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09
Jul

"Eu tenho medo de deixar as minhas filhas, a minha família, o meu marido. Tenho muito medo de morrer. O Pedro consegue tranquilizar-me e dar-me força".

Este é um excerto da biografia de Passos Coelho recentemente publicada. Há mais passagens no livro sobre a doença da mulher, no mesmo tom. Em Janeiro passado, Passos Coelho tinha enviado um comunicado informando da doença e pedindo privacidade aos media. Este pedido foi escrupulosamente respeitado (uma das coisas boas da nossa imprensa) até ter saído a biografia, em Maio passado. O livro foi escrito por uma assessora do primeiro-ministro, e portanto não só teve o conhecimento deste como foi lido e corrigido por ele antes de ser publicado. Daqui se depreende que Passos Coelho decidiu tornar públicos pormenores do quotidiano da doença da mulher, contrariando o pedido feito pelo próprio de reserva da intimidade. Passos Coelho fez uma escolha: achou que uma das formas de se mostrar mais humano (ele "tranquiliza e dá força" à mulher) seria revelar, através das palavras da mulher, detalhes da doença. Escolheu usar a doença da mulher para fazer passar uma determinada imagem para os seus leitores e potenciais eleitores. Não é especulação, é um facto, está escrito no papel. Esta pornográfica exposição da vida privada vem de resto no seguimento de várias historietas cor de rosa que conhecemos da vida do primeiro-ministro, da passagem pelo casting de La Féria até às férias de calções e chanatas em Manta Rota. Repito: Passos Coelho decidiu que a construção da sua persona pública pode ganhar com estes pedaços da sua vida privada.

Esta escolha tem continuidade nas fotos publicados na secção cor de rosa do Correio da Manhã, tiradas na visita oficial à Guiné-Bissau, nas quais vemos Laura Passos Coelho sem cabelo por causa dos tratamentos para o cancro. Quando olhei para as fotografias confesso que senti algum constrangimento ao ver alguém assumir de modo tão despudorado uma doença tão dramática. Eu não faria o mesmo. De qualquer modo, aceito que a decisão dela não seja censurável. E claro que não faz qualquer sentido criticarmos o facto de ela ter decidido acompanhar o marido numa visita oficial. O que eu critico é outra coisa: Passos aparentemente não fez qualquer esforço para evitar que as fotos saíssem no Correio da Manhã. Mais: pelo sucedido antes, na biografia, e pelo sucedido depois - ele não pediu ao CM para não publicar as imagens - só posso depreender que ele espera retirar algum ganho político da situação. Repito: o que me leva a concluir isto é o que é escrito na biografia - é difícil qualquer um não chegar a outra conclusão.

O episódio ajuda a definir o carácter de um político. Contrasta claramente com o que aconteceu com outro primeiro-ministro, António Guterres, que viveu a doença da mulher sem a expor - apenas soubemos quando ela morreu.

Portanto, não me venham com falsos moralismos e acusações espúrias. Respeito a doença e o sofrimento de Laura Passos Coelho (assim como a sua coragem em mostrar publicamente a alopécia, mas isso é outra história) mas não posso respeitar a atitude do seu marido. Ele fez uma escolha: tornou a doença da mulher facto político. E é como tal que a doença também pode ser comentada.

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10 comentários

De Tiago Cabral a 09.07.2015 às 09:12

Só acrescentar alguns pontos;

Desde o começo que PPC faz por mostrar a sua vida privada, aparecendo como um simples cidadão, as fotos e o respectivo texto que as acompanharam, em 2012 creio, uma ida às compras também entram neste rol. Estamos perante uma cópia, nem melhor nem pior, de Cavaco. Gostam e querem passar a ideia de serem pessoas simples, apolíticos, que vivem de forma frugal e nem se importam que os vejam como pessoas com poucos recursos intelectuais. A imagem que preferem que os eleitores tenham deles é essa mesmo, de pessoas básicas, simples, tal e qual como eles acham que o povo deve ser. É curioso que até a forma física como se mostram, um andar pouco seguro, curvado, com gestos que demonstram pouco à vontade, por vezes exagerados (Cavaco p.ex. a cumprimentar as pessoas) leva-nos por vezes quase a sentir pena deles. É curioso que esta postura revela também, ou é consequência talvez, da sua própria ideologia (isto anda tudo ligado :) ).
Quando falamos de dimensão política que falta a certos actores da vida política portuguesa, estes dois são o exemplo "mais melhor". E infelizmente este tipo de personagem pública faz o seu caminho.
Só uma pequena nota sobre Guterres. Penso ser um facto já conhecido publicamente, mas a famosa gafe do PIB, à porta de um hospital e que tanta tinta fez correr. Guterres tinha acabado de saber que a sua mulher tinha poucos meses de vida. Agora é só imaginar o estado dele.

De Sérgio Lavos a 09.07.2015 às 11:38

Sim, tudo indica que esta triste história faça parte da narrativa pessoa de Passos Coelho, da construção da sua identidade política. As duas biografias publicadas andam por aí, e esta história reforça a imagem que ele quer passar.
Eu conheço essa história de Guterres, de cada vez que ouço alguém referir-se em tom jocoso ao episódio fico irritado, precisamente porque sei o que se estava a passa.

De AntiAbrantes a 09.07.2015 às 13:05

A sua intenção e a dos restantes cães raivosos que fazem a ponte PS-BE no twitter foi sempre usar a doença da mulher de Passos para o atacar. Apenas esperaram pela altura certa e arranjaram uma justificação que o torne aceitável perante a matilha que orgasma com as vossas tiradas. Isso acontece, porque as sondagens não estão a correr de feição. A narrativa estava escrita há muito tempo e não me surpreende que, gente como o Sérgio Lavos, João Quadros, etc, que destilam diariamente ódio e insultos, sejam capazes de tamanha baixeza e canalhice.

De Bomber Harris a 09.07.2015 às 16:09

E tomar a medicação a horas?

De Sérgio Lavos a 09.07.2015 às 16:11

Sim, é isso mesmo. Ainda bem que o próprio Passos me deu a justificação de que precisava, trazendo a doença da mulher para a esfera pública falando disso na biografia e deixando que a imprensa cor de rosa fale do assunto. Obrigado Passos, pela baixeza revelada, que me deu a justificação para te poder atacar.

De O verdadeiro Atento a 10.07.2015 às 17:51

Porra, mesquinhez , baixeza e canalhice é não perceber o aproveitamento politico que esta ameba moral que é Passos Coelho anda a fazer à custa da doença da mulher.
Nunca vi tamanha vileza, tamanha falta de caracter , tamanha falta de empatia.
Este tipo é um dejecto humano.
Os meus sentimentos vão para a esposa, que não merecia isto.

De Anónimo a 12.07.2015 às 22:20

você é um labrego!

De anti demagogia a 12.07.2015 às 13:35

Vocês são medíocres. Ela apareceu num evento oficial, em Cabo Verde, onde Laura Ferreira nasceu, e por acaso apareceu no Correio da Manhã. Agora, vocês fazem política com as coisas sobre as quais não se podem fazer política.
Ponto 2: A biografia de Passos Coelho, é uma biografia, e uma biografia fala também da área pessoal. Quem não quiser, não lê. Mas só na cabecinha de pessoas medíocres como vocês.
Faz-me lembrar o que o vosso "pai" Soares, muito socialista e progressista, fez em 1980, com Sá Carneiro e Snu Abecassis.
Vocês é que estão a ver a vida a andar para trás: as pessoas estão a ver o embuste que o "novo" pê ésse é.
Vocês conseguiram ser ainda mais medíocres do que o Passos Coelho, político. E isso é obra. E nas vossas cabecinhas pequeninas não se apercebem que os insultos que fazem a PPC só o vão beneficiar.
Mas pronto, assim como os Passos Coelhos, Miguéis Relvas e Marcos Antónios Costas, e assim como o sôr António Costa e o presidiário vocês são uma cambata de jotinhas que nunca fez nada na vida.
Façam um favor a Portugal: parem de dar a vossa opinião, parem de estar envolvidos em política e fechem-se na vossa pequenez imensa. Levem convosco os vossos amigos do PSD e do CDS.

De Sérgio Lavos a 12.07.2015 às 13:47

Txii, este fulano sabe tanto sobre "nós", estou embasbacado. Só não sabe dizer é por que razão Passos decidiu usar a doença da mulher para pintar uma imagem da humanidade, como fez na biografia. Será por ser um repugnante oportunista? Ninguém sabe...

De O verdadeiro Atento a 12.07.2015 às 22:21

"e por acaso apareceu no Correio da Manhã. "

O facto de o leitor acreditar que é por acaso diz tudo.
Ou não percebe nada do que é a sabujice politica ou percebe muito bem e quer é atirar areia para os olhos de quem já percebeu a jogada.
Um pouco mais de inteligencia na analise politica e poupava-se ao ridiculo de vir aqui defender o indefensavel.

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