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17
Jan

Como há textos que não merecem estar limitados à página de um jornal, deixo aqui a versão alargada de um publicado no Diário Económico (aqui) pela Ana Martins.

 

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No final desta semana, os governos europeus vão sentar-se à mesa para analisar o controlo fronteiriço da União Europeia proporcionado pelo Acordo de Schengen. Lembremo-nos do que está em causa: livre circulação de pessoas dos países signatários, sem haver necessidade de apresentação de passaporte nas fronteiras dentro deste espaço.

A relação entre os atentados terroristas em França e esta reunião só pode ser encarada como um sintoma da pulsão securitária com que a UE se debate nos últimos tempos, com a expansão de movimentos e partidos extremistas. Sob a batuta do eurocepticismo tradicional no Reino Unido - um dos legados que Margaret Thatcher não hesitaria em reclamar - partidos como o UKIP captam sentimentos xenófobos para alicerçarem posições cimeiras nas sondagens. Não é novidade, porém, porque a dupla “Le Pen – Pai & filha, S.R.L.”, nesta versão 2.0 de Marine, conseguiu agregar para si sentimentos de insatisfação entre os franceses, face ao aumento de desemprego em França. Mas não, o cerne da questão não são as fronteiras. O que demagogos e populistas como Farage e Le Pen gostam de omitir, na sua simplificação de narrativa (porque assim mais facilmente assimilável por mais gente), é que os autores dos últimos actos terroristas eram cidadãos franceses de plenos direitos. A não ser que estejamos todos prontos a ser considerados suspeitos até prova em contrário, não há alterações ao espírito de Schengen que pudessem ter evitado estes ataques. Não, a questão também não é religiosa, basta ler o “não matarás” do Corão e a sensação de profunda vergonha alheia dos muçulmanos que, por esse mundo fora, condenaram estes actos e apelaram à paz entre comunidades. A palavra-chave é, então, comunidade, polis em grego. E, assim sendo, o problema, mesmo na plenitude da sua complexidade, só pode ser político. E a solução, por consequência, só pode ser política.

O problema é matricialmente político porque este é mais um sintoma da doença do projecto europeu, o tal sonhado na ressaca da 2ª Guerra Mundial. Um ideal e um projecto político que tinham como premissa base a ideia de que as sociedades democráticas – o principal antagonista de novas guerras que dizimassem o espaço europeu – só poderiam solidificar-se em condições de prosperidade e de direitos sociais, quando se oferece aos seus cidadãos as condições dignas de implementação de projectos de vida. Na ausência de condições materiais para viabilização desses projectos, prosperam os sentimentos de desconfiança nas comunidades, terreno fértil para ideias extremistas, que funcionam como apaziguadoras dos seus sentimentos de falhanço. É com a subida do desemprego, a falta de condições mínimas de subsistência digna e a precariedade de vínculos laborais que medra a ideia de que são os imigrantes que tiram postos de trabalho. É no contexto de ghettos educativos que se distribuem pacotes vocacionais para ricos e pobres, disseminando a ideia de que o campo das oportunidades não depende do esforço de cada um. Os Sex Pistols gritavam nos anos 70: “When there's no future, how can there be sin?”. Deve ser por isso que quer Coulibaly quer um dos ir​mãos Kouachi falaram de forma tão assustadoramente tranquila aos media. Na verdade, foram alvos fáceis, na desesperança dos seus projectos de vida. Mas não, não se tome esta afirmação por desresponsabilização de decisões individuais.

Da mesma maneira que movimentos xenófobos se multiplicam num contexto em que o projecto europeu está a um pequeno passo do abismo, ceder à pulsão populista de controlo acrescido das fronteiras não é apenas dar um remédio “ao lado” do problema. É fazer debilitar os sistemas democráticos e o já combalido projecto europeu. Estamos a sofrer as consequências da austeridade redentora a que assistimos há anos e que têm colocado em causa as instituições democráticas. Enquanto as condições materiais de existência dos cidadãos frustrarem os mínimos olímpicos de uma cidadania activa, exigente e reconhecida pela comunidade (e dificilmente isso acontece com a desesperança às costas), as ideias radicais, religiosas by proxy por sua conveniência, cumprirão sempre a função de captar os mais fracos, dando-lhes o sentido de vida (mesmo na morte) que mais nada lhes oferece.

 

(*) Poema cuja autoria é atribuída a Bertold Brecht

 

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