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Não me apetece perder muito tempo com isto, juro que não me apetece, mas este artigo do Daniel Oliveira é, e o autor vai-me perdoar, um perfeito disparate. Deixem-me resumir o ponto que o Daniel faz ali: "O processo das primárias do PS está a ser uma pouca vergonha, não está? Então prontus, aqui é para esquecer, é um horror mata-partidos, mais nenhum alguma vez pegará naquilo". De seguida, para justificar a premissa de que o conceito de primárias é para abolir, escreve umas conclusões tiradas sabe lá Deus donde, dado que não justifica nenhuma. Ora veja, segundo o Daniel, por que são maléficas as primárias:

 

"Porque transformam os partidos em meras federações de eleitores (ahn? qual foi o partido que fez primárias e que se transformou numa "mera federação de eleitores"?), descaracterizam a sua identidade, reduzindo a capacidade de apresentarem aos cidadãos propostas claras que se distingam das de outras forças partidárias (como é? as primárias são más porque, dado o processo da escolha dos candidatos ser feito pelas bases eleitorais, os candidatos têm que se comprometer com projetos e pensamentos próprios? epa, que maldade). Porque desmantelam equipas (ah, isto é uma cena de equipas? e eu a pensar que era uma de "representantes dos cidadãos", silly me), afastam de cargos eletivos pessoas competentes mas menos mediáticas (ai afastam? eu por acaso acho o contrário, dão a oportunidade a cidadãos que de outro modo não teriam alguma hipótese de servir o seu país) e obrigam os eleitos a passar por sucessivos e desgastantes processos eleitorais (eheh, a sério, isto é argumento? epa, bora lá abolir todos os sufrágios pessoal, são uma maçada), tendem a expulsar do sistema quem seja menos dotado para o registo da campanha eleitoral (ou seja, quem de outra forma nunca seria escolhido para representar quem quer que fosse. ora bolas). Porque dão direito de voto a quem não tem qualquer dever para com o partido (isto é tipo o argumento de que só deviam poder votar aqueles que pagam impostos, né?), aligeiram formalismos (oi? quanto muito criam novos formalismos), facilitam golpes (ahahah, ya, sem primárias os golpes ficam muito mais difíceis) e enfraquecem a democracia interna dos partidos (sim, nada torna mais fraca a democracia interna dos partidos do que... democratizar ainda mais a eleição dos seus candidatos). Porque dependem da mobilização de toda a sociedade (ah, pois, isso é mau, não queremos isso), implicam um grau de dramatização que torna a coesão interna, depois de feita a escolha, muito mais difícil (oh brother, já cá faltava o argumento Cavaco Silva, do "consenso" e dos perigos da "crispação"), retirando aos partidos capacidade de integração das divergências (sim, isto das 'divergências' terem que ter legitimidade eleitoral é um aborrecimento).

 

Em resumo: as primárias são más porque o Daniel acha que sim, hoje deu-lhe para isso. Mas o mais surreal daquela prosa que foi há minutos publicada no Expresso é mesmo um dos parágrafos seguintes, onde o autor defende inovações como a das listas abertas ou a possibilidade de cidadãos independentes poderem concorrer a eleições legislativas e europeias e não entende que praticamente tudo o que afirma sobre as eleições primárias poderia também ser dito sobre estas duas ideias. Ou achamos que a possibilidade dos cidadãos poderem concorrer aos parlamentos português e europeu não iria, por exemplo, aumentar a "mediatização dos candidatos"?

 

Que o processo de primárias organizado pelo PS não prima pelo brilhantismo, concordo em absoluto. Mas tal não é devido ao processo, mas sim ao organizador, a direcção do PS, que se socorreu da inovação recentemente testada em Portugal pelo LIVRE para tentar empatar uma demissão que já tarda, arrastando assim a ideia das primárias para o estado decadente em que se encontra.

 

Concordo e defendo a ideia de permitir que os cidadãos, no boletim de voto, passem a ordenar os candidatos de acordo com a sua preferência. Tal como concordo que nenhum cidadão deva depender de uma estrutura partidária para representar os seus eleitores nos parlamentos, nas casas da Democracia. Mas de todas as transformações necessárias para tornar as estruturas politicas mais acessíveis aos cidadãos, a instauração de primárias (abertas) como modelo regular da escolha dos candidatos dos partidos aos diferentes cargos elegíveis parece-me a mais fundamental. O processo das primárias permite retirar o monopólio da escolha dos nossos candidatos a representantes políticos da mão de uma dezena de pessoas que, nos partidos nacionais, "cozinham" as listas. Permite que esse processo passe a estar na mão dos eleitores, dos votantes, daqueles que os candidatos irão representar caso sejam eleitos. E permite, por fim, que o deputado deixe que ter que se preocupar em agradar fundamentalmente a direcções partidárias nacionais ou regionais para poder ser reeleito, e passe unicamente a depender daqueles que o elegeram e que podem, caso entendam, retirar-lhe esse privilégio.

 

O processo que actualmente decorre no PS não matará a ideia das primárias. O Daniel engana-se redondamente se acha que continuamos no "antigamente" politico, onde as listas, as equipas, eram feitas por um punhado de gente, um punhado de funcionários de partido que geriam as tendências da máquina partidária. Esse tempo, em que um candidato ficava desvalorizado por ter que debater as suas ideias, as suas convicções e as suas discordâncias, acabou, é história, ou será brevemente. As primárias serão, a seu tempo, instauradas como modelo de escolha dos candidatos eleitorais na maioria dos partidos portugueses, tal como aconteceu em vários outros países (de que Espanha é o melhor exemplo). Porquê? Ora por uma razão fundamental: as primárias permitem que um cidadão passe a ter a possibilidade de disputar um acto eleitoral devido à legitimidade concedida pelos seus eleitores potenciais e não por alguém numa determinada direcção partidária ter achado que ele seria "competente" para o cargo. E a importância desta mudança suplanta, de longe, qualquer alegado risco de "descaracterização da identidade dos partidos" [francamente...].

 

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6 comentários

De André Nóbrega a 27.06.2014 às 20:20

Só discordo de ti num ponto. Isto não foi uma coisa que se lhe deu hoje. O Daniel Oliveira tem tido uma atitude negativa em relação à ideia de primárias. Tem um preconceito, diria eu, que lhe permite ver uma força enorme nas criticas e uma fraqueza destruidora nos benefícios das primários. Só isso, aliás, explica que uma pessoa que não é de todo ignorante nem prima por um percurso de máquina partidária venha defender as coisas que enumeraste. Ele parece-me daqueles grandes defensores dos partidos como representantes de ideologia, que escolhem os candidatos que melhor a representam e depois os apresentam à populaça que, teoricamente, escolhe a ideologia com o candidato. Só isso pode justificar esta defesa esquisita dos candidatos escolhidos pela máquina e dos perigos da abertura vinda de uma pessoa que é a favor de candidaturas independentes de partidos.
Mas isto, claro, digo eu, que tenho muita dificuldade em perceber estas pessoas anti-primárias.

De David Crisóstomo a 27.06.2014 às 21:50

Também eu tenho, também eu tenho

De makarana a 27.06.2014 às 21:01

Oh David,tenho então uma pergunta a fazer.Se o david é favorável á realização de primárias,porque é que é contra a realização dumas no PS,como o secretário-geral propõe?
E depois outra questão off-topic: há alguma hipotse de se avançar com o congresso extraordinário,caso a candidatura de António Costa consiga as 11 federações e a maioria dos militantes,conforme establecido nos Estatutos?

De David Crisóstomo a 27.06.2014 às 21:48

Sou favorável a primárias abertas (que estas, que limitam as candidaturas a militantes, não serão) no Partido Socialista. Todavia, dada a urgência (a "pressa") para que exista uma verdadeira alternativa ao atual Governo, partilho da opinião de que um processo de regulação e organização de primárias abertas no PS para primeiro-ministro leva demasiado tempo, tempo que o Partido Socialista e o país não se deviam dar ao luxo de desperdiçar. Ainda para mais, neste caso, falamos também duma mudança de Secretário-Geral, um cargo interno do partido, que, nos atuais estatutos, tem que ser eleito por directas e seguido de um Congresso Nacional. Ora, quando o Seguro se demitir após a derrota nas primárias (como já anunciou que o fará), terá que se convocar na mesma directas para Secretário-Geral e um Congresso Nacional em Novembro ou Dezembro. Isto é, o PS poderia ter uma nova liderança antes do final de Julho mas, graças ao desespero do atual Secretariado Nacional, apenas a teremos no final do ano. Preferia até que se fizessem já as diretas e o Congresso e, posteriormente, as primárias para Primeiro-Ministro, com o tempo, o cuidado e atenção que um processo novo como este requer.

Em relação à sua segunda pergunta: haver a hipótese, há. Veremos.

De makarana a 28.06.2014 às 01:49

David,começo por agradecer a sua resposta,que faz na minha opinião todo o sentido.
Também prefiro Costa a Seguro,porque tem mais carisma e acima de tudo,defende a passada governação socialista,algo de que Seguro foge a sete pés,como já se percebeu através das palavras dos seus emissários,em particular João Proença.
Dito isto,a candidatura de Costa suscita-me algumas duvidas: em primeiro lugar,o David invoca Costa como uma garantia de que o PS é uma real alternativa ao governo.Mas..se existem diferenças de estilo e de identificação partidária,em que é que Costa fará diferente de Seguro a nível de ideias?
Depois,se porventura Costa chegar a ser governo,e tendo em conta a atual orientação da UE,baseada no monetarismo alemão,o que fará Costa para não ser um novo Hollande,mas sim a diferença que o PS deve representar?
E por último,sem prejuízo de considerar que Seguro apresenta graves vulnerabilidades,não terá também contribuído para este resultado do PS nas europeias a gravissima crise que a social-democracia atravessa na Europa?

De Anónimo a 28.06.2014 às 14:02

Eu concordo com o Daniel Oliveira. As primárias são um passo para aumentar a influência do dinheiro nas eleições: serão os candidatos com mais dinheiro que conseguirão ganhar primárias (veja-se EUA onde muitos candidatos desistem antes do final das primárias em todo o país porque ficam sem dinheiro para a campanha).

Por esta - e outras razões - penso que as primárias levarão à degradação da qualidade da democracia em Portugal, e não o contrário.

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