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365 forte

Sem antídoto conhecido.

Sem antídoto conhecido.

09
Ago14

duas ou demasiadas coisas

David Crisóstomo

O blogue do Francisco Seixas da Costa é um dos espaços da blogosfera que há mais tempo frequento. Local de histórias curiosas, opinões ponderadas e análises sensatas com que tendo quase sempre a concordar. Dito isto, ontem deparei-me com um post de reflexão sobre a campanha interna do Partido Socialista infelizmente interessante. Interessante por utilizar um argumentário semelhante ao de muitos, mas profundamente equivocado. Em variados aspectos.

 

O ex-secretário de estado começa por relatar que no passado recente tomou conhecimento que havia um segmento populacional da população portuguesa, essencialmente alfacinha (que, numa terminologia que costumo ver mais para os lados da Soeiro Pereira Gomes, identifica como "direita burguesa") , elogioso do trabalho e do carácter do presidente da Câmara Municipal de Lisboa. Seixas da Costa acrescenta ainda que nas redes sociais "reaças" António Costa era muito apreciado, por oposição a Seguro que era desprezado.

 

Vamos por partes: o embaixador assegura-nos de que "sabe do que fala", como atestado de credibilidade do seu ponto de vista. Não contesto, mas não me chega, até porque a interpretação me parece tortuosa. Não me faz impressão nenhuma que haja cidadãos que se identifiquem como sendo de direita ou "conservadores" e que encontrem méritos e qualidades em António Costa. Ou em António José Seguro. Ou no Jerónimo de Sousa. Pessoas de direita a elogiar candidatos de esquerda e vice-versa não é nenhuma anormalidade deste reino. Que sejam "burgueses", utilizadores de redes sociais e/ou da "boa gente do interior", utilizando uma expressão do atual Secretário Geral do PS, também me é completamente irrelevante. Numa discussão democrática madura, devemos dispensar (ou mesmo rejeitar) a "catalogação" dos cidadãos por estereótipos, alguns deles bem bolorentos. O apoio de um eleitor de Lisboa e de um de, sei lá, Penamacor, deve ser visto e entendido pelo mesmo conjunto de critérios, sob pena de cairmos na arrogância discriminatória de que acusamos o outro lado: um cidadão do interior é necessariamente menos "burguês" que um de Lisboa? Porquê? E que direito tenho eu de julgar um habitante do litoral como sendo obrigatoriamente mais "espertalhão" que aquele que reside em Viseu ou Évora? Este tratamento classicista dos cidadãos pelo seu local de origem não será tão ou mais insultuoso ou primitivo como o outro que queríamos denunciar? Creio que o embaixador concordará comigo neste ponto.

Confesso que no que às "redes sociais reaças" diz respeito, não creio que neste ponto Seixas da Costa saiba do que fala. Não me lembro de alguma vez ter lido textos de blogueres mais à direita que se desfizessem em elogios a António Costa. A titulo de exemplo, é espreitar o segmento de opinião do Observador, que mais à frente no post é dado como "barómetro". Deduzo que o autor tenha feito alguma confusão.

 

Segue-se uma caracterização da caracterização feita frequentemente a António José Seguro, referindo que esta última descrevia o Secretário-Geral do PS como sendo "insuspeito de carisma" e que "dificilmente levaria o PS a parte a alguma, muito menos ao lugar de Passos Coelho". Seixas da Costa refere que este é um olhar "sobranceiro", apesar de não justificar nem refutar a adjectivação. Eu, que não vejo em Seguro nenhuma relevante habilidade carismática nem a capacidade para levar o PS a vencer as próximas eleições legislativas e ter capacidade para formar governo, não entendo porque sou caracterizado como "sobranceiro". Acredito aliás que os últimos dias, as últimas intervenções e entrevistas vieram dar razão a este perfil traçado.

Há ainda uma queixa de que de cada vez que Seguro apresentava uma medida, "a imprensa "desfazia-a" no dia seguinte". Bom, vamos lá ver, a não ser que entremos aqui num complexo santanista de "incubadora", se a imprensa é capaz de desacreditar uma proposta em apenas 24h, então a proposta não devia ser grande coisa, não é? E, bom, sobre a parte de que "quando, um dia, se decidiu a apresentar uma "batelada" delas, então foram medidas a mais", estando a falar do pack das 80 medidas, que entre elas tinham "Defender as funções estruturantes da soberania do Estado" (?), "Estabelecer a necessária articulação entre departamentos do Estado no sentido de assumir posições céleres e comuns em todos os processos em que estão em causa direitos, liberdades e garantias ou a sustentabilidade de empresas e postos de trabalho" (?) "Estabelecer regras claras para a definição, execução, avaliação e controlo das políticas públicas" (?) "Aplicar de forma generalizada práticas preventivas de conflitos de interesse e de corrupção a todos os organismos da função pública" (?) , "Adoção de uma estratégia industrial 4.0” (?) e a "Estação Oceânica Internacional" (???), o problema não era estas serem muito numerosas, é de que, muito fracamente, muitas delas são completamente vagas. Quer dizer, como não criticar um conjunto de 80 "propostas concretas" em que as últimas 5 são Portugal permanecer membro da UE, da CPLP, da ONU, da NATO e ter boas relações com o resto do mundo? 

 

O texto continua com uma análise dos últimos meses. "Vieram as europeias. Em face do seu próprio descalabro, a direita percebeu, num instante, que a potencial alternativa partidária não tinha sequer aproveitado a sua queda.". Interessante é que quando fala do não aproveitamento da derrota da direita parlamentar, o autor está-se a referir ao que aconteceu no pós-25 de Maio e não aos resultados eleitorais que conhecemos nesse dia, onde, com pouco mais de 30% de votação no principal partido da oposição, a direita governamental confirmou um pressentimento partilhado com grande parte da população: apesar da massiva contestação e insatisfação popular, apenas 30% dos eleitores reconheciam no Partido Socialista capacidade para os representar. E ninguém governa com 30%. Aliás, nesse mesmo dia foi dada a conhecer uma sondagem para as legislativas com um resultado que veio mais tarde a ser confirmada por outras subsequentes: o PS empataria ou perderia face ao PSD e CDS-PP.  Face a isto, aconteceu o óbvio (ou que pelo menos assim deveria ser considerado, face aos factos): um "setor do PS que não se conformava com a escassez da vitória" apoiou a disponibilidade revelada por António Costa para alterar uma trajetória politica que poderia (e poderá) ser desastrosa para o Partido Socialista e para o país.

 

Seixas da Costa nota ainda uma alegada e aparente alteração de opinião que aconteceu em certos setores da sociedade sobre António Costa e António José Seguro. E conclui com uma opinião, creio eu ficcionada mas baseada em percepções do autor: "O Costa, se for montada uma boa campanha a acusá-lo de estar ligado ao Sócrates, pode ser que venha a suscitar rejeição no eleitorado. Mas vai ser difícil, porque ele é bastante popular. Já o Seguro, com aquele ar agora um pouco mais determinado, será que vai conseguir dar a volta? Se arranjar coragem para se distanciar abertamente do "Sócras", com o balanço de uma vitória nas primárias e se a economia descarrilar um pouco, pode final ser bem mais perigoso do que pareceu nas europeias.". Este trecho opinativo está bem apanhado e é muito comum.  Revela uma opinião banal, mas deprimente. Uma que acha que "estar ligado" ao anterior primeiro-ministro é uma falha, um defeito, e que o caminho de Seguro deverá ser o distanciamento do passado recente do PS. Isto é, Seguro só "será mais perigoso" para a direita (dado o quão foi até agora, também não seria difícil) se demonstrasse publicamente uma certa vergonha, um desconforto com o legado dos últimos governos socialistas. Ao que parece, Seguro partilha da opinião desta senhora das pulseiras de Seixas da Costa, pois ao longo das últimas semanas, no novo registo do não-anulado, não hesitou em copiar o argumentário utilizado pela direita parlamentar, ou até mesmo a suplantá-la e a ir directamente à fonte que lhes levou ao poder e que trampolinou Marinho Pinto para Estrasburgo: o populismo básico e reles, inspirado em manchetes do Correio da Manhã, que tenta ligar a crise económica e social ao fenómeno da corrupção e da mistura de "política e negócios". Ignorando-se a complexidade dos problemas do país e da Europa, aposta-se no primário, no simples e simplório, no estulto. É fácil utilizar e abusar da carta da corrupção. É fácil dar a entender que se concorda com a visão anti-política, que houve muita trafulhice nos últimos governos e que Seguro, separador da politica e dos negócios, é "diferente" de Sócrates e dos anteriores. É fácil e com certeza dará votos. Seixas da Costa queixa-se do "registo de lota" da campanha. Eu queixo-me e amedronto-me com o registo populista do atual Secretário-Geral do PS. Aceitar e aderir à narrativa da direita sobre a crise, a de que gastámos bué e tínhamos bué direitos e que agora temos que nos disciplinar e austerizar até à medula, já era mau o suficiente. Juntar a isto uma visão baixa do debate politico, uma "nova forma de fazer política" que parece consistir em advogar menos deputados e difamar o adversário até à exaustão para poder vir a colher simpatias junto dos que duma forma salazarenta olham com desprezo e nojo para a politica, assuta-me enquanto democrata e socialista. E a ausência de denúncias e distanciamentos de muitos democratas socialistas assusta-me ainda mais.

 

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«As circunstâncias são o dilema sempre novo, ante o qual temos de nos decidir. Mas quem decide é o nosso carácter.»
- Ortega y Gasset

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