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Sem antídoto conhecido.

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20
Jun16

Devemos invejar os britânicos?

Diogo Moreira
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Quinta-feira os britânicos vão às urnas para decidir se continuam na União Europeia.



O “Smart Money” diz que o Reino Unido escolherá permanecer nesta união disfuncional. Os oportunistas já estão a abandonar o barco do “Brexit”. à última hora, certamente cheirando para onde os ventos da vitória estão a ir. Nada de incomum na política contemporânea.



A campanha pela saída tem sido marcada pela xenofobia e ódio aos estrangeiros, enquanto a campanha dita “pura” da permanência é constituída pelo acicatar de outros medos irracionais junto dos eleitores, ressuscitando os mais básicos bichos papões do dito “anti-europeísmo”, ajudados pela mesma massa histérica de tecnocratas que tanto exprimiram o erro colossal que o Reino Unido fazia ao não entrar no Euro, essa panaceia que iria propulsionar o desenvolvimento económico e social da “utopia” europeia, que actualmente só existe na cabeça dos eurocratas de Bruxelas, ou nos pobres crédulos euro-entusiastas, que se comportam cada vez mais como arautos religiosos de algo que há muito deixou de existir.



A União Europeia que hoje existe é, graças ao Euro, uma construção tecnocrática de moeda única sem os instrumentos que permitisse que funcionasse como factor de desenvolvimento comum, sendo cada vez mais uma fonte de empobrecimento e de miséria económica e social, devido à espiral de dívida, pública e privada, que os povos de muitos países europeus, os menos competitivos deste bloco, são incapazes de solucionar. A austeridade imposta por Bruxelas, seguindo as instruções da Alemanha, apenas agrava os problemas. Todos sabem isso. E Bruxelas não se importa. Seguir a visão neoliberal é mais importante que os interesses dos povos europeus. Condenados ao lento empobrecimento, com o desmantelar das suas estruturas económicos e sociais, muitos países estão condenados ao definhamento dentro da Zona Euro. As suas únicas esperanças são que Bruxelas (e Berlim) mudem de opinião, abandonem os seus próprios interesses nacionais ou eurocráticos, e decidam federalizar a experiência europeia, ou então que exista uma crise de tal forma grande que provoque a própria implosão da União Europeia. Sinceramente, acho que é muito mais provável a segunda do que a primeira.



E no meio está o Reino Unido. A sabedoria do seu povo conseguiu travar os devaneios da sua tecnocracia, impedindo assim a entrada desse poço de desespero que é o Euro. Com isso, o Reino Unido conseguiu manter um resquício de independência democrática. Ao contrário de Portugal, ou de qualquer outro país amarrado pelo Euro, o Reino Unido pode abandonar esta construção que há muito abandonou os seus princípios fundadores, sem que tal provoque uma crise económica e social de tal forma gravosa que inviabilizasse a sua saída. Em termos simples, a União Europeia é um barco que se está a afundar e os britânicos ainda podem sair nos seus salva-vidas. Nós, os da Zona Euro, já não.



É natural que este referendo britânico provoque sentimentos de inveja junto dos restantes povos europeus. Para muitos, que nunca foram directamente tidos e achados no processo de integração europeia, o simples facto deles poderem exprimir a sua opinião de forma livre, e com resultados concretos, mete inveja. Caso decidam sair, a inveja será ainda maior. Enquanto nos afundamos lentamente, eles estarão livres para fazer o seu próprio destino, sem as ideias utópicas originárias, e impostas, por uma elite que nunca deve ter sonhado com a fraca qualidade dos seus sucessores. Na hipótese remota da União Europeia conseguir endireitar o barco, é natural, e expectável, que o Reino Unido volte a pertencer ao clube europeu, se isso for do interesse dos seus cidadãos. Não acreditemos na retórica inflamada dos eurocratas. A União quererá sempre que o Reino Unido volte a entrar, visto que o objectivo último é a hegemonia de todo o continente.



Mas, a decisão dos britânicos parece estar claramente encaminhada para a permanência, por isso nada disto acontecerá. Continuaremos a ter companhia dos fleumáticos britânicos, enquanto a União vai lentamente cada vez mais ao fundo. E com eles sempre com um olho nos seus salva-vidas…



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«As circunstâncias são o dilema sempre novo, ante o qual temos de nos decidir. Mas quem decide é o nosso carácter.»
- Ortega y Gasset

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