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Sem antídoto conhecido.

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09
Jul15

Passos Coelho e a reserva da intimidade

Sérgio Lavos

"Eu tenho medo de deixar as minhas filhas, a minha família, o meu marido. Tenho muito medo de morrer. O Pedro consegue tranquilizar-me e dar-me força".

Este é um excerto da biografia de Passos Coelho recentemente publicada. Há mais passagens no livro sobre a doença da mulher, no mesmo tom. Em Janeiro passado, Passos Coelho tinha enviado um comunicado informando da doença e pedindo privacidade aos media. Este pedido foi escrupulosamente respeitado (uma das coisas boas da nossa imprensa) até ter saído a biografia, em Maio passado. O livro foi escrito por uma assessora do primeiro-ministro, e portanto não só teve o conhecimento deste como foi lido e corrigido por ele antes de ser publicado. Daqui se depreende que Passos Coelho decidiu tornar públicos pormenores do quotidiano da doença da mulher, contrariando o pedido feito pelo próprio de reserva da intimidade. Passos Coelho fez uma escolha: achou que uma das formas de se mostrar mais humano (ele "tranquiliza e dá força" à mulher) seria revelar, através das palavras da mulher, detalhes da doença. Escolheu usar a doença da mulher para fazer passar uma determinada imagem para os seus leitores e potenciais eleitores. Não é especulação, é um facto, está escrito no papel. Esta pornográfica exposição da vida privada vem de resto no seguimento de várias historietas cor de rosa que conhecemos da vida do primeiro-ministro, da passagem pelo casting de La Féria até às férias de calções e chanatas em Manta Rota. Repito: Passos Coelho decidiu que a construção da sua persona pública pode ganhar com estes pedaços da sua vida privada.

Esta escolha tem continuidade nas fotos publicados na secção cor de rosa do Correio da Manhã, tiradas na visita oficial à Guiné-Bissau, nas quais vemos Laura Passos Coelho sem cabelo por causa dos tratamentos para o cancro. Quando olhei para as fotografias confesso que senti algum constrangimento ao ver alguém assumir de modo tão despudorado uma doença tão dramática. Eu não faria o mesmo. De qualquer modo, aceito que a decisão dela não seja censurável. E claro que não faz qualquer sentido criticarmos o facto de ela ter decidido acompanhar o marido numa visita oficial. O que eu critico é outra coisa: Passos aparentemente não fez qualquer esforço para evitar que as fotos saíssem no Correio da Manhã. Mais: pelo sucedido antes, na biografia, e pelo sucedido depois - ele não pediu ao CM para não publicar as imagens - só posso depreender que ele espera retirar algum ganho político da situação. Repito: o que me leva a concluir isto é o que é escrito na biografia - é difícil qualquer um não chegar a outra conclusão.

O episódio ajuda a definir o carácter de um político. Contrasta claramente com o que aconteceu com outro primeiro-ministro, António Guterres, que viveu a doença da mulher sem a expor - apenas soubemos quando ela morreu.

Portanto, não me venham com falsos moralismos e acusações espúrias. Respeito a doença e o sofrimento de Laura Passos Coelho (assim como a sua coragem em mostrar publicamente a alopécia, mas isso é outra história) mas não posso respeitar a atitude do seu marido. Ele fez uma escolha: tornou a doença da mulher facto político. E é como tal que a doença também pode ser comentada.

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«As circunstâncias são o dilema sempre novo, ante o qual temos de nos decidir. Mas quem decide é o nosso carácter.»
- Ortega y Gasset

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