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07
Out

O truque

por Sérgio Lavos

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Não haverá muitas dúvidas neste momento de que o encontro de António Costa com o PCP e com BE é, antes de mais, uma questão de cortesia, dado que os dois partidos mostraram disponibilidade para conversar com o PS sobre soluções governativas; mas é também um truque, pura prestidigitação: o PS quer mostrar aos seus votantes mais à esquerda que o seu voto não foi em vão (e que o perigo de pasokização não é uma ameaça próxima); por outro lado, o BE e sobretudo o PCP querem forçar o PS a posicionar-se para que possam decidir por onde seguirão: se pelo caminho da oposição ao PS ou pelo alinhamento estratégico (parlamentar) até que aconteçam novas eleições. 

A negociação com a esquerda vai permitir tanto ao PS como ao BE e PCP saídas airosas da encruzilhada em que estão metidos. Será muito surpreendente se o resultado destas "negociações" não for um desacordo proveitoso para todas as partes: o PS poderá dizer que tentou falar com a sua esquerda e o PCP e o BE poderão dizer que tentaram solução governativa com PS, mas que este preferiu viabilizar Governo de direita. Fingem os três partidos o acordo momentâneo porque sabem que uma larga fatia do seu eleitorado gostaria de ter um Governo de esquerda. Mas sabem os três que uma solução deste tipo comporta riscos imprevisíveis que poderiam pôr em causa conquistas eleitorais no futuro.
A política nunca é o que está à superfície, é sempre o que está para lá do que é dito e mostrado. Por baixo da mesa é onde se decide o futuro dos partidos. Pena é que o nosso futuro também dependa do que se esconde, muito mais do que daquilo que é visível: a verdade é obscurecida pelo gesto da mão, o que distrai a atenção do espectador e oculta o truque.

 

Adenda: O que escrevi aqui à tarde entretanto foi ultrapassado pela realidade. O PCP deixou de parte qualquer calculismo e abriu todas as portas e janelas a um entendimento à esquerda. Costa parece também convencido do mesmo. Falta o BE, mas pelo que foram dizendo em campanha e já depois das eleições, tudo indica que é possível também haver acordo. Pela primeira vez em 41 anos de democracia, poderemos vir a ter um Governo de convergência à esquerda. Excelente.

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3 comentários

De silivondela a 07.10.2015 às 21:18

Ou seja... é a pasokisação a prazo (curto, necessariamente). A prestidigitação tem a 'mão' curta. Era preferível, por uma vez, fazerem a política à superfície, sabidamente não em aliança, mas em função de objectivos atingíveis, comuns e adiando a discussão das nuances fracturantes para quando o pàfismo (seja lá o que isso for) estiver desmascarado. Resistir à pàf europeia não é docinho-de-mel. A chantagem e sabotagem não se farão esperar.

De Joe Strummer a 08.10.2015 às 21:08

PS- Era para dizer isso mesmo ontem aqui. Estamos a viver momentos históricos, de 75 a 2015, man, it was a long way..30 anos, mais que o Muro de Berlim, 61-89. Obóviamente, não são favas contadas, mas, caramba, eu vi um muro a desabar em directo! Não dá para ser cinico.
Se resulta ou não, não sei. Mas é um passo para que possa funcionar no futuro, e só essa possibilidade muda totalmente o equilibrio de forças. Sem uma séria ameaça nada muda.

De Anónimo a 10.10.2015 às 09:12

este tipo não era do Livre? Bem me pareceu. Mais um palpite falhado. Mais outro que não aprendeu nada com as eleições. Calado ele é um poeta.

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