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03
Fev

Da lealdade partidária

por David Crisóstomo

 

"Para o PS, o Estado de Bem-Estar, também chamado Estado Social ou Estado-Providência, representa uma conquista histórica das forças democráticas e um pilar indispensável da democracia e do desenvolvimento. A sua forma não é estática nem imune à crítica, antes carece de profunda reorganização, à luz dos novos desafios colocados pelas economias e sociedades do nosso tempo. Mas só é possível reorganizar o Estado de Bem-Estar se o defendermos e renovarmos, com determinação. As políticas para a promoção do trabalho, do emprego e do bem-estar, a protecção social, a redução de desigualdades e a justa repartição de rendimentos, constituem orientações essenciais para o Estado democrático, tal como o PS o concebe. Neste termos, o PS defende que as políticas e os serviços públicos são essenciais ao desenvolvimento e à promoção da coesão social, em diferentes áreas, com particular destaque na provisão de serviços básicos e nos sectores sociais, educativos e culturais. A acessibilidade e a qualidade dos serviços públicos constituem uma responsabilidade indeclinável do Estado."

 

Assim começa o 9º parágrafo da Declaração de Princípios do Partido Socialista. E aqui o cito com o propósito de relembrar a muitos aquilo a que o PS deve ser de facto leal. Deve ser leal a estes valores, a estas causas, a estas lutas e conquistas. Deve apoiar quem por elas batalha, seja em Portugal seja noutra parte do globo. Deve ser solidário com aqueles que, por via do combate político, foram derrotados nas urnas, no sufrágio eleitoral popular. 

 

Deve também assim distanciar-se daqueles que claramente demonstraram publicamente que abandonaram as causas que outrora defenderam. O PS não deve, assim, qualquer lealdade ao PASOK, que, coligado com um partido de direita, implementou e defendeu uma politica que arrastava e arrastaria o povo grego para anos de subserviência, de indignidade, de desespero, de destruição do tecido socioeconómico. O PASOK não perdeu eleições defendendo o reforço e a modernização do Estado Social, defendendo políticas que reduzissem as desigualdade de rendimentos, defendendo o reforço dos apoios sociais e do investimento público - o PASOK perdeu eleições defendendo o injusto programa de "ajustamento", defendendo a privatização e delapidação do sector público grego, defendendo o retrocesso nos programas de apoio social. O PASOK já não representava os ideais que o Partido Socialista português sempre defendeu no exercício do poder executivo e legislativo. E faz-me confusão como possam haver militantes do PS que achem o contrário ou que acreditem que a lealdade das famílias politicas é incondicional, onde as politicas aplicadas e defendidas são um factor acessório.

 

"A verdadeira e única lição que temos a retirar das eleições gregas é que o PS em Portugal não é nem será o PASOK, porque não estamos cá para servir as políticas que têm sido seguidas mas, pelo contrário, criar alternativa às políticas que têm sido seguidas" disse, e muito bem, António Costa. Na mesma linha das declarações do deputado João Galamba no final da reunião da Comissão Nacional do PS: a atual expressão eleitoral do PASOK é a consequência de "quem se alia a direita e pratica politicas de direita". Tão simples quanto isto.

 

Quem então melhor se aproximava dos ideias do Partido Socialista português nas últimas eleições gregas? Remeto-vos para o 13º parágrafo da Declaração de Princípios do PS:

 

"O PS acredita que é preciso ser-se radical na defesa da democracia, como sistema político fundado nos direitos humanos, na soberania popular, no primado da lei e na livre competição entre ideias e programas, e como sistema social que se baseia na iniciativa das pessoas e valoriza a diversidade e a diferença, o encontro e o respeito mútuo entre gentes e culturas, a expressão criativa e a participação e inovação social."

 

Tirem as vossas conclusões.

 

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4 comentários

De LNT a 03.02.2015 às 01:25

Por este raciocínio o PS deveria ter perdido a solidariedade (e lealdade) da Internacional Socialista quando fez uma coligação com o CDS e, depois, outra com o PPD.

Oxalá no futuro não venha a perder também essa solidariedade e lealdade dos seus Partidos irmãos se fizer qualquer tipo de acordo que caiba no raciocínio do autor deste texto.

De LNT a 03.02.2015 às 01:28

Quem não se lembra da expressão "socialismo na gaveta"?

De David Crisóstomo a 03.02.2015 às 01:53

(Queres ajuda?)

De David Crisóstomo a 03.02.2015 às 01:43

Olá Luís,

Por partes - a Internacional Socialista é capaz de ser o pior exemplo em "catalisador de solidariedades" para ires buscar. Como te relembraram no teu facebook, o próprio ex-líder do PASOK e Presidente da Internacional Socialista fundou no mês passado um novo partido e concorreu contra o PASOK. E para ser franco, dada biosfera da IS, não me parece que a pertença a esta deva ser factor para qualquer solidariedade - ou achas que o PS devia ter sido solidário com o Ben Ali quando este foi deposto pela recente revolução tunisina?

Sobre as coligações passadas do PS, pareces não ter percebido o ponto: não são os parceiros de coligação, são as politicas aplicadas e defendidas, é a desistência, a rendição à visão da direita europeia, ao glaucoma político que muito caracteriza estes anos recentes. São as políticas, pá. As políticas que o PASOK aplicou e defendeu. Ou achas que aquilo que último grego impôs à sua população é minimamente equivalente ao I Governo Constitucional ou ao IX Governo Constitucional da República Portuguesa?

Todavia, deixa-me ser claríssimo - se o PS algum dia na sua história vier a desprezar a sua história política tal como o PASOK desprezou a sua, espero bem que nenhum partido socialista europeu seja com ele "solidário". Eu sei que não seria.


Cumprimentos,

"o autor deste texto"

PS (pun intended) - recomendo muito este texto do Tiago Barbosa Ribeiro http://t.co/1kVRpoGeEQ

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