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29
Set

Paciência ao Metro

por Frederico Francisco

Na passada quarta-feira, perto das 19h, cheguei ao Cais do Sodré num comboio da Linha de Cascais e, como habitualmente, desci até à estação de Metro para fazer o trajecto da linha Verde até Arroios. Ao atravessar as barreiras de controlo de bilhetes, deparo-me com a plataforma apinhada e com pessoas já paradas nas escadas de acesso, sem espaço para avançar mais (na realidade, apenas a primeira metade do comprimento da plataforma estava cheia, que corresponde ao comprimento dos comboios de 3 carruagens que circulam na linha Verde). Decidi que não valia a pena colocar-me ali, aceitei o facto de que não iria no primeiro comboio que chegasse à estação e fui dar a volta para entrar na outra extremidade da plataforma. No primeiro comboio que passou, entrou a maior parte das pessoas que estavam na plataforma, que se voltou a encher de imediato com as que já se tinham acumulado nas escadas e no átrio. Imaginei que o comboio seguinte demorava pouco tempo, uma vez que se tratava de hora-de-ponta num dia de semana de Setembro. Passados 6 minutos lá apareceu outro comboio que se volta a encher ao ponto do ficarem pessoas coladas aos vidros das portas. No trajecto que fiz não houve uma paragem em que não ficassem passageiros apeados sem espaço para entrar no comboio.

IMG_0537.JPG

A história desta viagem de Metro começa em 2011 com a redução das frequências, redução do comprimentos dos comboios na linha Verde de 4 para 3 carruagens, paragem das obras de aumento das plataformas na estação do Areeiro, adiamento de obras da mesma natureza na estação de Arroios.

Lembro-me, por essa altura, de ver o ministro Álvaro a declarar com ar de quem estava a revelar uma verdade incenveciente que o Metro de Lisboa tinha taxas de ocupação de apenas 40%, insinuando que isso justificava uma redução da oferta e revelando a sua profunda ignorância em matéria de transportes públicos.

Houve também a redução de velocidade de circulação para 40 km/h, na altura apelidada de "marcha económica", por coincidência, ocorrendo ao mesmo tempo que se soube que um dos sistemas de frenagem dos comboios se encontrava desactivado.

Com a tomada de posse do novo governo, criei a expectativa de que, a par com a inversão da política de austeridade houvesse também uma inversão da trajectória na política de transportes públicos. Veio o fim do processo de subconcessão, a nomeação de uma nova administração liderada por Tiago Farias, pessoa por quem tenho bastante respeito técnico e intelectual em matéria de transportes, e a ambição de retomar a expansão da rede dentro de um par de anos.

A esperança de que algures, nos gabinetes, a engrenagem já estava a mexer tranquilizou-me, apesar de não se notarem melhorias concretas, mas estas coisas demoram tempo, não é? Inaugurou-se a obra da Reboleira, mas o Areeiro continua parado. Deve ser a seguir. Depois veio o verão de 2016, a cidade encheu-se de turistas e, por falta de maquinistas, de comboios ou de ambos, passou a ser habitual esperar 10 minutos ou mais pelo comboio seguinte em pleno dia. Comboio esse que, quando chegava, vinha quase invariavelmente cheio.

Confesso que, ao fim de quase um ano, estou a ficar muito impaciente com a ausência de sinais de uma inversão do rumo de degradação do serviço que o Metro presta aos seus passageiros. Bem sei que os problemas não se resolvem todos de imediato, mas a ausência de uma assunção e enunciação clara dos problemas, que são certamente do conhecimento da administração e do governo, bem como de propostas e prazos para soluções só aumenta a minha impaciência. Na verdade, tem havido uma tendência para simplesmente atirar a responsabilidade para "os anos de desinvestimento do anterior governo". A tese da pesada herança, ainda que possa ser verdadeira, tem as suas limitações, que residem no momento em que passa a parecer desculpa para tudo.

A mais recente situação da falta de bilhetes é um remate caricatural das agruras que os utilizadores do Metro de Lisboa passam há já, pelo menos, 5 anos. Tudo isto me irrita ainda mais porque me obriga a concordar com João Miguel Tavares na substância, ainda que não no estilo.

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7 comentários

De erreguê a 30.09.2016 às 10:32

A verdade é que se anda para aí a falar no aumento de turistas em Lisboa, na qualidade da oferta hoteleira, na proliferação de restaurantes e bares, da abertura de museus e exposições, na Web Summit (de 7 a 10 de Novembro deste ano) onde são esperadas mais de 50 mil pessoas, nisso está tudo bem, mas depois os transportes publicos cada vez estão piores, o metro vai agora até ao aeroporto, o que um turista não vai dizer num sábado a andar num metro só com 3 carruagens apinhadas de pessoas, pensam em tudo mas esquecem-se de coisas simples como o aumento da circulação de pessoas.

De Carlos Dias a 30.09.2016 às 11:29

O problema do bilhetes ainda é parte da ideia de concessionar o Metro e a Carris a privados. É que o acordo era para que passasse a ser uma empresa francesa a produzir os cartões Lisboa Viva e os cartões recarregáveis. Portanto, o contrato com a Otlis não foi renovado. Entretanto, os cartões do passe, é normal entre Setembro e Outubro existirem demasiadas pessoas a requerer o cartão num curto espaço de tempo. Algo como 100 vezes acima do habitual para o resto dos meses. Sem capacidade para aumentar a emissão, demora mais a ser feita a requisição urgente.
Infelizmente, a recuperação da concessão tem destas coisas. A nível das carruagens, é ir enviando queixas para a administração.
Mesmo assim, os estrangeiros dizem que o Metro de Lisboa é mais eficaz que o de Paris e Madrid. Só o de Londres fica à frente do nosso.

De Nikolaus a 30.09.2016 às 12:06

Pelo que vejo pelo seu artigo já vi que não é pessoa para frequentar o Metro todos os dias.

O que se passa no Metro de Lisboa é uma questão politica, quando lá estava o outro governo, o tal que desinvestiu mas que queria privatizar o metro para lhe dar outra competividade e para no fim por o pessoal a trabalhar.
Quando lá estava o outro Governo havia greves, plenários, piqueniques, etc. isto tudo como diziam os Sindicatos em nome dos utentes que estavam a ser prejudicados com a qualidade e competitividade do metro, agora não vejo tais situações, não vejo greves, plenários, danças de salão, etc. Porque será ??? Ah, já sei, os utentes do metro estão satisfeitissimos pelo serviço e como houve a reversão da concessão voltou-se ao mesmo marasmo de sempre de trabalhar que é bom é para o capitalista.

Onde Andam agora os Sindicatos a falar em nome dos Utentes ??? Onde ??

Enquanto as pessoas como você se resignar perantes esta vergonha que se passa no metro de Lisboa e não se começar a tomar medidas mais grosseiras isto não vai lá.

Entretanto os Comunas continuam a se banquetear com tudo aquilo que os que efetivamente trabalham contribuem para este País de gente que se resigna e encolhe os ombros perante esta vergonha.

De Mona Lisa a 30.09.2016 às 19:46

Concordo e já agora também fiscalização porque estou farta de pagar para muitos andarem de borla

De Anónimo a 30.09.2016 às 22:13

Pois! Estas obras que se encontram um pouco por toda a cidade de Lisboa, são precisamente para tirar os automóveis e fazer o povo andar de transportes públicos/privados (desde o metro, autocarro, eletrico, comboio.... rede expressos). Se não se melhora CONSIDERAVELMENTE estes serviços - todos sabemos de histórias e mais histórias, umas por experiência própria, outras por experiência alheia - no estado em que estes últimos estão, isto vai passar de desespero a caos!..

De Kruzes Kanhoto a 01.10.2016 às 12:50

Aquela coisa do dinheiro - ou da falta dele - é uma chatice...

De jose oliveira a 03.10.2016 às 21:38

O CEO (Tiago Farias) sendo provavelmente um académico com grande conhecimento de transportes, nao parece ter perfil, curriculo e formacao para ser CEO daquela empresa. Espantam-e aliás que nomeiem um tipo com um perfil meramente academico para gerir este tipo de empresas.
Digo isto por experiencia propria, trabalho numa empresa cheia de PhDs, com administradores vindos da Universidade, mas os lideres sao tipos com curriculo de administracao em grandes empresas. Penso que esse é o caminho.

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