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365 forte

Sem antídoto conhecido.

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20
Nov14

De que PS o país não precisa?

David Crisóstomo

A seguir, insinua, revelando uma pulsão inquisitorial que as ortodoxias inevitavelmente incentivam, que a explicitação de uma qualquer dúvida em relação ao sucesso eleitoral absoluto da nova liderança socialista constitui uma manifestação inaceitável de derrotismo partidário. Opta depois por vituperar uns supostos ziguezagues, que aliás é incapaz de enunciar com clareza, apelando a que os mesmos sejam devidamente vergastados no próximo conclave socialista. É que para ele a vitória de António Costa significa a recusa de um PS reduzido ao exercício de uma simples oposiçãozinha. Não, o país carece de uma oposição a sério, sólida, profunda, fracturante, que o promissor político portuense enuncia com uma clareza desarmante: ele quer um PS empenhado na recusa do Tratado Orçamental, numa revisão do Código do Trabalho, na revalorização do Estado e na renegociação da dívida impagável, voltado para uma reforma fiscal que penalize mais o capital do que o trabalho. Se não estou enganado, este programa já existe e é da autoria do Bloco de Esquerda (e, como é óbvio, nem tudo o que é preconizado merece a minha discordância). O que suscita a minha mais viva apreensão é o conjunto do programa preconizado, a que só falta aliás um ataque descabelado ao Tratado Comercial Transatlântico que está presentemente a ser negociado entre a União Europeia e os Estados Unidos."

 

O autor deste excerto, publicado na imprensa escrita, é um velho dirigente socialista portuense destinado a exercer neste curto prazo umas certas responsabilidades no plano europeu. Se o cito é porque descortino no seu pensamento algumas das principais características configuradoras da identidade de uma corrente política que me suscita enorme apreensão, pelas razões que passo a apresentar: insuportável arrogância moral, indisfarçável propensão para o desprezo doutrinário, preocupante valorização de uma linguagem tecnocrata em detrimento da argumentação racional, inquietante e enorme incompreensão da realidade contemporânea. Se virmos bem, estamos perante um discurso construído a partir de clichés, de antagonismos puramente retóricos, de proclamações integralmente vazias.

Comecemos pelo que me parece mais deplorável: a tentativa de desqualificação intelectual e moral de qualquer posição que se afaste de uma antiga e diluída visão intelectual do socialismo. O velho autor do texto não faz a coisa por menos – considera absurdo um post no facebook de quem defendia o perigo e as desvantagens para o país de uma coligação futura entre o PS e o PSD, e coloca mesmo essa posição num domínio situado para além de qualquer possibilidade de compreensão lógica. Identifica aliás essa expressão de irracionalidade como uma obstinação ideológica, uma espécie de desvario mental, portador de perigosas implicações. Contínua, revelando a falta de visão politico-ideológica que as tradicionais gerentocracias europeias do centro-esquerda foram nos últimos anos incentivando, que a explicação de uma qualquer questão em relação ao desaire eleitoral de uma antiga liderança não está relacionada com a análise e pensamento político por esta difundido e cultivado. É que para ele a vitória de António Costa não significa a recusa de um PS reduzido ao exercício de uma simples oposição. Não, a oposição do anterior secretariado já era claramente uma oposição a sério, sólida, profunda, imensamente fracturante, que o decepcionante político portuense enuncia com uma clareza desarmante: uma oposição que não deixou de apoiar, ou de se violentamente abster, em diplomas-chave da política de austeridade da actual maioria parlamentar, com algumas delas a virem mesmo a ser declaradas como incompatíveis com a lei fundamental do país; o velho eurodeputado classifica a rejeição dessas medidas como algo próprio da esquerda radical (e, como é óbvio, não fundamenta esta sua opinião) e que só faltaria haver quem questionasse a absoluta bondade do Tratado Comercial Transatlântico. O que está em causa não é de somenos importância: a prevalecerem estas visões, o PS renegaria o essencial da sua trajectória histórica enquanto grande partido do centro-esquerda e autocondenar-se-ia a um estatuto de absoluta irrelevância no plano nacional e europeu. Para além de que em nada contribuiria para a superação dos verdadeiros problemas que um capitalismo desregulado provocou e tem vindo a provocar. O país não precisa de um PS iludido com a perspectiva de uma direita amestrada, iluminada e arrependida. O país carece de um PS empenhado na enunciação de um programa de governação sério, credível e exequível, que consiga não só desfazer os recentes sucessivos ataques ao Estado Social português, como trilhar um caminho para o seu fortalecimento futuro, batendo-se assim por um crescimento económico sustentável e pela continuação do desenvolvimento socioeconómico do país há 40 anos iniciado. António Costa deu provas de que não concebe outro caminho que não seja este. Ainda melhor.

 

 

Ah, como tenho aparentemente mais educação que o autor aqui citado, identifico-o como sendo o Francisco Assis. E o texto que o deixou em fanicos foi o do Tiago Barbosa Ribeiro

 

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«As circunstâncias são o dilema sempre novo, ante o qual temos de nos decidir. Mas quem decide é o nosso carácter.»
- Ortega y Gasset

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