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05
Dez

Necedade Desnecessária

por David Crisóstomo

Isto, peço muita desculpa, é um completo disparate.

Não é um disparate opinativo, é mesmo pelo uso obtuso dos conceitos. Obviamente que a situação atual da construção europeia não é ideal, obviamente que o argumento de quem reclama mais poderes de volta para as capitais nacionais e menos coesão legal ao nível de direitos, deveres, liberdades e garantias tem mérito intelectual (eu não me revejo nele, de todo, mas reconheço a lógica e o raciocínio de quem o faz honestamente como válidos, sem dúvida). Obviamente que há quem possa ter uma opinião nacionalista (calma, não estou a chamar racista a ninguém, pode ser-se nacionalista sem ser da extrema-direita, é olhar pró PCP cá na terra ou pró KKE na Grécia) e essa opinião não é (para mim) imbecil, claro. Mas se é para defender isso que assumam, não inventem.

Agora, é muita ignorância ou má fé afirmar-se que os problemas da UE tem origem nas suas "soluções quasi-federalistas" ou o que raio - ou ignorância por não saber o que é a parte "federalista" da UE (dou uma ajuda: Parlamento Europeu ---> federalista; Eurogrupo ---> intergovernamentalista; Schengen ---> federalista; Tratado Orçamental ---> intergovernamentalista), ou má fé no sentido de provar que sim, que as profecias de fim da União de 2008, 2009, 2010, 2011, 2012, 2013, 2014, 2015, 2016 é que são a verdade pura e os que propõem outro caminho são uns iludidos. É que ainda por cima escrever uma coisa destas no dia a seguir à Áustria ter eleito um Presidente abertamente federalista, o único candidato capaz de derrotar um neo-fascista, em que defesa da integração europeia foi das matérias que mais pesou na sua vitória, é uma completa falta de noção.

Temos ignorância em matérias europeias por cá, em o que é federalismo vs intergovernamentalismo (e também não há nada errado em preferir uma construção europeia exclusivamente inter-governamental), nas fases, atores e instituições europeias - ainda em 2013 éramos dos que menos conheciam a União Europeia e dos que menos queriam saber mais. Ignorância, essa, fruto duma quase ausência dos temas da construção europeia no debate público até há um par de anos. Convém não espalhar mais desinformação, entretanto.

 

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1 comentário

De Jaime Santos a 06.12.2016 às 23:08

Eu não entendi o comentário do Diogo Moreira nesse sentido. O que julgo que ele disse (e se realmente o disse, penso que tem razão) é que não existe espaço para um aprofundamento na União que possa resolver os problemas económicos com que ela se defronta. De facto, não me parece que os eleitorados dos Países intervencionados estejam preparados para ceder mais poder a Bruxelas e não me parece que os eleitorados dos Países mais ricos estejam preparados para pagar a conta de um aumento do orçamento europeu. O mais provável acontecer é Merkel e Co (a que se pode juntar um Wilders, por exemplo) exijam a continuação da austeridade nos Países do Sul e que finalmente o cansaço force a Grécia ou a Itália (ou porventura Portugal, se os juros treparem muito) a sair do Euro. Note que eu não acho isto nada desejável, porque uma desagregação de uma zona monetária não se fará provavelmente sem alta inflação, ou mesmo com 'stagflation'. Simplesmente, não estou nada otimista...

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