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05
Mai

Os anos de governação PSD/CDS foram marcados pelo uso eufemístico de algumas palavras: o newspeak criado por George Orwell em 1984, que se pode descrever como a reapropriação e recreação da linguagem comum para uso político e propagandístico. Exemplos comuns são a “requalificação”, o “ajustamento” ou a “recalibragem”.

O eufemismo mais avassalador tem sido a “austeridade”. Tomou conta da política e das nossas vidas, e a carga semântica que foi acumulando tornou-o um vocábulo tão polissémico quanto concreto, cada um de nós sabendo exactamente o que significa, o lastro que arrasta.

A “austeridade” nada pode ter de errado. Quem é austero é controlado, racional, pragmático. Historicamente, a austeridade tanto é luterana (uma vida de excessos não se coaduna com as virtudes que um deus espera dos seus crentes) como bem portuguesa. Recorda-nos Salazar e o seu “pobres, mas honrados”. Regrados, controlados. Salazar, o homem que, apesar de ter os cofres cheios de ouro, sempre viveu de forma humilde.

O eufemismo tem servido na perfeição as intenções do Governo. A austeridade precisa de culpa para ser aceite. A mensagem é clara: os portugueses que andaram a “viver acima das possibilidades” teriam de sofrer pelos pecados cometidos. E assim tem sido.

Mas o que é afinal a “austeridade”? Nada mais que uma transferência de rendimento do factor trabalho para o factor capital. O enfraquecimento do Estado Social tem avançado lado a lado com o aumento da desigualdade. Na Saúde, cortou-se até ao osso, e o caos que neste momento se vive nos hospitais públicos anda a par com o florescimento da oferta na Saúde privada e com um aumento exponencial das vendas dos seguros de saúde. Na Educação, o início de cada ano escolar tem sido marcado pela confusão, e é por isso natural que muitos pais optem por inscrever os seus filhos em escolas privadas, muitas das quais já são financiadas pelo Estado, através de contractos de associação fraudulentos. O próprio papel redistribuidor e de protecção da Segurança Social foi desvirtuado, e, ao mesmo tempo que são cortados subsídios e pensões, aumentam as transferências para as instituições particulares de solidariedade social (IPSS), herdeiras da “caridadezinha” de outros tempos. Além disso, cerca de 1000 milhões de euros do orçamento da Segurança Social são gastos em programas de inserção no emprego que não passam de subsídios directos às empresas. Neste momento, os impostos dos trabalhadores portugueses (o IRS subiu de forma imparável) estão a pagar salários no privado e a financiar a descida do IRC, contribuindo deste modo para o lucro das empresas. Transfere-se rendimento das mãos dos trabalhadores para as mãos dos patrões e dos accionistas, numa pornográfica inversão da redistribuição de riqueza que o Estado Social pressupõe.

A austeridade tem servido assim não para controlar as contas do Estado (a dívida pública dilatou-se a um ritmo acelerado), mas para desequilibrar a balança a favor de quem mais tem. É por isso normal que estes anos de austeridade tenham sido também os anos em que o fosso entre ricos e pobres mais cresceu. Sob a capa do virtuosismo cristão e abnegado, esconde-se uma história antiga. Aceitar a austeridade é aceitar que a mobilidade social e a igualdade nunca serão possíveis e que estamos condenados a não esperar mais do que aquilo que temos. A agenda da direita sempre foi essa. E os eufemismos ornamentam e fortalecem este discurso de ocultação e de propaganda.

 

(Texto publicado inicialmente no site do Livre/Tempo de Avançar.)

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8 comentários

De Joe Strummer a 05.05.2015 às 17:43


Descrição perfeita do descalabro. Vamos a soluções, o mais correcto será só olhar para a parte mais pobre, a maior e que mais sofre desde tempos imemoriais (sem ironia) e aplicar reformas descontextualizadas só tendo em vista o reequilibrio puro e funcional ? Ou será mais correcto reequilibrar tendo em conta uma visão mais holistica e comunitaria tendo em conta as envolventes limitativas criando novas dinamicas e evitando rupturas?

Uma coisa é certa o equilibrio tem de ser feito.O que faz a necessidade de Deuses são os desequilibrios e o mercado da pobreza é explorado por pastores laicos e religiosos, ie, à esquerda e à direita.

Newspeakers corner pode ser um bom eufemismo para o Observador ( e todos os outros, claro)

De Sérgio Lavos a 05.05.2015 às 18:24

Tem de se atacar aquilo que é mais urgente e mais grave: a pobreza e o desemprego, durante uns tempos sacrificando défice e dívida. Ao mesmo tempo, reestruturar economia (atacar o desemprego passa por aqui). O Estado Social não deve ser um projecto da esquerda apenas por ser mais justo ou humano, mas também porque economicamente é o que faz mais sentido. Os anos de maior crescimento no mundo ocidental coincidem com a difusão Estado Social, depois da Segunda Guerra Mundial.

De Joe Strummer a 05.05.2015 às 19:01

Quanto aos remedios, de acordo. E só se sai disto com investimento publico, na ciência e em areas-chave de ponta para fixar cerebros.

Não esquecer que o crescimento pós-guerra não foi global, foi principalmente ocidental. Foi assimétrico. No entanto acho que a própria noção de crescimento como é analisada hoje não é benefica ao estado social, pelo contrario, destrói-o. Não existe crescimento eterno sem ser à custa do estado social e dos mais fracos. Tem que haver outras formas de medir o crescimento e o PIB de modo a integrar valores qualitativos mais realistas da evolução de um país.

De Aerdna a 06.05.2015 às 09:00

O texto é muito bom na forma como descreve o que ocorreu desde 2008. Quando os jogos na banca descapitalizaram os mais ricos, eles reorganizaram o "tabuleiro" para colocar os mais pobres a enriquecê-los novamente. O seu texto descreve quais os processos de manipulação das massas que serviram esses propósitos.
Não sou especialista em política, apenas uma cidadã presa num jogo e obrigada a jogar sem nenhuma hipótese de ganhar. Nunca entendi, muito bem a direita e a esquerda!
O que eu entendo, é que não interessa de que lado esteja o jogo, se não existir responsabilidade legal dos jogadores políticos, o jogo nunca vai ser minimamente justo. E é isso que deve mudar, só para começar.
Vivemos numa democracia, dizem. Vivemos em liberdade de escolher o governo, dizem. Será que sou só eu que acha que até isso é manipulação e teatro ir lá colocar a cruzinha? Porque vamos às urnas, eleger um governo, baseados em pressupostos que são mentiras. As campanhas eleitorais consomem milhões de euros para MENTIREM. Seria uma democracia, se os povos elegessem os seus governos com base nos programas que realmente iriam colocar em prática, e para isso a lei devia ter formas de auditar e obrigar a que assim fosse.
Se realmente vivessem em democracia, os impostos deviam antes de mais sustentar os três pilares: a saúde, a educação e a justiça e só depois tudo o resto. Por lei devia ser proibido investir dinheiros públicos em outra coisa enquanto os pilares não estivessem assegurados.
Isto porque a camada empresarial portuguesa, acomodou-se ao subsídio. Os empresários portugueses não sabem na sua grande maioria ser competitivos no exterior, porque não precisam. O Estado subsidia. Quem é que se esforça, por alguma coisa se a pode conseguir preenchendo uns papéis e almoçando com este e com aquele? Ninguém. É como os filhos, se o pai lhes dá o dinheiro, não precisam de se esforçar por o conseguir.
O Estado fazia, um favor à nação deixando de subsidiar a torto e a direito. Deixem os empresários irem realmente à luta, deixe-os desenvolver a astúcia comercial a criatividade. Amanhã todos ganharão com isso. Serão empresários mais preparados, mais competitivos e com bagagem para levar finalmente Portugal para o exterior.
Em Portugal, chegou-se ao cúmulo (e sei que o problema não é só português) de os empresários nem sequer se preocuparem com o funcionamento são da empresa no mercado, basta declarar prejuízos e o contribuinte paga: estou a referir-me aos acordos que têm acompanhado as privatizações e PPP. É com este tipo de empresários e investidores que vamos enfrentar o futuro?
Assim, desistam. Já perdemos!
Fica a opinião de alguém que não entende nada, mas se vê obrigada a jogar porque coabita com esta realidade.
Boa semana!

De Pedro Andrade a 06.05.2015 às 12:35

A sua definição de "Austeridade" é propaganda tendenciosa.
Uma atitude de austeridade pode ser voluntária ou forçada.
Sendo voluntária, revela controlo, racionalidade e pragmatismo, para conformidade com os adjectivos que utilizou.
Sendo forçada, revela apenas falta de dinheiro.

Agora escolha a que achar mais correcta para explicar o momento que vivemos.
Eu acho que é simplesmente falta de dinheiro.
E convém lembrar que a austeridade que se abateu sobre Portugal resulta mais do endividamento das famílias do que dos cortes no orçamento de estado.
Com uma grande parte dos rendimentos das famílias destinados ao pagamento de créditos (casinhas, carrinhos, moveizinhos, feriazinhas,...), é natural que a economia sinta a falta de liquidez.
Convém lembrar também que a dívida dos privados (famílias e empresas) é superior a 300% do nosso PIB.
A dívida do estado é apenas metade da dívida dos privados.
Por outro lado, não há inocentes porque todos usufruímos do endividamento do estado ao longo de décadas e nunca soubemos privilegiar em eleições legislativas aqueles que prometiam menos e que lançavam os seus avisos.

De Joe Strummer a 06.05.2015 às 13:41


Esta austeridade é ideologica, não uma necessidade e muito menos a expiação de uma culpa.
De resto o sistema capitalista financeiro baseia-se no credito, e ele voltará em força. Até já se começam a ver os financiamentos para compra de carro a reaparecer e segundo sei a Cofidis, o BNP .a GE Money etc, ainda não se foram embora, estão simplesmente à espera de melhoras.A unica forma q as pessoas tinham de participar ou ter algo do admiravel mundo que lhes vendiam todos os dias era atraves do credito, por isso a melhor forma de não cair na armadilha do crédito é aumentar os rendimentos das familias na medida do possivel, não a sua contracção. Investimento publico, como fizeram os EUA.
A treta da austeridade "hayekiana" foi usada simplesmente para transferir recursos do publico para o privado, das pessoas para as empresas, como o post explica bem. A Europa assustou-se com a China e tem ao volante a pior
tripulação dos utlimos 100 anos. Germanwings.

De Pedro Andrade a 06.05.2015 às 14:03

Bela doutrina. Tudo certo, mas quando a capacidade de endividamento desaparece, essa doutrina vale zero. Tudo é dinâmico e agora estamos na fase de pagamento dos créditos acumulados. Daqui a 10 ou 20 anos, quando as famílias começarem a respirar, entraremos outra vez noutro ciclo de endividamento.
Até lá, esses exemplos de que fala são casos pontuais que estão a acontecer sobretudo porque os juros estão demasiado baixos, o que não vai durar muito.
Só vejo culpas no povo.
Os capitalistas fazem o que devem fazer e o povo que se proteja se quiser.
Só criamos responsabilidade quanto atribuímos responsabilidade, e essa teoria da máquina capitalista que controla as massas, além de totalmente errada, só contribui para a desresponsabilização do povo.
O discurso deve ser este: pediu emprestado? então agora sofra!
Só assim se ensina e só assim se aprende.

De Joe Strummer a 06.05.2015 às 17:00


Claro. O melhor mesmo é meter essa chusma em campos de reeducação.

Amoralismo sociopático, trendy.

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