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08
Jan

o problema Marcelo

por João Gaspar

«Yeah, but no, but yeah, but no.» [Vicky Pollard]

 

 O recente debate entre Marcelo Rebelo de Sousa e Sampaio da Nóvoa, entre outras virtudes, terá tido o mérito de fazer cair dois mitos: Marcelo é uma espécie de Cavaco versão 2.0 e Marcelo é uma pessoa inteligente.


Marcelo não é um Cavaco que ri nem um Cavaco a cores. Percebe-se que para os adversários políticos essa colagem ao Presidente da República menos querido da democracia seja fundamental no discurso de campanha. E, claro, a relação de proximidade política, ideológica e, menos relevante, pessoal, existe e deve ser sempre tida em conta. Mas Marcelo não é nenhum Cavaco. Isso queria ele. Cavaco é um dos políticos mais habilidosos (na dupla acepção da palavra), mesquinhos e reaccionários da história recente de Portugal. Marcelo, por muito que comungue de posições retrógradas nomeadamente nos costumes, é só um pateta políticamente pouco acima de zero. Para passar de beato intriguista a sacana mesquinho ainda tem que comer muita vichysoise.

 

Cavaco passou décadas a fingir que não era político. Marcelo tenta agora fingir que não é mau político. Mas é este o grande problema: Marcelo é um político. Mas dos maus.


No debate com Sampaio da Nóvoa, Rebelo de Sousa cometeu um erro de principiante: desvalorizou o adversário. Tentou reduzir-lhe a sua dimensão política com dois argumentos principais:
1. Sampaio da Nóvoa não tem experiência política;
2. Sampaio da Nóvoa não tem participação cívica mediática.


Ora, mais do que saber se Sampaio da Nóvoa é atacável por este flanco ou não, esta é uma estratégia destinada à derrota. Se Marcelo não conseguir provar estes dois pontos, perde o debate. Se Marcelo conseguir provar estes dois pontos, eles tornam-se irrelevantes porque no debate de ideias e na discussão acesa, uma pessoa sem experiência política e sem intervenção mediática conseguiu entalar o auto e heteroproclamado distinto professor de Direito.
Ir a jogo com dois argumentos tão fracos e sem plano B (ainda tentou desesperadamente esbracejar, recorrendo ao populismo mais reles ao pôr em causa os custos da campanha de Sampaio da Nóvoa), independentemente do resultado, revelam a falta de preparação política e de inteligência. Não ter defesa possível para os constantes e óbvios ataques às suas contradições, revelam que Marcelo não esperava um confronto, que não vai para além da conversa simpática e perguntas mais ou menos cómodas de jornalistas. Ironicamente, foi Marcelo que se viu atraiçoado pela sua escassa e insuficiente dimensão política.

 

O problema não é Marcelo ter tido posições contraditórias ao longo dos anos.  O problema nem é sequer Marcelo ser capaz de defender tudo e o seu contrário com a mesma convicção. O problema é Marcelo ser capaz de defender tudo e o seu contrário com a mesma falta de convicção. Arriscamo-nos a ter como Presidente da República o professor Marcelo e o professor olecraM.

 

É fácil parecermos muito inteligentes se formos os únicos na sala. Marcelo foi construindo uma imagem de comentador perspicaz, abrilhantado por sorrisos e olhares cúmplices com os pivots, em homilia semanal, sem contraditório. Em debate com quem não se limita a sorrir e acenar simpaticamente e discute política sem rodeios, Marcelo perdeu ontem (e já antes tinha perdido com Marisa Matias) e perderá sempre. A mitomania tem um problema muito grande quando é confrontada com a realidade. E o mito Marcelo Rebelo de Sousa é um enorme castelo de areia. Não será fácil, porque o mar não está muito agitado, mas é fundamental que esta campanha presidencial crie uma vaga que o destrua. Se ficar de pé, o próximo Presidente da República é a Vicky Pollard.

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12 comentários

De Carlos a 08.01.2016 às 16:47

Entre muitas coisas conclui-se que temos um eleitorado mesquinho e reacionário.O tal Cavaco passou décadas a acumular as maiorias absolutas que mais nenhum outro político conseguiu. Parece que os donos da democracia e do bem pensar ainda não perceberam que não são eles que decidem pelos eleitores, como ainda há bem pouco tempo de constatou.Os mesmos que quiseram vender o virar da página da austeridade e o BE aos Portugueses, anda agora empenhados em vender Sampaio da Nóvoa e não admitem que o resultado das eleições possa ser outro , pode ser que haja uma segunda volta e de novo se juntem os perdedores para produzirem um potencial vencedor. Pena é que o único candidato que tem tido até ao momento um discurso adequado a PR não tenha máquina mediática a apoiá-lo , falo de Henrique Neto.

De João Gaspar a 08.01.2016 às 17:04


Carlos, Carlos.

Temos o eleitorado que temos. Um eleitorado que vota maioritariamente num político que eu considero mesquinho e reaccionário. Não abona muito a favor do eleitorado, mas não o tomo todo por mesquinho e reaccionário. O voto é, não raras vezes, utilitarista. O eleitor não adquire os defeitos e as virtudes dos eleitos.

O facto do Cavaco ter arrebatado tantas maiorias absolutas não desfaz o argumento opinativo sobre a sua personalidade. Não é nem deixa de ser mesquinho e reaccionário por ganhar ou perder eleições. Enfim, o Carlos não precisa que eu lhe explique isto, mas agora já está.


De João Gaspar a 08.01.2016 às 18:17

O Carlos também não precisa que lhe explique a diferença entre eleições legislativas e presidenciais a duas voltas. Mas alguém tem que fazer esse papel de provocador.

De Zeinal Rodrigues a 14.01.2016 às 13:51

Oh, Carlitos, ainda com azia por causa da tomada de posse do governo de Costa? Olhe, se fosse a si ia ao médico, porque depois de tanto tempo pode ser uma úlcera.

Cumprimentos ao seu chefinho, o aldrabão do Passos, que também está a consumir caixas de Rennie como se não houvesse amanhã.

De Jaime Santos a 08.01.2016 às 19:00

Discordo de que Cavaco tenha sido sempre reacionário. Nos anos 80, defendia posições keynesianas. Chegou a ensaiar, timidamente, uma linha de crítica a Passos Coelho, antes de se ter tornado o seu principal aliado, por ação e também por omissão. Mas não há dúvida que sempre foi mesquinho. Cavaco, talvez fruto da sua origem, é um indivíduo inseguro que não suporta a crítica, sendo mesmo vingativo em relação aos seus adversários e críticos. Falta-lhe chá democrático, mas convenhamos, isso faltava igualmente a José Sócrates, não é apanágio só da Direita. Agora, concordo que Cavaco é, apesar de todos os seus defeitos, francamente mais competente que Marcelo Rebelo de Sousa, de quem não se conhece qualquer ação política meritória (Cavaco foi muito melhor PM do que PR, apesar de tudo). O catavento (Passos dixit) engolido pela Direita (deve ter custado mais que engolir um sapo) é só isso mesmo, um catavento. Mas a imaturidade e o narcisismo de Marcelo Rebelo de Sousa, aliados à sua tendência para jogos florentinos (ele acha-se incrivelmente inteligente), podem de facto fazê-lo um PR muito pior que Cavaco...

De Anónimo a 13.01.2016 às 11:08

A quem é que Marcelo Rebelo de Sousa virá a dar indultos presidenciais se for eleito Presidente da República? Alguém se importa de lhe perguntar?

De João Gaspar a 14.01.2016 às 23:40

por acaso era giro era um candidato assumir que os indultos são um contra senso no estado de direito e dizer que acabava com essa pouca vergonha.

De Joe Strummer a 16.01.2016 às 12:44

Ai está uma questão interessante. Porque é que julgas que q os indultos são um contra senso e porque é que ninguém aborda esse tema?

De João Gaspar a 17.01.2016 às 00:05


num estado de direito democrático assente numa constituição que preza a separação de poderes, é um contra senso que o titular de um cargo político (mesmo que o mais alto da hierarquia) possa sobrepor a sua decisão pessoal à decisão de um órgão de soberania judicial. é anacrónico e contrário ao próprio espírito do regime.

sei lá por que é que ninguém aborda esse tema. provavelmente no one cares. é curioso que isto não seja nunca relevado quando se fala dos poderes do presidente da república. lembramo-nos sempre dos poderes políticos (vetar leis, dissolver a ar, etc), mais raramente que é, por inerência do cargo e sem outro mérito, o chefe das forças armadas, e quase nunca que pode mandar a separação de poderes às urtigas (uma vez por ano, não é?) e imiscuir-se nas decisões da justiça.

De Joe Strummer a 17.01.2016 às 09:05

Não me parece uma ingerência,e se o for,não é grave.E parece-me ser feito com o acordo da corporação. Poder-se-ia colocar a questão quanto à igualdade perante a Lei que me parece mais grave, dois sentenciados nas mesmas circunstâncias terem tratamento diferente, mas também têm que existir mecanismos como estes que têm uma função mais alargada de humanização e perdão. Gostemos ou não vivemos numa sociedade culturalmente cristã. Por outro lado, também não me parece que a existir uma separação de poderes se esqueça da importância da presença de uma hierarquia escolhida pelo voto que não pode ser invertida.

Ninguém toca nos temas da Justiça porque existe uma cobardia na classe politica, exacerbada por causa do Caso Sócrates, em falar desse autentico estado totalitario que não presta contas perante o Povo. Pode e deve haver separação de poderes não pode é haver poderes fora de escrutínio e avaliação. Contextualizando e sintetizando, afinal o indulto pode ser uma coisa boa na humanização de um sistema judicial com uma cultura totalitaria proveniente do estado fascista, até nos métodos que utiliza na perseguição politica.

De João Gaspar a 22.01.2016 às 03:24

pode não parecer ingerência, mas se for, parece-me grave, ainda que com o acordo da corporação.

a questão da falta de igualdade perante a que referes muitíssimo bem é a mais gritante de todas. se isto não é um contra senso constitucional, enfim.

também concordamos que a justiça não é isenta de escrutínio. que esse poder seja afecto à decisão de um presidente da república não me parece a forma indicada de o fazer. questão muito complexa, não sei mesmo como é possível combater a sensação de impunidade que grassa a quem tem cometido abusos de poder judicial e atentando às liberdades e garantias. mas, de qualquer das maneiras, não são em nada minimizados pelos indultos.

a cultura cristã que fique fora do espírito da lei. o juíz não julga a culpa da moral judaico-cristã, decide a culpa consoante o apuramento da verdade material dos factos (ou lá como os juristas gostam de chamar ao que se sabe do que se passou). o perdão que fique ao critério da vítima e não do juíz ou do presidente, mesmo que o lesado em causa seja o estado.


mas, como provam as nossas duas visões ligeiramente diferentes, de qualquer das maneiras o indulto não é um poder de somenos e é efectivamente curioso que seja tão comummente ignorado. não acho que seja só por falta de coragem política que ninguém se mete nos assuntos da justiça. a relação de forças não é simétrica. o poder político não faz tanta mossa no poder judicial como o contrário.


De Joe Strummer a 22.01.2016 às 11:59

De acordo que o indulto é um arcaísmo que se mantém injustificadamente e é ignorado pela própria Justiça. No entanto, se olharmos para a praxis da Justiça (maioritariamente visto como um orgão repressor) e para a transformação das sociedades ocidentais em sociedades de liberdade e não de igualdade - deixando assim o lema triptico da revolução liberal duplamente coxo (a fraternidade já lá vai há que tempos)- em que o sentimento de injustiça social desagua inevitavelmente na aplicação da Lei, o indulto começa a fazer, anacronicamente, sentido. Quer dizer, regressamos de certa forma a um estado de coisas onde um certo absolutismo, pode ser tolerado e até defendido, se bem que não pelas melhores razões.

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