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15
Jun

 

"In England such concepts as justice, liberty and objective truth are still believed in. They may be illusions, but they are powerful illusions. The belief in them influences conduct, national life is different because of them."

George Orwell

 

Do estudo de Platão no secundário retirei que o mundo real, os humanos e as suas instituições são sempre imperfeitas, mas, como refere Orwell, é essencial que exista um ideal que nos molde e que nos inspire. A UE detinha essa característica essencial: conseguia transmitir um ideal de civilização, apesar de todas os seus problemas e de toda a hipocrisia e cinismo dos nossos tempos.

 

O projecto político da UE consistia na união de Estados soberanos e iguais entre si a fim de criarem uma prosperidade partilhada. Esta interdependência tornaria obsoleta a competição e inveja entre Estados, o que, por sua vez, seria garante de paz - finalidade última. Uma união de iguais em democracia com vista a um aumento sustentado dos níveis de vida: este era o ideal europeu.

 

Infelizmente (sem embargo de a "Europa" ser usada demasiadas vezes como uma desculpa fácil para os governos nacionais), como acontece nas grandes máquinas burocráticas, os meios tornam-se nos fins: as normas, afastadas do seu elemento teleológico, tornam-se quase leis da natureza cujo cumprimento é a única coisa que importa. A UE tornou-se divisiva, surgindo um clima de ressentimento e desconfiança entre os membros. Mas, pior do que tudo, destruiu o seu ideal. Actualmente, para o europeu comum, a UE transformou-se em sinónimo de austeridade, de empobrecimento sem melhoria num futuro próximo, de uma agenda ideológica imposta por burocratas excluídos do julgamento democrático.

 

Resultado: os argumentos para a manutenção de um país na UE deixam de ser os benefícios da sua pertença, mas sim os malefícios da sua eventual saída.

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8 comentários

De Anónimo a 16.06.2016 às 17:59

Acho que grande parte do problema surgiu com o tratamento dado à grécia, pondo a nu o objectivo actual da união: impor um ideia de sociedade pensada pelo norte da europa. Assumindo que nesta fase o RU tem mais vantagens pertencendo à UE, quanto mais demorarem mais dolorosa será uma saída, e acho que uma parte da sociedade britânica compreendeu isto. Não estando directamente envolvido, gostava que os britânicos democraticamente decidissem sair desta união, pois provariam que os países, uns mais que outros, podem seguir aquilo que as suas populações querem e não o que as elites europeias desejam. Seria uma lufada de ar fresco nesta merda toda.

De aquaporina a 16.06.2016 às 18:00

só para assinar este coiso

De Jaime Santos a 17.06.2016 às 18:58

Quando olhamos para a razão principal para uma provável saída, de acordo com as sondagens, vemos que tem pouco a ver com a austeridade aplicada aos países do Sul (pelo menos diretamente), até porque o RU não pertence ao Euro, ou com o défice democrático europeu. A razão principal é a imigração e a crise dos refugiados. É duvidoso que o RU possa permanecer na EEA sem ser nas mesmas condições da Noruega, pelo que uma saída não dará aos eleitores britânicos o controle de que fala Farage, a não ser que queiram que a UE imponha igualmente tarifas às exportações do RU para ela. Aí suspeito mesmo que haverá sérias consequências para a economia britânica. Ou seja, a maioria dos eleitores britânicos que querem sair fá-lo pela pior razão possível, falta de solidariedade com o próximo. Não vale a pena estarmos a debater razões válidas para uma saída, quando o debate é outro e se faz explorando os mais baixos sentimentos dos cidadãos. A Esquerda que é pelo Lexit pode deitar-se sonhando com a Revolução e com o Retorno ao Auto-governo (o que é uma boa piada porque há muito que quem manda em Westminster é a City), e irá acordar com Farage, Johnson e a Direita Tory. Cautela com quem são os nossos companheiros de viagem...

De manuel.m a 17.06.2016 às 23:50

Inglaterra é o país onde vivo e o Labour é o partido de que sou militante.
Posso pois dizer que conheço bem o problema da imigração no Ru e que sou insuspeito de simpatias pela direita.
Alguns factos :
Em 2015 entraram na Grã-Bretanha 333.000 imigrantes, dos quais metade originários da UE. Estes números têm aumentado regularmente ano após ano o que fez com que a Inglaterra seja presentemente o país mais densamente povoado da União, com 419 Habit . Km2 . Aqui uma chamada de atenção é necessária: Os números são referentes à Inglaterra e não ao Reino Unido - A Escócia com os seus meros 40 habitantes Km2 e devido à sua grande extensão territorial falsifica a realidade. Para ter uma ideia da dinâmica do crescimento populacional basta referir que em, por exemplo 1997, se registavam apenas 374 Km2 .
Esta dinâmica de crescimento explica o êxito da campanha do Brexit e é um problema real e, com toda a franqueza, não me parece que um Português habitando um país com apenas 116 Hab . Km2 possa entender, ou sequer opinar, sobre os problemas dos Ingleses, e muito menos fazer julgamentos sobre o carácter alheio.
Mas tenho de admitir que nós, (e este "nós " colectivo refere-se aos militantes do Labour entre os quais me conto), não conseguimos enunciar até hoje uma politica coerente sobre a imigração sem que seja, ou pareça, uma cedência aos princípios e valores que nos regem.
Daí que o problema, (que é bem real), tenha sido capturado pela direita da direita com os resultados que se conhecem.
E se no dia 23 ganhar o Brexit será a vitória do racismo, do chauvinismo, da intolerância , mal que poderá estar por agora dormente noutros países, incluindo Portugal.
Os Portugueses não sabem, mas nesse dia joga-se também o seu futuro.

De Jaime Santos a 18.06.2016 às 01:01

Conheço os números, a percentagem de emigrantes é cerca de 13% da população (números do Guardian), o que é um valor bastante alto, mais relevante para mim do que a questão da densidade populacional, até porque a Inglaterra não é homogénea em termos de população, como sabe melhor do que eu. O meu ponto é que a questão que está no centro da discussão não tem nada a ver com aquilo que constitui o cerne da posta do CRG e que essa discussão foi capturada por políticos oportunistas da pior espécie, como você aliás reconhece (basta ver os cartazes do UKIP ou do Leave.EU para percebermos isso), que exploram os sentimentos mais básicos das pessoas e que lhes prometem aquilo que muito provavelmente não poderão dar (porque de outro modo o RU teria que deixar de ser membro do Mercado Único Europeu). O campo do 'Remain' não conseguiu denunciar esta demagogia (concentrou-se nas consequências económicas de uma saída) e a presente direção do Labour esteve também demasiado tempo afastada da campanha, como se achasse que isto era só uma guerra entre Tories. Já agora, vivi 3 anos no RU (embora há cerca de 20 anos) e longe de mim qualificar os Britânicos todos (ou mesmo todos aqueles que consideram a imigração como um problema) como racistas (a Grã-Bretanha era então um País mais multi-cultural do que Portugal é hoje). Agora, quem pensa que vai 'retomar o controlo do País' depois do Brexit, prepara-se para uma amarga surpresa, pois o problema da imigração não se vai embora com a saída da UE... A esse respeito, o artigo de opinião de Evans-Pritchard publicado no Daily Telegraph, que defende a saída por questões de princípio, expõe bem melhor a pobreza de argumentos do debate, em particular do lado do 'Leave', do que a retórica dos adeptos do 'Remain'...

De Jaime Santos a 19.06.2016 às 23:38

E já agora, se me permite, deixo aqui o link para o editorial do Guardian que resume bem o espírito liberal e humanista britânico de que me habituei a gostar enquanto lá estive: http://www.theguardian.com/commentisfree/2016/jun/16/the-guardian-view-on-jo-cox-an-attack-on-humanity-idealism-and-democracy

De CRG a 20.06.2016 às 11:33

Sem dúvida que a campanha do Leave tem abusado dos argumentos da emigração e a austeridade aplicada pelo George Osborne é uma opção política e não uma receita imposta pela troika - que será para prosseguir mesmo com o Leave. Mas será que este discurso xenófobo teria efeitos sem crise económica?

Mas mais do que isto o post era sobre a forma como a UE, muito por culpa própria, deixou para todos, não só para os ingleses, de ser um ideal desejável e como a ilusão é um factor determinante na construção de um projecto político.

De Jaime Santos a 20.06.2016 às 20:05

Acho que há muito de errado com a presente UE, mas como o David Crisóstomo bem referiu na sua posta sobre o artigo do Pritchard, não me parece de todo que os Britânicos não alinhem pela agenda neoliberal que começou a ser aplicada por Thatcher que tem sido a principal causa das maleitas económicas do Ocidente (tenho que admitir que ela tinha toda a razão em relação à moeda única, mas houve pessoas à Esquerda que chamaram a atenção para os seus perigos, por exemplo Kaldor, em 1971). Por outro lado, o seu modelo constitucional de supremacia parlamentar dá-se mal com o sistema continental de separação estrita de poderes. E se há elites profundamente europeístas, a população em geral foi sempre profundamente cética relativamente à UE. Claro, a crise económica no RU e a austeridade aplicada por Osborne, a juntar à crise dos refugiados e ao aumento da imigração económica de cidadãos comunitários para o RU, causado pela crise da dívida que atingiu as economias periféricas, criou o perfeito caldo de cultura para o aproveitamento populista presente. Mas julgo que importa distinguir as razões que levam os Britânicos a quererem eventualmente sair, da razões para a perda de confiança com o projeto europeu nos Países do Sul, por exemplo. E o facto de serem razões bem distintas só torna uma eventual solução mais difícil de encontrar.

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