que se está a meter, isto não é para este tipo de tipos, ele que se vá filiar, que se vá inscrever no PS de Pedrógão Grande ou na JSD de Aljustrel, pondere uma candidatura a uma junta, vá a suplente numa lista por Castelo Branco ou Viana do Castelo e depois eu considero-o para isto. Ele não é para isto, isto é a Presidência da República Portuguesa, é o comando supremo das Forças Armadas, é a mais alta magistratura da nação, é o representante máximo da população e o todos sabemos que o representante da população tem que ser um "político", na definição ali do Correio da Manhã, com uma concelhia no CV, no mínimo. Um antigo reitor? Por favor.

 

Ele não é dos meus. E os cargos da República estão apenas e somente reservados aos meus. É este o conceito. Ou parece ser esta a falta de conceitos que por aí proliferam.

 

Sobre o visado, é ler o Marco - "Merecemos, colectivamente, a oportunidade de mostrar que sabemos escolher."

 

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