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365 forte

Sem antídoto conhecido.

Sem antídoto conhecido.

12
Set16

José Manuel

David Crisóstomo

 

Consta que há boatos, rumores, cenas fundadas ou não, eu também não quero saber, que há manobras do Partido Popular Europeu (PPE) para chutar uma das suas pivôs na Comissão Europeia, a Vice-Presidente Kristalina Georgieva, para o posto de Secretária-Geral da ONU. O pessoal dos boatos também nos diz que esta alegada candidatura é alegadamente patrocinada por dirigentes ou ex-dirigentes do PSD, nomeadamente por Mário David, ex-eurodeputado do PSD e ex-vice-presidente do PPE, que não estariam assim a apoiar António Gueterres, seu compatriota de nação na corrida das nações unidas.

E pronto, a história acabava aqui. Mário David é a figurinha que se sabe, herói de Orban e outras gentes recomendáveis, logo estou-me cá bem nas tintas para o seu bom nome. Ele e outros lá saberão e, francamente, coitada é de Georgieva em ver-se associada a tais personagens. 

Mas não acaba, porque de repente anda meia ala progressista da nação agarrada à bandeira e a procurar traidores nos cantos do condado portucalense, tipo caça às bruxas estrangeiradas. Tudo num patriotismo súbito de "ou estás connosco, ou cospes nas quinas", incluindo figuras que se teriam por mais sensatas. Sejamos cá diretos: se é pra denunciar uma alegada hipocrisia do PSD, força, sign me in, é mais uma entre muitas. Agora, com franqueza, se é pra explorar um raciocínio de 1916 de "se há um português em jogo, tens que apoia-lo", então bem podem meter essa lógica bafienta de caixinha de costura de naprons de onde a desenterraram. Era só o que faltava que agora houvesse aqui algum juramento de sangue que nos obrigasse a apoiar sempre o lusitano mais próximo em todas as candidaturas. Eu prefiro Guterres a Georgieva por o primeiro ter mais experiência no sistema da ONU, pelos anos dedicados à bastante atual questão dos refugiados e por me estar ideologicamente mais próximo. Partilharmos uma nacionalidade é um acaso do destino, nem eu nem ele fizemos nada por isso. E (perdoem-me a linguagem, mas tendo a conviver muito mal com intifadas nacionalistas) mas danado seja o co-cidadão que insinue que eu tenha que jurar lealdade a qualquer portador de passaporte mais semelhante em concursos ou eleições além-fronteiras. Mas é que devem tar maluquinhos, só pode. Nem que seja porque a história recente (francamente recente, caraças) nos dá exemplos do quão patético é esse raciocínio - quem me dera a mim ter tido mais vozes em 2009 que insistissem que não devíamos apoiar o português cegamente, aquele português, só porque tinha um nome cá da terra e era bem cotado noutros salões. Se assim fosse, talvez hoje não estivéssemos a ler as noticias sobre um "José Manuel" caído em desgraça nas capitais europeias e que, invariavelmente, ficará sempre associado ao país cujos representantes eleitos durante 10 anos acharam que ele tinha muita estofo para presidir a um executivo com responsabilidades continentais. Obrigadinho, patriotas. Deixem lá as bruxas em paz. 

 

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«As circunstâncias são o dilema sempre novo, ante o qual temos de nos decidir. Mas quem decide é o nosso carácter.»
- Ortega y Gasset

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