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08
Fev

Ó mar salgado

por Pedro Figueiredo

                                                     Crédito da foto de Vítor Cruz

 

Depois dos últimos acontecimentos na costa portuguesa com a força das ondas a galgar praias - parece que este fim-de-semana o alerta voltou a soar -, vem à memória uma ideia que a minha avó repetia cada vez que surgiam as marés vivas entre o final de Agosto e o princípio de Setembro (variava com as fases da lua). «O mar ainda há-de recuperar aquilo que a terra lhe roubou».

Sabedoria popular que cada um dará a importância que quiser, mas neste caso particular, sempre fui como o São Tomé: ver para crer. Uma expressão mais acessível do que considerar-me cético por natureza.

A verdade, é que por aquilo que me dá a ver por esta recente imagem da praia da Barra, posso garantir que nos últimos 30 anos (mais visível na última década), o mar recuperou mais extensão de praia do que a distância entre a atual linha de praia e as casas que se veem atrás. Não é a costela nostradamica da minha avó que me preocupa e sim o que realmente o mar está a conseguir recuperar.

A construções de paredões e o aumento dos antigos ajuda não só à navegação na entrada dos portos, como o de Aveiro, mas também, de certa forma, a travar o avanço do mar que, vê-se agora, não está a surtir grande efeito.

Isto somado a um selvagem ordenamento do território (melhor nos últimos anos) que permitiu o alargamento das povoações ao longo da costa, simplesmente porque ter casa na praia era e continua a ser um privilégio. A fatura está a chegar e desta vez não o aumento do IMI que mete medo.

Não vou entrar em pormenores geográficos sobre Aveiro e das suas condições naturais que a entrada da Ria proporciona. No meu tempo de adolescente, naqueles saudosos trabalhos de Verão promovidos pelo antigo FAOJ, estive na Reserva Natural das Dunas de São Jacinto e aprendi que é a duna secundária (a maior e a última a ser geologicamente formada) que naturalmente serve de obstáculo ao avanço do mar.

Acontece que nem toda a costa tem esse travão. A Barra e a Costa Nova (pior ainda a Vagueira) mostram-se altamente vulneráveis à força do mar, independentemente de ter inúmeros pontões construídos.

O Presidente da República afirmou em Novembro de 2012 que os portugueses tinham de saber ultrapassar estigmas e voltar a prestar atenção a setores que esqueceu nas últimas décadas: mar, agricultura e indústria. Esqueceu-se foi de lembrar igualmente que as duas primeiras, se desapareceram, às suas políticas enquanto PM o deve, quanto mais não tenha sido por omissão nas negociações que decorriam com os parceiros europeus.

O mar deveria, realmente, ser visto com especial atenção. Em vez de se ouvir alarvidades como a que foi proferida por Lobo Xavier na última Quadratura do Círculo («Devia passar-se fundos da ciência para as empresas», em resposta ao corte cego – mais um – nas bolsas de investigação), poderia envolver-se as universidades na procura de novas soluções para o progresso científico ao serviço da dinamização da economia. Aliás, nunca percebi muito bem porque nunca se aprofundou com mais seriedade a possibilidade de se obter energia a partir da força das marés.

Já é um chavão fazer-se referência ao tamanho da zona exclusiva marítima portuguesa. Mas é sempre bom lembrar que o Atlântico Sul europeu é nosso e que só isso bastaria para promover estudos mais sérios sobre como tirar partido disso mesmo. Assim se pensa o país. Mas isso é pedir muito. Recorde-se também que quando a antiga IP5 acabou de ser construído, servindo como porta de entrada por excelência à livre circulação de pessoas, bens e capitais na Europa, chegou-se à conclusão que seria insuficiente para as exigências de tráfego gerado. Já para não falar nas questões de segurança. Mais uma “estrada da morte” para juntar a outras que o país já tinha.

Também neste particular, Aveiro foi bafejada. Está no limite da mais estreita faixa de terra para se ir do Atlântico a Espanha. Por Vilar Formoso. Começou então a fazer-se a A25. De estradas ainda há mais histórias para contar, mas isso pode ficar para outro post.

Há, no entanto, portugueses que já responderam ao apelo do Presidente da República. Viraram-se para o mar. O pormenor que deveriam ter em conta em relação ao mar é que, tirem o partido que tirarem, têm de aprender a respeitá-lo. O que aconteceu no Meco prova isso mesmo. Mas não é caso único. Houve alguém, muito melhor do que eu, que apanhou bem o espírito da “nova vaga”. Perdoem a expressão.

 

 

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6 comentários

De Jorge Greno a 08.02.2014 às 18:47

Pedro

Duas observações apenas.
Na Barra a linha de casas é a mesma há décadas e eu lembro-me da praia com dunas, da praia com as dunas destruídas e do trabalho feito nos últimos anos que permitiu que elas crescessem (e de que maneira) novamente.
Em 1979, o mar destruiu os bares então existentes na entrada do paredão.
Todos sabemos que estes acontecimentos são cíclicos, é verdade que este ano tem estado um Inverno dos fortes (também tivemos um Verão de 2013 sem nortada!), mas muito do que acontece de anormal ainda resulta da conjugação dos ventos e das marés. E se reparares na tabela de marés do últimos fim-de-semana, verás que a preia-mar foi muito alta e portanto o difícil era não haver problemas.

Abraço

De Pedro Figueiredo a 09.02.2014 às 16:26

Jorge:

Para escrever este post pedi ajuda a um "especialista" na matéria que me adiantou alguns pormenores, que acabei por não colocar aqui para não ficar demasiado exaustivo e muito sobre Aveiro. O problema na Barra é específico. Com o prolongamento dos pontões mais antigos, a questão do assoreamento apenas arrastou-se mais para sul. A velocidade da água tem a ver com a meia-laranja e não com a boca da barra.
A construção de novos pontões resolve a questão no local, mas "empurra" a erosão, isto é, acumula areia no local mas vai "comê-la" mais a sul. Vou dar uma vista de olhos no link que o Miguel Cabrita colocou, mas a verdade é que não conheço (o que não quer dizer que não existam) modelos (testados ou não) de laboratório - daí o problema da investigação que referi - para o que está a acontcer na costa portuguesa. Deu há dois dias imagens do mar em Fão, mas repete-se noutras localidades costeiras.
Para terminar, foi-me garantido que a Barra tem duas soluções que poderiam minimizar os efeitos do mar na costa.
1 - criar uma comporta para diminuir a quantidade de água que entra no delta (há dezenas de eclusas no norte da Europa).
ou
2.- Abrir outra barra a sul, como já existiu na zona da Vagueira.

Valia a pena pensar nisto como deve ser. Todos ganhavam.
Obrigado pela visita

Abraço

De jose neves a 08.02.2014 às 19:05

Meu Caro,
Diz: houve alguém, muito melhor do que eu, que apanhou bem o espírito da "nova vaga".
Bem, não sei se o amigo está a gozar connosco ou consigo próprio. Pois considerar, a sério, que este palhaço privado da PT, que faz esta rábula precisamente com o mesmo estilo, sentido e simbolismo como faz publicidade apalhaçada para embolsar, só se compreende se estiver numa de desmontar a palhaçada pelo absurdo.
Quanto tempo ainda, os parodistas exibicionistas, levarão a enganar o pagode? E pior, os cultos.

De Pedro Figueiredo a 09.02.2014 às 16:31

Caro José:

Parece estar em causa critérios absolutamente subjectivos de gozo e humor.
No entanto, há algo que me parece que estamos ambos de acordo: rir de nós próprios é sinal de elevação intelectual e maturidade. Quando assim não acontece, e nos levamos demasiado a sério, corremos o risco de parecer o que provavelmente não queremos em circunstância alguma: ridículos.

Obrigado pela visita
Volte sempre (sem ironia)

De Miguel Cabrita a 09.02.2014 às 09:57

Nem toda a investigação científica é feitas nas universidades, seja no tema do mar ou noutro. Em relação à erosão costeira e gestão das zonas costeiras uma instituição pública, o LNEC, tem desenvolvido muito trabalho sobre esta temática de crucial relevância para o ordenamento de território, sobre os riscos que comporta e problemas que levanta.

Infelizmente a comunicação social com a sua mente de papagaio prefere ignorar.

Fica um link:
https://www.lnec.pt/organizacao/ded/nut/rencostal/?searchterm=nec

De Pedro Figueiredo a 09.02.2014 às 16:38

Miguel:

Obrigado pela partilha do link. Vou estudá-lo como deve ser. Este é um tema que me interessa bastante.

Bem sei que a investigação científica não é actividade exclusiva das universidades, mas neste caso concreto da erosão da costa parece-me pouco provável que haja privados interessados (falta de retorno financeiro?) em financiar projectos válidos na área.
Aliás, a primeira coisa que me chamou a atenção foi a origem do financiamento deste estudo do LNEC que partilhou. É sintomático.

Obrigado pelo contributo

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