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Sem antídoto conhecido.

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18
Fev14

O fim da democracia

Sérgio Lavos

"Bom, para um estudioso de Hayek é fascinante ver Gaspar referir na entrevista um artigo de 1939 deste notável economista neoliberal sobre as condições económicas para o federalismo interestatal de matriz neoliberal, aplicando-o à actual UE, na linha de um diagnóstico da história da economia política da integração, reconhecendo, através da metáfora da políticas ditas automáticas à escala supranacional, que este arranjo constrange a escolha democrática, sendo isso o ideal para as suas distopias neoliberais. A UE, em geral, e a Zona Euro, em particular, aproximam-se do projecto hayekiano, na medida em que garantem o domínio de uma lógica supranacional de construção de mercados e de gestão monetária ortodoxa absolutamente blindadas, limitando a capacidade dos Estados democráticos, até porque a diferenciação económica, social, política ou cultural entre as unidades estatais obstaculiza acordos supranacionais no campo dos valores de pendor redistributivo e socializante. Estes são mais fáceis onde existe uma noção de comunidade de destino. Neste contexto estrutural, Gaspar vence sempre. Só o espectro da fusão do ideal de autodeterminação dos povos com a questão social, configurando na reestruturação da dívida, na libertação desta tutela monetária ou no controlo de capitais pode derrotá-lo."

 

João Rodrigues, certeiro, sinalizando o que pode não ser evidente para todos: a supremacia da ideologia neoliberal na União Europeia implica não só um enfraquecimento da democracia - o voto em cada Estado deixou de ter valor, e as decisões mais importantes são supranacionais, muitas vezes tomadas por políticos ou burocratas não-eleitos -, como depende dele para se impor totalmente. O pacto orçamental e todas as tentativas de controlar as finanças de cada país obrigam a que, na prática, as decisões populares de cada membro da UE tenham pouco impacto na política a ser aplicada nesse país. Por outras palavras: nem que votássemos nas próximas eleições num partido que defendesse políticas keynesianas - e, no actual panorama, esse partido seria sempre o BE, não o PS, que apoiou o tratado orçamental -, teríamos a hipótese de ver essas políticas aplicadas. Estamos a caminhar para a integração plena numa espécie de federação de estados na qual as nações mais fortes decidem em função dos seus interesses e dos seus cidadãos, e apenas o voto destes passará a ser decisivo para o futuro das nações mais fracas e dos seus habitantes. Isto é, nós. Se esta ideia se impuser, será o fim da democracia no espaço europeu. Inevitavelmente.   

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«As circunstâncias são o dilema sempre novo, ante o qual temos de nos decidir. Mas quem decide é o nosso carácter.»
- Ortega y Gasset

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