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01
Out

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Não sei se já limparam a parede, mas até há pouco tempo esta era a frase pintada na casa onde Agostinho da Silva viveu, ao Príncipe Real.

Nas últimas eleições legislativas, dos 9 626 305 eleitores recenseados, mais de quatro milhões foram abstencionistas (41,97%). Praticamente metade dos que tinham direito a fazê-lo optaram, pelas mais variadas razões, por não votar. As sondagens ou tracking polls que têm vindo a público nos últimos tempos, diárias desde o início da campanha eleitoral, têm revelado resultados absolutamente inacreditáveis tendo em conta o que foram os últimos quatro anos de legislatura desta coligação. Tomando-os como verdadeiros (que faço com sérias reservas, quanto mais não seja pelo princípio de poder colocar tudo em causa), e apesar de não os compreender, aceitá-los-ei com todo o espírito democrático, embora consciente que o sofrimento possa continuar (se não piorar). O que não compreendo e não consigo aceitar é que a abstenção continue tão elevada como em 2011.

Os abstencionistas, regra geral, recorrem quase sempre às mesma justificações: "não faço a mínima diferença", dizem os derrotistas; "os políticos são todos iguais", concluem os desinformados; "fazem quase sempre o contrário do que prometem", acrescentam os conformados. Mas o pior argumento de todos, o que realmente me choca, é quando se ouve o desinteressado dizer que "não ligo para a política". Aquele a quem Bertold Brecht apelidou de analfabeto político. Como se política fosse reduzida a quadraturas de círculos, swaps, resgates financeiros, plafonamentos e escalonamentos de impostos e mais uma trapalhada de informação que, acredito, baralhe o mais comum dos cidadãos. Política é, também, o escrutínio a quem tem o dever de representar o país e tomar decisões em nome de todos. Abster-se de tomar partido nessa escolha é deixar à mercê dos outros, dos que votam, a sorte do seu próprio destino. Pior: é passar um cheque em branco ao vizinho, que por infelicidade até é xenófobo e homofóbico e que vai votar no partido no qual jamais nos passaria na cabeça fazê-lo.

Restam sempre duas outras alternativas. Sim, há sempre alternativa. Jamais se deve acreditar em inevitabilidades. O Homem só conhece uma e dessa ninguém está livre. Há o voto nulo, que pessoalmente considero uma infantilidade (salvo os casos das cruzes mal feitas), daqueles que gostam de fazer obras de arte ou escrever mensagens nos boletins. Por mais originais que sejam, divertem apenas quem conta os votos e, eventualmente, os seus círculos de amigos mais chegados. Dão sempre boas anedotas. Há também o voto em branco. E quem leu o Ensaio sobre a Lucidez de Saramago sabe que a mensagem é bem mais do que subliminar.

Se não se enquadra em nenhum destes casos e, mesmo assim, insiste em abster-se de um direito cuja universalidade foi muito difícil de conquistar, saiba que não passa de um sonâmbulo político. É, em tudo, idêntico ao sonâmbulo tradicional: sai da cama, anda, come, realiza as mais comuns tarefas diárias e até necessidades fisiológicas faz enquanto permanece inconsciente. Tal como no sonambulismo, e ao contrário da crença popular, não é perigoso acordar. Podem ficar, igualmente, confusos ou violentos, com o despertar, mas apenas por tomarem consciência do que (não) fizeram até então.

Para todos, uma mensagem de Agostinho da Silva: "Eu não voto por rótulos. Eu não quero saber das campanhas eleitorais para nada. Eu quero saber das ideias que as pessoas têm e da maneira como depois as vão defender e praticar".

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7 comentários

De Makiavel a 02.10.2015 às 10:00

O nível de abstenção também pode ser explicado pela desactualização dos cadernos eleitorais. Posso estar enganado, mas os portugueses que emigraram nestes 4 anos engrossarão as fileiras dos abstencionistas.
A existência das chamadas sondagens diárias também contribuirá para manter o nível de abstenção elevado: a sensação de que "está tudo resolvido", "basta ver as sondagens" e "não vale a pena lá ir" é patente.
Por último, talvez fosse tempo de rever a lei eleitoral e alterar o modelo arcaico de eleição por círculos eleitorais. Por exemplo (e apenas um exemplo), um simpatizante do BE em Viseu, de nada lhe vale ter gostado do desempenho da Mariana Mortágua no Parlamento: o seu voto dificilmente elegerá um representante da sua simpatia. Isto é válido para todos os novos partidos: Livre/TdA, Nós Cidadãos, PAN, PDR. É nesta sensação de voto inútil que lavra o desinteresse pela política. É tempo de considerar a existência de um círculo nacional, onde todos os votos contam. Um mix de método de Hondt e eleições presidenciais.

De Luís a 02.10.2015 às 11:08

A juntar todo o desinteresse descrito, números da abstenção estão também intimamente ligados à emigração e mobilidade da população. Numa era de informatização não se compreende que tenhamos que votar na junta de freguesia onde estamos recenseados, penalizando então todos aqueles que dificilmente poderão lá se deslocar. E falo no meu caso como exemplo, açoriano, tive que me deslocar a Lisboa por razões profissionais e assim farei parte de abstenção, contra meu desejo.
Concordo no entanto com tudo o que escreve. Vou até um pouco mais longe... É um o adormecimento e desinteresse pela própria vida e felicidade do próprio e dos outros.

De Lev a 02.10.2015 às 12:13

Pegando na citação de Agostinho da Silva, é justo sublinhar que entre a coligação e o PS, únicos concorrentes que podem aspirar à vitória eleitoral, só este último apresentou ideias. A coligação, literalmente, não mostrou a cara e não disse nada.
Paradoxalmente, o PS arrisca-se a perder as eleições (também) por ter apresentado um programa e, bem ou mal, a respectiva fundamentação.
Estou à vontade para fazer esta afirmação porque, como sempre, vou votar; mas não no PS e, obviamente, também não na direita

De Miss F a 02.10.2015 às 16:01

Discordo só de um ponto neste texto - o voto nulo ser infantil. Pela primeira vez desde que voto estou a ponderar votar nulo. E porquê nulo e não em branco? Já ouvi histórias sobre boletins em branco que algumas canetas distraídas podem transformar em voto no que mais convém. Se é teoria da conspiração? Até pode ser, mas desde os 18 anos que me inscrevo para estar nas mesas de voto e nunca fui chamada, estas são sempre compostas por membros designados pelos partidos. Sabendo isto prefiro fazer um traço ao comprido em todas as opções do que correr o risco de poderem votar por mim.

De Joe Strummer a 03.10.2015 às 15:31


Bom, corajoso e avisado comentário.

De Joe Strummer a 02.10.2015 às 16:04

Cronicas de agressão deslocada

"..e eis que quase ao cair do pano, com as expectativas frustradas, aparece ao longe o verdadeiro culpado. Porque é que nunca se tinha lembrado disso antes? Só podia ser o mesmo facínora que arruinara a herança da família ao viver acima das suas possibilidades. Esperara dissimuladamente o tempo todo arquitectando em segredo o plano para a sua vingança."

Autor: Hubs Tencyo Neesta

A culpa de um dezzejo não cumprido,Zzzzzzz... não é de quem o prometeu cumprir...zzzzz... ah! perdão!, é sempre de quem não foi na conversa ou sequer tem..zzzzz... qualquer dezzzzzejo para cumprir. O não desejo não é cool ...zzzz... e acaba sempre mal, que o diga o zzz Kurt Cobain zzzzzzzzzz

E não se esqueçam, para a mensagem ser mais subliminar, não votem branco, votem rosé.



De Jaime Santos a 02.10.2015 às 16:07

Duas notas. Relativamente a questão do voto eletrónico, ele ainda não foi adotado em nenhum País, porque se levantam sérios problemas relativos a proteção do sistema contra fraudes, seja a garantia de inviolabilidade, seja a garantia do carácter secreto do voto. Basta lembrar as dúvidas que o uso de máquinas de voto mecânicas ou eletrónicas levantaram nos EUA em 2000 e 2004. Mas o voto antecipado é permitido, e o Luís deveria tê-lo requerido. Quanto a ideia de um círculo nacional, se os círculos distritais já afastam os eleitores dos eleitos que fará um circulo nacional, mesmo que o voto seja preferencial (imaginem um Quintanilha a percorrer o Pais em busca de votos, p.e.). Existem sistemas que combinam círculos pequenos com um circulo nacional e que permitem reciclar votos (sistema alemão e dinamarquês, creio).

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