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365 forte

Sem antídoto conhecido.

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21
Mar14

O nó górdio

Sérgio Lavos

Não há armadilha colocada pelo Governo ou por Cavaco em que António José Seguro não caia. Os frequentes apelos ao consenso, repetidos até ao enjoo, já deviam ter inoculado o líder do PS, mas ele parece não aprender, caindo nos braços do primeiro-ministro a um ritmo regular. Se até podemos entender a formalidade do gesto, menos se compreende a encenação que essa formalidade comporta. O discurso do Seguro, a sua estratégia, passa por um afastamento do Governo. Mas a verdade é que poucos acreditam que existam diferenças substanciais entre as propostas do PS e as medidas do executivo. Com estes pressupostos, o que temos vindo a assistir nos últimos dois anos é a uma farsa em que Seguro aparece nas televisões criticando o Governo por medidas que o próprio Seguro irá com certeza manter quando (e se) chegar a primeiro-ministro.

A reunião desta semana, antes do beija-mão a Merkel, é um dos momentos em que a farsa se tornou mais evidente. Depois de três horas à volta de chá e bolinhos, o primeiro-ministro saiu da reunião mudo e calado - e até agora não conhecemos uma declaração do Governo sobre o acontecimento -, enquanto Seguro fez questão logo de dizer que não tinha chegado a entendimento com o Governo, afirmando existirem diferenças insanáveis. Mas não existem, claro, como fez questão de esclarecer, logo no dia a seguir à reunião, Óscar Gaspar, conselheiro económico do PS. O que ele disse, aliás, é uma confirmação daquilo que toda a gente já sabia há algum tempo: o grosso dos cortes em salários e pensões é para manter, não sendo possível uma reversão porque, e cito: "As contas públicas portuguesas não o permitem." 

Este momento, definidor, corresponde àquele gesto em que o mágico revela o seu truque. É verdade que foram raras as medidas que Seguro prometeu reverter (e Pacheco Pereira tantas vezes denunciou esta estratégia), mas ver a confirmação de que o essencial é para continuar, preto no branco, decidirá muitas coisas. A começar pelo sentido de voto dos portugueses. Se Seguro irá manter os cortes no rendimento de uma grande parte dos portugueses, para que é que eles se incomodarão a votar no PS? Há, aliás, sondagens que indiciam que, se estiverem em causa políticas de austeridade, os portugueses confiam mais na direita e em Passos Coelho para as aplicar. Desse modo, não se vê como poderá o PS conquistar o voto da minoria de portugueses que defende ou aceita a austeridade - esse voto irá para o PSD (ou para o CDS). E ao reafirmar, de forma consecutiva, que de facto não tem um discurso alternativo a esta austeridade, o PS abdica do voto de protesto e do voto de esquerda contra a actual política de empobrecimento. 

A assinatura do Tratado Orçamental e o discurso dúbio de Seguro em relação aos cortes prenunciavam o que agora foi confirmado. Não haverá diferenças substanciais na política de austeridade se o PS chegar ao poder. A armadilha em que Seguro caiu foi esta: o apelo ao consenso que levou à realização da reunião desta semana prendeu-o a um colete de forças do qual ele não quer (ou não pode) livrar-se. Foi uma espécie de rendição voluntária ou de confirmação de uma inevitabilidade. E significa também que, caso o PS não chegue à maioria nas próximas eleições (o mais provável), a coligação será feita com a direita. Estamos esclarecidos. Caberá ao resto da esquerda ser clara nas suas propostas até 2015. O nó górdio não pode continuar a apertar e a destruir a vida dos portugueses.

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«As circunstâncias são o dilema sempre novo, ante o qual temos de nos decidir. Mas quem decide é o nosso carácter.»
- Ortega y Gasset

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