Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]



21
Mar

O nó górdio

por Sérgio Lavos

Não há armadilha colocada pelo Governo ou por Cavaco em que António José Seguro não caia. Os frequentes apelos ao consenso, repetidos até ao enjoo, já deviam ter inoculado o líder do PS, mas ele parece não aprender, caindo nos braços do primeiro-ministro a um ritmo regular. Se até podemos entender a formalidade do gesto, menos se compreende a encenação que essa formalidade comporta. O discurso do Seguro, a sua estratégia, passa por um afastamento do Governo. Mas a verdade é que poucos acreditam que existam diferenças substanciais entre as propostas do PS e as medidas do executivo. Com estes pressupostos, o que temos vindo a assistir nos últimos dois anos é a uma farsa em que Seguro aparece nas televisões criticando o Governo por medidas que o próprio Seguro irá com certeza manter quando (e se) chegar a primeiro-ministro.

A reunião desta semana, antes do beija-mão a Merkel, é um dos momentos em que a farsa se tornou mais evidente. Depois de três horas à volta de chá e bolinhos, o primeiro-ministro saiu da reunião mudo e calado - e até agora não conhecemos uma declaração do Governo sobre o acontecimento -, enquanto Seguro fez questão logo de dizer que não tinha chegado a entendimento com o Governo, afirmando existirem diferenças insanáveis. Mas não existem, claro, como fez questão de esclarecer, logo no dia a seguir à reunião, Óscar Gaspar, conselheiro económico do PS. O que ele disse, aliás, é uma confirmação daquilo que toda a gente já sabia há algum tempo: o grosso dos cortes em salários e pensões é para manter, não sendo possível uma reversão porque, e cito: "As contas públicas portuguesas não o permitem." 

Este momento, definidor, corresponde àquele gesto em que o mágico revela o seu truque. É verdade que foram raras as medidas que Seguro prometeu reverter (e Pacheco Pereira tantas vezes denunciou esta estratégia), mas ver a confirmação de que o essencial é para continuar, preto no branco, decidirá muitas coisas. A começar pelo sentido de voto dos portugueses. Se Seguro irá manter os cortes no rendimento de uma grande parte dos portugueses, para que é que eles se incomodarão a votar no PS? Há, aliás, sondagens que indiciam que, se estiverem em causa políticas de austeridade, os portugueses confiam mais na direita e em Passos Coelho para as aplicar. Desse modo, não se vê como poderá o PS conquistar o voto da minoria de portugueses que defende ou aceita a austeridade - esse voto irá para o PSD (ou para o CDS). E ao reafirmar, de forma consecutiva, que de facto não tem um discurso alternativo a esta austeridade, o PS abdica do voto de protesto e do voto de esquerda contra a actual política de empobrecimento. 

A assinatura do Tratado Orçamental e o discurso dúbio de Seguro em relação aos cortes prenunciavam o que agora foi confirmado. Não haverá diferenças substanciais na política de austeridade se o PS chegar ao poder. A armadilha em que Seguro caiu foi esta: o apelo ao consenso que levou à realização da reunião desta semana prendeu-o a um colete de forças do qual ele não quer (ou não pode) livrar-se. Foi uma espécie de rendição voluntária ou de confirmação de uma inevitabilidade. E significa também que, caso o PS não chegue à maioria nas próximas eleições (o mais provável), a coligação será feita com a direita. Estamos esclarecidos. Caberá ao resto da esquerda ser clara nas suas propostas até 2015. O nó górdio não pode continuar a apertar e a destruir a vida dos portugueses.

Autoria e outros dados (tags, etc)


5 comentários

De aquaporina a 21.03.2014 às 13:47

Caro Sérgio,

"Não haverá diferenças substanciais na política de austeridade se o PS chegar ao poder."

Da entrevista que sugeres: "O Governo continua a insistir em mais cortes, os portugueses sabem que vêm aí mais cortes, e o PS tem reclamado em prol do crescimento e da criação de emprego que é necessário parar com esta política de cortes".

Pode parecer pouco, mas é bem mais realista do que, por exemplo, dizer que se vai voltar aos níveis salariais de 2011. Como o Óscar Gaspar refere, contrariando o outro Gaspar, construir é muito mais complicado que destruir. Muito do que foi feito ao longo de décadas foi destruído em 2/3 anos, não se pode esperar que seja reposto, ainda para mais no actual contexto europeu, em 4 anos.

Além disso, o PS já se mostrou favorável a uma renegociação da dívida pública, algo que há uns tempos argumentaste como sendo fundamental para a saída da crise. Por oposição, o PSD mantém-se intransigente na defesa dos direitos dos credores.

De Sérgio Lavos a 21.03.2014 às 19:03

Há diferenças, não digo o contrário. Mas no que diz respeito aos cortes que estão a ser feitos, não mostram que possa ser diferente. E isso não só é mau para o país como é um erro estratégico em termos eleitorais.

De Joe Strummer a 23.03.2014 às 12:54


Sérgio, acreditas sinceramente que mesmo com um governo PC+BE não haveria austeridade?
Ou estas a tratar disto como uma questão retórica e implicitamente estas a dizer que Seguro deveria mentir ao Povo?

De Sérgio Lavos a 24.03.2014 às 12:01

O único caminho não pode passar pelo corte permanente de pensões e salários. Há muitas despesas do Estado que podem ser cortadas sem cortar rendimentos. E não, não sugiro que Seguro deva mentir. Lamento que diga claramente que vai repor os cortes no rendimento das pessoas quando chegar ao Governo.

De Joe Strummer a 24.03.2014 às 13:49


Sérgio, não creio que Seguro defenda o corte permanente, nem mais austeridade. Coisa diferente é a manifestação dessa vontade em termos politicos. A armadilha em que se enredou diz respeito ao facto de considerar promessas meros objectivo e objectivos coisa nenhuma, ou muito pouco.Tudo isto com medo de pagar o preço depois das eleições. Puro calculismo e tacticismo, sem uma unica ideia. Navegação à vista.

"Há muitas despesas do Estado que podem ser cortadas sem cortar rendimentos."
Olha que esse mito, o das gorduras, não é assim tão liquido. A despesa do estado não aguenta mais austeridade em salarios mas o que resta para alem disso não dá para consolidar as contas publicas. São, como diz o jesus, peanars. O que tem q ser feito é por todos a pagar de modo igual e não só alguns. e ir atenuando e repondo os cortes atraves do investimento e crescimento daí resultante. Isto dentro do quadro da reestrutuiração da divida, que é inevitavel.

Comentar post




Sitemeter



Comentários recentes

  • Jaime Santos

    Eu não entendi o comentário do Diogo Moreira nesse...

  • MRocha

    Se está na lei que devem ser públicas, cumpra-se a...

  • Jaime Santos

    Trump, além de mentiroso, é sobretudo um egomaníac...

  • Joe Strummer

    Pois, mas convem não deixar que noutro lado se ins...

  • Anónimo

    E estou eu contratado pelo estado à 16 anos.







«As circunstâncias são o dilema sempre novo, ante o qual temos de nos decidir. Mas quem decide é o nosso carácter.» Ortega y Gasset