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365 forte

Sem antídoto conhecido.

Sem antídoto conhecido.

29
Abr14

Inovação e excelência

Sérgio Lavos

O Governo parece ter encontrado uma nova modalidade de propaganda para os media reproduzirem acriticamente. Depois dos balões de ensaio para medidas difíceis, dos comunicados elogiando esquivos feitos ou da matraca constante da baixa dos juros, chegámos a uma altura do campeonato em que o irrevogável conglomerado tem de começar a sacar os ases que tem na manga, enfrentando o cutelo aguçado de uma estrondosa derrota nas eleições que se avizinham. Como a mordaça da troika é apertada e a mentira tem cada vez perna mais curta, torna-se complicado fazer promessas (uma estratégia que começa a ficar tão exposta como o crâneo de Passos Coelho) ou atenuar os cortes que foram fazendo nos últimos anos (tendo em conta que nenhum ajustamento estrutural foi feito e que a economia nacional encontra-se presa por fios ainda mais esgarçados do que os que a seguravam em 2011). O que inventar, então? Pedro Mota Soares, do dissimulado partido, parece ter encontrado o caminho: anunciar como boa nova a manutenção do que já existe. É mais complicado do que aparenta, e requere um assinalável esforço de planeamento a médio prazo, em três passos: primeiro, pôs-se a circular a notícia de que os despedimentos sem justa causa veriam a correspondente indemnização drasticamente reduzida; segundo, choro e ranger de dentes na CGTP e na UGT; terceiro, e exactamente um dia antes do muito aguardado anúncio do Documento de Estratégia Orçamental, atirar para as redacções a bombástica notícia (via fonte anónima do ministério, é para isto que servem os especialistas pagos por todos nós a peso de ouro) de que afinal estas indemnizações não serão reduzidas. Por outras palavras: vai ficar tudo como está, e isso é uma grandiosa vitória de Mota Soares, convenientemente enublando a discreta novidade de que afinal o salário mínimo (a "bomba" noticiosa de há umas semanas) não irá ser actualizado este ano e que os cortes nas horas extrodinárias irão ser "provisoriamente mantidos" de forma indefinida. 

Bela jogada, Mota Soares. Se isto fosse uma competição de saltos para a água, bateria aos pontos o esforço de Moreira da Silva, que, através do anão ventríloquo Mendes, lançou para praça pública a notícia de que serão negociadas as rendas na energia e que isso irá fazer-se notar na conta do gás dos portugueses. Note-se que esta notícia é conjugada num futuro muito condicional (ou não falássemos de rendas das empresas de energia, o corte pedido pela troika desde o início do programa e nunca concretizado). Um pormenor, porque o que interessa é que as pessoas saibam que tudo vai mudar num futuro próximo, preferencialmente depois das Europeias.

A intoxicação da opinião pública, a única área de excelência deste Governo, prossegue a bom ritmo. Mas a realidade é tramada e surgirá como um muro intransponível onde a desbragada locomotiva governamental irá embater. Não vai ser nada bonito.

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«As circunstâncias são o dilema sempre novo, ante o qual temos de nos decidir. Mas quem decide é o nosso carácter.»
- Ortega y Gasset

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