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11
Mar

O silêncio do falso inocente

por Pedro Figueiredo

O recente silêncio do Primeiro-ministro à acusação de Catarina Martins, de que «a sua palavra não valia nada», defendido pela própria presidente da Assembleia da República, poderá ter várias leituras. Geralmente, costuma dizer-se que quem cala consente, mas neste caso o eventual consentimento do líder do Governo é bem mais grave do que aparentemente parece.

Não conheço ninguém, sobretudo no parlamento, que não queira fazer a defesa da honra, quando se trata de uma acusação desta natureza e em público. Esquecendo-se, e bem, do politicamente correcto – onde e quando já se passou o ponto de não retorno nessa matéria no hemiciclo –, a coordenadora e deputada do Bloco de Esquerdo acusou Passos Coelho de ser mentiroso. Algo a que o próprio nem sequer se dignou a responder.

Luigi Pirandello, prémio Nobel da literatura, tem a seguinte descrição:

«Ainda está desconcertado, irritado, envergonhado da péssima figura que fez com o seu velho amigo, que mandou embora pouco depois de ter aparecido o novo, com uma desculpa mesquinha, porque já não aguentava vê-lo na sua frente, ouvi-lo falar e rir na presença do outro (...). Porquê? Porque você, de repente, ou seja, ao chegar o seu novo amigo, descobriu em si dois, tão diferentes um do outro que a certo ponto, incapaz de aguentar mais, teve por força de mandar um embora. Não, não foi o seu velho amigo; quem você mandou embora foi você mesmo, aquele um que você é para o seu velho amigo, porque sentiu que ele era o oposto daquilo que você é, ou que quer ser, para o seu novo amigo. (...) Não foi capaz de suportar que as coisas que de um fossem misturadas com as do outro, pois elas não tinha propriamente nada em comum. Absolutamente nada, uma vez que para o seu velho amigo você tem uma realidade e para o outro tem outra, tão diferente no seu todo que o tornaram a si consciente de que, se se dirigisse a um, o outro ficaria a olhar para si espantado; já não o reconheceria e exclamaria de si para si: «Essa agora! Ele é isto? É assim?»

Pode soar a bipolaridade, mas na verdade Passos Coelho está bem enquadrado na situação relatada por Pirandello. O seu discurso para os portugueses, longe das interpelações no parlamento, pode ser aquilo que quiser, sem ser confrontado com a realidade que, realmente, não se pode confiar na sua palavra. Nem será preciso recuar às promessas eleitorais e ao real programa do Governo já em funções, embora nesse capítulo os exemplos sejam como o arlequim. Basta ver o que o primeiro-ministro afirmou em relação aos cortes nos salários e pensões. Serão temporários ou permanentes? Com qual dos dois amigos estará Passos Coelho a falar? Com a troika ou com os portugueses? Não parece haver grande dificuldade na resposta: para optar pelo silêncio, só pode querer agradar um deixando o outro sem resposta. É preciso ter lata!

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