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19
Mai

Escolher os melhores de nós

por Sérgio Lavos

Para que serve uma eleição? De acordo com cerca de quarenta por cento dos votantes, para nada. Os que, por uma razão ou por outra, por preguiça ou por militância, por falta de disponibilidade ou por um sentido de cidadania enviesado, escolhem não ir depositar o seu voto em dia de plebiscito. Mas a abstenção não é uma escolha igual às outras, não é como preferir ir à praia em vez de ir ao cinema. Não votar tem um preço. Decisivo, grave, essencial.

Pensemos por exemplo em Cavaco Silva, o presidente da República mais impopular da história da democracia portuguesa. Em 2011, foi eleito com 52.95% dos votos depositados. Mas a abstenção chegou aos 53%. Na prática, Cavaco Silva pode ocupar o mais alto cargo da nação apenas com o voto de 23% dos eleitores. A legitimidade formal da sua eleição é inegável. Mas a verdade é que o formalismo democrático não ilude o facto de que apenas uma minoria escolheu votar Cavaco. Talvez por isso a sua taxa de popularidade, aferida em sondagens, partiu de uma base baixa e foi caindo ao longo de cinco penosos anos. Aos que decidiram não ir votar juntam-se os que foram e não votaram nele. Os 77% de eleitores que não se reviam em Cavaco têm assim vindo a sentir na pele o peso de um presidente que nunca esteve à altura do cargo que temporariamente ocupa. Os que escolheram ir e votar noutros candidatos podem sempre dizer que a culpa não é deles. E quem não foi, quem ficou em casa, o que pode dizer em seu favor?

A abstenção não ocupa lugares na Assembleia da República. Não toma decisões, não legisla, não decide. Os votos que não chegam a acontecer transformam-se em votos nos outros partidos e, com o nosso sistema eleitoral (baseado no método de Hondt), os partidos mais votados estão em vantagem. A abstenção favorece apenas os partidos grandes e enfraquece o debate democrático, contribuindo para o pensamento único. A diversidade política e a emergência de alternativas exigem participação e cidadania e dispensam a alienação e a anomia.

Como escreve Platão n’A República: “o preço a pagar pela não participação na política é podermos ser governados pelos piores”. Quem envereda pela via da abstenção (uma negação da escolha democrática) corre esse risco.

 

(Texto publicado inicialmente no LIVRE/Tempo de Avançar.)

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6 comentários

De Joe Strummer a 20.05.2015 às 16:03


Sejamos realistas, a unica forma de mudar alguma coisa é não votar. A abstenção ser tão grande que ilegitime qualquer poder. A recusa é o unico poder que resta realmente às pessoas.

De Joe Strummer a 20.05.2015 às 17:26

Só acrescentar que existe uma percentagem de 10 a 15% de abstenção civica nos votos referentes ao PC/PEv + BE, ie, são votos que não contam para mais nada a não ser para alimentar a pirâmide e controlar o protesto. Se fossem partidos realmente revolucionarios e quisessem realmente mudar alguma coisa estavam fora do sistema parlamentar e apelariam à abstenção. São fence sitters e contribuem para a não solução tanto no sistema parlamentar vigente como no que se lhe opõe.

De Teodoro a 21.05.2015 às 10:35

Não diga disparates, só as pessoas que gravitam à volta dos partidos (e estas vão votar) bastam para evitar o que você anda a propagandear. O melhor é ir votar e conscientemente, ou seja pensar no que os partidos (governo) disseram na ultima campanha e o que fizeram durante todo o periodo de governação.

De Joe Strummer a 21.05.2015 às 14:09

Boa Teodoro, já vais ao sonoro!
Sentido crítico é q infelizmente é nenhum. O direito à dissensão é o maior bem de todos.

De Anónimo a 21.05.2015 às 12:36

Isto é possivel??? http://www.noticiasaominuto.com/economia/393738/divida-publica-volta-a-subir-para-os-130-3-do-pib

epá, peçam desculpa pelos estragos e vão-se embora......porra já chateia, que merda de desgoverno

De Anónimo a 21.05.2015 às 12:53

....e os piores de nós ((des)governo)...



http://economico.sapo.pt/noticias/contribuintes-obrigados-a-pedir-facturas-da-saude-separadas_218999.html

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