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08
Set

A saída de José Sócrates da prisão de Évora, acontecimento que rapidamente foi transformado pelos media em alfa e omega da campanha eleitoral, permitiu-nos assistir a mais um episódio da variante de jornalismo que se tem tornado moda em Portugal: o jornalixo.



Vulgarizado pelo Correio da Manhã, o jornalixo caracteriza-se pela ausência de qualquer regra deontológica da profissão jornalística, e pela ênfase total da informação como entretenimento de massas, sendo a preocupação com os factos, a verdade, o bom-senso, ou até mesmo a simples decência, algo que não assiste ao jornalixo. Em vez disso, o jornalixo procura ser entretenimento para a audiência, fazendo apelo aos mais básicos instintos de quem tem a infelicidade de os ler, ouvir ou ver. Voyeurismo, inveja, vingança, entre muitos outros sentimentos nefastos, são a alimentação que o jornalixo procura fornecer à sua audiência. Tudo com um simples objectivo: fazer com que a audiência continue a se alimentar nos media que praticam essa forma de “informação”.



E isto, infelizmente, é algo que decorre naturalmente da essência do negócio da imprensa. O jornalismo vive de audiências, seja em que formato. Antigamente, as pessoas compravam jornais para se informar, mas as rádios, revistas e televisões sempre tiveram múltiplas funções. A informação andou sempre a par do entretenimento, e em grande medida é o entretenimento que financia a comunicação social de massas. Nessa perspectiva a informação fornecia o glamour e a respeitabilidade, enquanto o entretenimento fornecia o financiamento. Mas o mundo mudou.



Com a ascensão da reality TV, os media ficaram cientes que as audiências já não se regiam pelo paradigma do séc XIX. A informação podia andar de braço dado com o entretenimento. Aliás, a informação podia ser entretenimento. Para isso bastava abandonar os critérios deontológicos do jornalismo, e fornecer aquilo que as pessoas realmente querem ver, desejam ver, odeiam ver, mas não conseguem parar de ver: o jornalixo.



Onde é a casa que Sócrates vai viver em prisão domiciliária? Vamos dizer a morada a cada 5 minutos. O que ele vai comer? Quem o visita? Como são as paredes? E o tecto? E a casa-de-banho? E Sócrates? Como se veste, come, urina? Tudo isto, o jornalixo fornece. Tudo isto, as pessoas não deixam de ver.



Isto é o futuro do jornalismo. Inevitável porque se já não servem como fornecedores de notícias, visto que a internet e as redes sociais já ocuparam esse nicho, mais vale ser entretenimento. E quem não gosta, vê/lê/ouve outras coisas.

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3 comentários

De MRocha a 08.09.2015 às 16:14

"E quem não gosta, vê/lê/ouve outras coisas. "

Sei que há muita gente a pensar assim mas julgo que esse raciocínio aparentemente lógico encerra em si uma perigosa ratoeira. É que, no limite, a liberdade de quem assim pensa agir livremente, irá acabar, mais cedo do que tarde, por ser coarctada pela opinião do main-stream formatado a martelo pelos média de acordo com as suas agendas ocultas.

No tempo em começaram a encurralar judeus tb não faltou quem virasse a cara e fosse ver outros espectaculos. .e no entanto....

De João Pedro Lopes a 08.09.2015 às 18:49

E para quando um acusação de lenocínio contra os órgãos dirigentes/proprietários do correio da manha? O que obrigam aqueles "jornalistas" a fazer...

De Joe Strummer a 08.09.2015 às 22:40

Missing the point. Ha muito q o infotainment e uma realidade, não e nada de novo, e nem sempre perverso. John Stewart tinha esse registo. O q se pretende analisar aqui e a agenda mediatica e aqui o racional em q se pretende injustificadamente justificar o seu racional e somente a questão da rentabilidade economica, as audiências. ASSilva incorre np mesmo erro ao dizer (embora

uma tenue mas não menos errada ironia) q os media não falam do Paf porque o seu programa não existe. Os media tem uma agenda ideologica, e simples. Tem um poder tao grande e fácil de exercer que seria quase inumano se não o fizessem.Todo este post como o falhado escrito do ex-ministro falham o ponto, justificam mais a verdadeira inversao do papel dos media do q questionam a sua verdadeira natureza.

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