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06
Jan

Escumalha

por Teresa

Morais Sarmento diz que “Sócrates apanhou uma ponta em que já saiu da discussão das ilegalidades e vamos andar a discutir os direitos fundamentais”. 

 
Um miúdo numa loja de gomas, o Santana na mansão Playboy, o Tio Patinhas na caixa forte. Olho para esta frase do Sarmento e fico tão deliciada por se ter enterrado assim que não há imagem que consiga ilustrar a minha satisfação e só tenho uma dificuldade, pequenina, começo por onde?
Pelo princípio, pois então, pelo emissor, pelo próprio Dr. Morais Sarmento, licenciado em Direito, pós graduado na Católica sem constar que tenha sido ao domingo, distinto advogado, político, comentador, ex ministro da Presidência, de Estado, dos Assuntos Parlamentares, ex representante de Portugal em Comissões várias, ex muita coisa no PSD, e, last but, definitivamente, not least, ex membro do Conselho Superior do Ministério Público e ex membro da Comissão Nacional da Protecção de Dados. Ah, e brasonado, se bem que isso me interesse tanto como os direitos fundamentais lhe interessam a ele.
Curriculum de peso a indiciar sabedoria, longe, muito longe do solitário e iletrado anónimo que em caixas de comentários debita sentenças cheias de fel em vocês com cedilha mas muito, muito, mais perigoso. Se o solitário e iletrado anónimo pode, quanto muito, dar uns pontapés na gramática e maltratar a língua portuguesa sem consequências de maior o Dr. Morais Sarmento, homem ilustre dedicado à coisa pública, ou é, afinal, um ignorante ou é um malvado e numa penada, por acaso também muito pouco ortodoxa gramaticalmente falando, maltratou não só a língua portuguesa mas os próprios fundamentos do Estado de Direito. Maltratou Portugal.
O Dr. Morais Sarmento sabe e tem obrigação de não esquecer que Sócrates não pode discutir ilegalidades porque as ilegalidades discutem-se, apuram-se, determinam-se, medem-se, na audiência de julgamento e até lá só existem, ou não, factos e só existem, ou não, provas desses factos e se alguma discussão pode haver será sempre e exclusivamente sobre factos e provas e essa discussão faz-se, como o Dr. Morais Sarmento sabe e tem obrigação de saber, no âmbito de um processo penal, processo esse que o Dr. Morais Sarmento sabe e tem obrigação de saber, está limitado, condicionado, enformado, pelos tais direitos fundamentais que o Dr. Morais Sarmento não quer ver Sócrates a discutir quando são os únicos que se podem, e devem, discutir agora. Este é um dos princípios fundamentais do Estado de Direito que o Dr. Morais Sarmento já tantas vezes jurou defender em nosso nome.
Dr. Morais Sarmento, dou de barato as suas passagens pelos governos do PSD, deles espero ministros como o senhor e só alguns, poucos, me surpreendem, pelos orgãos do partido, pelas televisões, pelas rádios e pelos jornais mas considero extremamente perigoso que um homem que menospreza os direitos fundamentais e veste a beca de juiz na praça pública para apontar ilegalidades a dedo tenha feito parte do Conselho Superior do Ministério Público, da Comissão Nacional de Protecção de Dados e que tenha representado a República Portuguesa na Direcção da Autoridade de Controlo Comum do Espaço Schengen.
Peço-lhe, por favor, que na próxima vez que o convidem para um cargo que implique conhecimento e respeito dos tais direitos fundamentais que considera meras cortinas de fumo que desviam de uma essencialidade qualquer por si determinada, invoque incapacidades de toda a espécie e se faça subsitituír por um sapateiro a tocar rabecão porque esse já toda a gente presume que não é músico e toca mal mas o senhor, ou não sabe do que fala e anda há anos a ser levado a sério ou é profundamente desonesto e, quer num caso quer noutro, o mal que nos pode fazer a todos vai muito além de umas fífias.

 

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1 comentário

De afonsonunes a 06.01.2015 às 21:41

Ótimo!

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