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Lembrei-me da recente polémica sobre o coming out de uma certa direita intelectual ao ver esta vídeo-instalação de Ana Vidigal, que ensaia uma espécie de resposta a esta crónica de Maria de Fátima Bonifácio.

Lembrei-me enquanto sujava a cara e a boca com a gordura de um belo leitão e sentia nos lábios o sabor de um tinto carrascão comprado na Bairrada em homenagem aos congressistas do CDS-PP que há uns meses se queixaram de ter sido roubados por um empresário mal-intencionado.

(Isto veio a revelar-se mentira, o que por um lado lamento e por outro confirma que do partido irrevogável é sempre de esperar a mais torpe das mentiras. No caso em questão, acusar alguém de roubo.)

Lembrei-me enquanto arrotava, assim evocando esse grande vulto da intelectualidade de direita, Henrique Raposo, que tanto sabe escrever sobre a mais recente flutuação dos mercados como sobre a flatulência das mulheres de seios grandes, discorrendo diariamente fazendo uso das ferramentas que Deus lhes deu, a saber: a alarvidade sem dó e a mais abjecta ignorância sobre todos os assuntos. Raposo é portanto um homem com todas as qualidades, como aliás confirma a resposta dada ao jornalista na tal reportagem sobre o coming out, quando questionado sobre as razões de ter espaço na imprensa que em tempos era considerada de referência: "se estou no Expresso, é porque sou bom." Não reparando, coitado, que a folha dele no jornal de referência assemelha-se um pouco a um acidente na estrada em que todos param para ver ou à presença do Telmo do Big Brother nos ecrãs da TVI24. Gera audiência, shares no Facebook etc. e tal. Mérito suficiente para ser considerado um intelectual de direita.

Ora, Maria de Fátima Bonifácio tem outra estaleca, outra pátina. Sem querer escarafunchar excessivamente em tal existência (não resisto muito tempo em apneia), sei que Fátima pertence a uma das mais ruins estirpes do nosso país: a dos burgueses que durante o PREC namoraram com a extrema-esquerda mas com o passar do tempo regressaram à sua zona de conforto, reajustando-se à crisálida que tinham abandonado durante os conturbados anos de juventude. São os calores juvenis, a alegre loucura revolucionária, os fervores maoístas, as febres mais tarde domadas pelo berço, que lá do fundo da infância não cessa de chamar à razão esta burguesia perdida na sua própria transigência revolucionária. De volta para o aconchego dos braços familiares, esta estirpe passa a sofrer de uma culpa interiorizada. O conservadorismo que abraçam tem uma raiva latente, dirigida exteriormente - em crónicas de jornal - à esquerda em geral, mas na realidade interiormente direccionada a eles próprios, como se fosse cuspo atirado contra o vento batendo com força nas fuças. Tal regurgitação de ódio anti-esquerdista (sempre aliado a um desprezo a tudo quanto soa a progresso e modernidade, seja na política, seja na estética) tem na realidade um reverso de auto-desprezo (self-loathing, como a língua inglesa melhor explica), e mascara a impotência, tão irremediavelmente humana, de não conseguirem mudar o seu passado. Esta raiva auto e heterodireccionada põe esta gente num patamar diferente dos conservadores que nunca viraram costas ao berço e preferiram exilar-se no Brasil ou na redacção do Independente durante os anos 80. Sabem que por se terem tresmalhado da via justa, dos saraus de poesia na Lapa e das orgias badalhocas na Quinta da Marinha, por terem durante breves momentos (e eles querem tanto que tivessem sido breves) flirtado com um destino revolucionário, nunca serão plenamente aceites de volta. E por isso redobram esforços no ódio e no fanatismo ideológico, chegando a surpreender os verdadeiros conservadores (de modo geral bastante tolerantes com as escolhas políticas dos outros).

Perdidos nas suas próprias contradições, presos a um passado que não deixa de estar lá, ao fundo da memória, que os envergonha profundamente, estes novos intelectuais inorgânicos passam por outro verdadeiro martírio: sabem que os líderes que defendem agora são de outra linhagem, de outra educação, gente da província portuguesa ou ultramarina. E por isso ainda estrebucham mais, e defendem com mais energia os gurus que a vida lhes trouxe, consolando-se na raiva e no ressentimento a que uma existência cravejada de frustrações obriga.

Devemos mimar desta gente, porque sofrem de um sofrimento sem fim. O charco de ódio em que medram serve-lhes de tudo ao mesmo tempo: prato, copo e latrina. Que andem muitos anos por aí, sempre em paz.

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9 comentários

De António a 18.07.2014 às 09:42

Que bem escrito!

De Emanuel Lopes a 18.07.2014 às 10:33

"Se um elefante incomoda muita gente, dois elefantes incomodam muito mais." para meio entendedor...

De Emanuel Lopes a 18.07.2014 às 10:43

Agora a sério. Enoja-me este tipo de textos que rotula a direita toda da mesma maneira, sobretudo escritos por parte de quem sempre teve uma vida fácil, de menino da cidade, provavelmente filho de professores ou de uma outra qualquer casta de protegidos que este regime criou. De alguém que, ao contrário de mim, nunca teve de cavar a terra para ter o que comer. Não sabes o que custa a vida, senão certamente que serias de direita.

De Sérgio Lavos a 18.07.2014 às 10:54

"Cavar a terra para ter o que comer". Eheheheh. Deves saber o que isso é, deve. O "não sabes o que custa a vida", aplicado a mim, é demasiado irónico para ser suportável. Logo eu, que comecei a trabalhar aos 13 anos. É por saber as dificuldades por que passaram os meus pais e por ter sentido essas dificuldades que só posso ser de esquerda e agradecer ao regime que permitiu que eu pudesse ter progredido, o regime que permitiu uma mobilidade social nunca antes vista, o regime, o Estado Social, que agora a direita está a destruir.

De Jaime Santos a 18.07.2014 às 11:59

Sérgio, não é com vinagre que se apanham elefantes. ... Tem que tratar bem os coitadinhos da Direita, os pobres que carregam com o fardo do governo dos povos e que tão bem provaram o mérito que têm afundando o BCP , BPN e BES , os do 'se soubesses o que custa mandar, mais preferias obedecer', os que nunca levantaram um dedo para defender a Liberdade antes do 25 de Abril, os ex-esquerdistas na linha da M. F. Bonifácio, José Manuel Fernandes e João Carlos Espada, que mudaram de política mas continuam adeptos do leninismo e dos grandes saltos em frente, os Raposos, que cobiçam um título depois de uma futura restauração da monarquia, julgando que isso os livra de serem os serventuários do poder que sempre foram, os ultramontanos que acham que a crise é dos valores, quando o que falta é a polícia a que eles tão bem querem atar as mãos, enquanto não aplicam a si próprios a mesma bitola que aplicam aos outros... Tadinhos , olhe que eles choram... P.S. E para não pensarem que eu meto a Direita toda no mesmo saco, faltam aqui os Democrata-Cristãos e os verdadeiros Liberais, mas quem é que me nomeia um único político ou empresário no activo que se reveja nesses valores?

De Sérgio Lavos a 18.07.2014 às 13:30

Eu também não meto a direita toda no mesmo saco, claro. Acrescentaria aos que menciona os verdadeiros sociais-democratas, os que andam (mais ou menos) escondidos desde que Coelho tomou conta do partido.

De Jaime Santos a 18.07.2014 às 13:57

Não acho que os social-democratas que estão no PSD sejam de Direita. Pacheco Pereira é de Direita? Pinto Balsemão é de Direita? Será que o próprio Sá Carneiro, que queria o PSD na IS , era de Direita? Eu reconheço que o PSD é capaz de ir pescar no Centro-Esquerda, porque tem uma costela social que não tem apenas que ver com o pensamento social-cristão (algo reaccionário em termos de costumes) de Manuela Ferreira Leite ou Marcelo Rebelo de Sousa. Mas ser-se de Direita é uma posição perfeitamente respeitável, note-se. O problema é que a Direita que nos governa é fundamentalmente constituída por gente que não acredita na Igualdade dos Cidadãos perante a Lei (quanto mais na Igualdade de Oportunidades ou pior, na Redistribuição de Rendimentos). Basta aliás ver o desprezo com que tratam a CRP ... Nesse aspecto, o seu pensamento é puramente neo-feudal, ponto final... E é vigorosamente defendida por todos aqueles que você citou em cima, Bonifácios, Raposos, Fernandes, Espadas, Ramos, etc , etc , etc , mais por toda a Imprensa Económica e pela maioria dos cronistas dos 'jornais de referência' ... Agora, em abono deles, conheço muita gente que vota na e se diz de Esquerda e que depois se comporta na sua vida pessoal e profissional defendendo a existência de prerrogativas para si... Estão dentro do armário, mas ou não querem sair cá para fora, ou não fazem sequer ideia que lá estão dentro ...

De Joe Strummer a 18.07.2014 às 19:08


pinto balsemão é de direita? Claro! e apoiou estes patetas à força toda na tomada do poder. Inquestionavel.

De Joe Strummer a 18.07.2014 às 19:03


O vídeo está excelente!
Só faltou colar a pintura numa lata de sopa:)

Discordo totalmente que se rotulem estas pessoas como intelectuais. Não têm um minimo de entendimento, nem sequer intuitivo, do que é o livre arbitrio, dissenção, liberdade e a sua relação com a arte e a expressão.

O facto da medida do raposo ser o expresso diz mais sobre o expresso do q sobre o raposo. Assemelham-se. Ontem ao ver a noticia do abatimento do avião no online não sabia se era uma noticia ou um texto dos 100.000.000 opinadores com títulos dramatico/comicos q a toda a hora publicam textos por ali.Por ironia só confirmei a noticia no twitter.

É. Parece que algo correu mal no processo de metamorfose destas pessoas. Ficaram atravessadas.

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