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365 forte

Sem antídoto conhecido.

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27
Fev15

O Receio

Diogo Moreira

Há uma expressão usada por Paulo Rangel na Prova dos Nove da TVI 24 de ontem que me ficou na cabeça:

“António Costa representa o regresso da ‘velha política’.”

O douto eurodeputado laranja referia-se à questão da possível isenção de taxas municipais em Lisboa, por parte do Benfica — algo que acho que é mais um daqueles erros crassos de Costa, numa semana recheada deles — mas confesso que tal expressão, hoje recordada, me fez pensar nas reacções de muitas pessoas, entre as quais a minha, às declarações do secretário-geral do PS perante a comunidade chinesa.

Outro ingrediente da minha reflexão foi a interjeição de Jorge Coelho na Quadratura de ontem, que, na minha opinião, fez a melhor defesa do discurso de Costa, por contraponto a Francisco Assis que na mesma hora e num canal concorrente continuava a fazer valer os seus galões de idiota útil mais inteligente da política portuguesa, ao entregar o ouro ao bandido. E o que disse o grande ‘Coelhone’? Respondendo à diatribe de Pacheco Pereira — que está a regressar às suas raízes revolucionárias, ao travar a sua luta sem quartel com o actual governo — Jorge Coelho perguntou simplesmente se Pacheco acreditava que as várias interpretações de apoio à política do PSD/CDS, que se faziam das declarações de António Costa, correspondiam à realidade. Pacheco Pereira naturalmente respondeu que não.

E aí percebi o factor que pode ter estado na origem das reacções ao discurso em pessoas próximas do PS: receio.

Receio que António Costa os possa estar a enganar quando diz que tem alternativas substanciais às políticas do governo. Receio que um voto no PS seja um voto para que tudo fique mais ou menos na mesma, seja via Bloco Central ou outras aberrações, como sejam alianças com o CDS, o que seria a continuação da política de austeridade com outros protagonistas.

Em suma, que António Costa seja um político da ‘velha política’. Que nos esteja a dizer o que queremos mais ou menos ouvir, para depois fazer uma política semelhante, mas com cariz humanista. Que estruturalmente pouco mude, porque não pensa que existe grandes alternativas, ou que não tenha a coragem de as implementar. Que não perceba que o PS está apenas a um desastre governativo de poder tomar o caminho do PASOK. Para aqueles que se podem estar a rir com esta frase, lembrem-se que eu também ria do SYRIZA no poder, na Grécia, há uns anos atrás.

Este receio, em grande medida irracional, existe e está dentro de muitos de nós. O medo de que quem se prepara para nos governar não tem ideia de como sair deste buraco em que o país se encontra, como o comum dos cidadãos. Ou que chegue a Bruxelas, ou Berlim, para mudar os termos de funcionamento da UE, e bata com o nariz na porta, porque leva um nein de Merkel, e volte com o rabo entre as pernas. Em suma, que não saiba sair desta crise, mantendo os paradigmas actuais, e não perceba que o mundo mudou, e os portugueses também.

É preciso uma nova política. Uma ruptura de paradigmas, que enquacione todos os actuais constrangimentos da economia nacional, sejam eles a nossa estrutura produtiva, a nossa elite económica imbecil, a presença no Euro, ou a própria União Europeia, entre muitos outros, e que nos dê soluções concretas para os nossos problemas.

No ardor do idealismo dizemos que a política é feita de princípios e ideais. Esse tempo já passou. Pertence a uma realidade em que já não estamos. Regressou a era dos fins que justificam os meios, fruto da situação desesperada em que vivemos. É necessário que a situação mude. E que António Costa consiga essa mudança. Custe o que custar.

É necessário que António Costa seja o homem que tantos acreditam que seja. Que nos venha salvar da crise, e que leve o país para um futuro melhor.

Sob pena de darmos lugar a quem ainda não falhou as suas promessas, porque nunca ainda chegou ao poder.

Mesmo que isso nos custe a alma.

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«As circunstâncias são o dilema sempre novo, ante o qual temos de nos decidir. Mas quem decide é o nosso carácter.»
- Ortega y Gasset

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