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20
Out

Acordo sinistra

por CRG

"After all, what is travel — or life, for that matter — but a continuing negotiation between expectation and reality?"

Rachel Donadio

 

Sempre fui céptico em relação a um acordo governativo de esquerda. Pensava eu que  do lado do PS as negociações serviriam para ter uma posição de força perante a PAF, enquanto do lado do BE e da CDU haveria necessidade de colocar junto do eleitorado o ónus no PS pela quebra do eventual acordo.

 

Agora que o acordo está próximo, socorrendo-me das práticas milenares dos cronistas, vou analisar a posteriori as razões pelas quais este acordo era afinal inevitável:

 

Apesar do seu segundo pior resultado de sempre, se um eventual governo minoritário PSD/CDS fosse empossado e posteriormente derrubado, nas próximas eleições existiria um forte apelo ao voto útil, legitimado pela experiência recente. Assim, a única forma de o BE e a CDU não perderem os ganhos das últimas eleições é darem apoio a um governo do PS.

 

Do lado do PS, um apoio a um governo de direita reforçaria a posição que se tenta vender de que não há nada de substancial a distingui-lo dos partidos à sua direita. Resultado: perderia votos quer para a sua esquerda quer para a sua direita.

 

A sobrevivência política da esquerda joga-se, portanto, na obtenção de um acordo de governo e eis que a necessidade concretiza o impossível: a TINA da esquerda derruba a PAF.

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21 comentários

De Carlos a 20.10.2015 às 19:40

Boa noite;

Não se joga a sobrevivência da esquerda , António Costa joga a sua sobrevivência.O PCP têm um eleitorado consolidado, mais um menos um por cento ,a sua base eleitoral nunca mudará muito. O BE é mais flutuante, dependendo da ocasião e essencialmente do carisma de quem está à frente dos destinos do PS. Com a provável associação que se vislumbra se verá se a esquerda sobrevive ou se o PS se eclipsa. Aliás , o ódio manifestado por BE e PCP a Passos Coelho não foi menor que o manifestado contra Costa.Aguardam-se as cenas dos próximos capítulos...

De Jaime Santos a 20.10.2015 às 20:02

Eu ainda quero ver as bases do acordo, que espero seja para quatro anos. Se incluir o BE e o PCP na solução de governação, melhor ainda, para sofrerem solidariamente o desgaste que necessariamente se seguirá. Mas julgo que Costa fez corretamente a leitura dos resultados eleitorais (a sondagem da Intercampus não revela nenhuma rejeição de um potencial acordo entre aqueles que votaram PS, quando muito há eleitores que votaram em pequenos partidos que votariam agora PàF, apesar do blitzkrieg mediático). A sangria eleitoral da Direita fez-se sobretudo para o BE (se foi de modo direto ou indireto é algo que está ainda por determinar) e um PS que servisse meramente de muleta de Governo estaria condenado a prazo a sofrer o destino do PASOK. Entre um declínio mais ou menos lento e uma aposta de alto risco, potencialmente suicidária, porque o é, Costa preferiu a segunda. Não creio que seja por instinto de sobrevivência política, ele não precisa da política para nada. O que nós não precisamos de todo é um regresso do PS das abstenções violentas (de lembrar que Seguro nem sequer requereu a fiscalização sucessiva de diplomas que se revelaram inconstitucionais). Quem quer um PS assim, pode votar no PSD, que é pelo menos mais genuíno nas suas convicções ordo-liberais.

De Carlos a 20.10.2015 às 20:24

Boa noite Jaime ;

Nessa sondagem faltam os votos das ilhas e dos emigrantes , se a tendência das eleições de 4 de Outubro se mantiverem , a Paf deve estar ainda mais perto ou mesmo com a maioria absoluta.Mas, independentemente desse facto, o que se verifica é que a Paf tornaria a ganhar as eleições, e desta vez ainda mais folgadamente. António Costa escolheu o seu caminho , seja qual forem as opiniões sobre os motivos que o moveram , estes resultados não abonam muito a favor do governo que aí vêm. Veremos se com a sua acção , essa tendência será revertida ou reforçada.

De Jaime Santos a 20.10.2015 às 20:33

Pela primeira vez, concordamos. Será preciso que o acordo seja sólido, que Cavaco dê posse ao Governo e que a Esquerda comece pela primeira vez a governar junta em 40 anos. The proof of the pudding is in the eating. Veremos...

De Joe Strummer a 20.10.2015 às 22:16

Come writers and critics
Who prophesize with your pen
And keep your eyes wide
The chance won’t come again
And don’t speak too soon
For the wheel’s still in spin
And there’s no tellin’ who that it’s namin’
For the loser now will be later to win
For the times they are a-changin’
Bob Dylan

Que a analise dos media seja conspirativa e paranoica, ainda(?) se compreende pela necessidade de sangue para fixar audiencias. Mas não consigo compreender porque as interpretacao de todos os actos politicos tenham que ver com motivos negativos, sem qualquer elevacao e sem um minimo de cedencia ao interesse comum. Just don't get it.

De CRG a 21.10.2015 às 12:04

Peço desculpa se fui demasiado cínico na análise. Não foi essa a minha intenção. Mas os resultados desta eleição demonstraram que a direita pode governar mesmo com o seu segundo pior resultado de sempre. O PCP e o BE corria o risco de permitir que a direita governasse eternamente com todas as consequências para os seus ideias de sociedade que defendem e o caminho ideológico que preconizam.

De Joe Strummer a 21.10.2015 às 13:22


Nada disso, o teu ângulo de analise é excelente, como sempre. Não concordo é com a valorização e/ou sobreposição de eventuais motivos defensivos em detrimento da verdadeira historicidade do momento. O passo dado pelo PCP, que foi o impulsionador desta possibilidade, é imenso. Claro que como instituições de poder, os partidos fazem contas e cálculos, por vezes tantos que se esquecem precisamente dos seus fins ideológicos. Desta vez não aconteceu. A esquerda não podia falhar pela segunda ou terceira vez consecutiva.

A outro nível, mais genérico, e como desabafo, é arrepiante ver que Marcello, mesmo que não ganhe as presidenciais,já ganhou. O seu olhar mecanicista e videirinho sobre a politica é hoje replicado até à nausea, pelas redes sociais, jornalismo e até academia. Houve uma "desalfabetização" politica assinalável que medrou por falta da esquerda, ou melhor, pela sua divisão.

Proxima paragem Espanha.Para que a politica europeia e os constrangimentos financeiros possam mudar é essencial que a Espanha consiga eleger um governo à esquerda, ou com tendência à esquerda. Alias a possibilidade do entendimento à esquerda em Portugal ir para a frente já mereceu ataques vindos da cimeira do PPE, precisamente do lado espanhol. Sabem que a situação em Portugal pode encadear uma mudança em Espanha e, consequentemente, na geometria europeia. Muito está em jogo.

De CRG a 22.10.2015 às 10:59

Obrigado.

Sim, essa análise demasiado politiqueira tornou-se generalizada, uma tentativa de esvaziar a carga ideológica das discussões políticas. Mais uma manifestação de implementação da TINA.

Quanto à questão de Espanha: replica-se a situação com a Grécia. E entretanto irá existir um referendo no Reino Unido.

Tempos interessantes.

De Joe Strummer a 22.10.2015 às 16:11


Interessantíssimos! E já reparaste que a UE que foi criada para evitar futuras guerras continua com as mesmas fracturas da II GGuerra? A ocupação alemã da Grécia, o separatismo britânico (até sob um mesmo governo conservador), os aliados alemães a Norte, a impotência francesa, os gaulleiters do soberanismo alemão na peninsula Iberica com a "guerra civil" na Catalunha. A necessidade de reordenação do Médio oriente, a ameaça asiatica desta vez através da China. Venezuela, the new Cuba.
Vou apanhar uma avião para Casablanca e tomar um copo no Rick's;)

De Paulo Marques a 20.10.2015 às 23:19

"Apesar do seu segundo pior resultado de sempre, se um eventual governo minoritário PSD/CDS fosse empossado e posteriormente derrubado, nas próximas eleições existiria um forte apelo ao voto útil, legitimado pela experiência recente. "

Discordo por completo, com o défice deste ano e com o orçamento do próximo, bem como a continuação do falhanço total em qualquer tipo de meta, a narrativa da recuperação caia sozinha por completo.
Assim, ainda vamos ouvir que a culpa foi da esquerda, que isto ia tão bem... Preparem-se.

De Carlos a 21.10.2015 às 00:14

Boa noite ;


Ainda não são governo e já começam a querer arranjar desculpas ? Vão começar bem.
Segundo parece o défice de 2015 fica abaixo dos 3% , os dados económicos ainda que incipientes mostram uma tendência clara de inversão , crescimento continuado, descida do défice , melhoria das contas externas , melhoria da taxa de desemprego.Apesar de ainda andarmos sobre brasas inverteram-se as tendências, Pelo que li hoje que foi acordado com o BE , a reposição da totalidade dos rendimentos da função pública e o fim da sobre taxa de IRS , vão obrigar a desencantar uns 1,6 mil milhões de euros para o orçamento do próximo ano , isto se só ficarem por aqui,, mas pelo que se sabe vai haver mais.
Se fosse a si não me preocupava muito , o orçamento se aumentar o défice acima dos 3% é chumbado em Bruxelas , brevemente teremos o Dr. Costa a atirar as culpas para a união europeia. Déjà vu .... Alô , Alô Sr. Tsipras e Varoufakis .

De O verdadeiro Atento a 21.10.2015 às 00:49

Este ainda não percebeu que Costa não precisa de aumentar o défice para distribuir melhor o produto dos impostos. Basta reorganiza-los e pôr a pagar quem nestes ultimos 4 anos beneficiou do bodo aos ricos entregue de mão beijada pela Paf. Basicamente chegou a altura de deixar de chular os trabalhadores para passar a xular os empresários imprestaveis deste pais.Os mesmos que juram a pés juntos que a divida é para pagar...desde que não sejam eles a paga-la. Tem de calhar a todos. Temos pena.

De Carlos a 21.10.2015 às 08:14

Bom dia ;

Já se sabe que Costa tem uma rotativa na cave para imprimir notas.Está muito mal informado , ou será de propósito , sobre os impostos que se pagam em Portugal.Ainda ontem foi publicada uma lista dos países em que as pessoas de maior rendimento pagam mais.Portugal está em sexto lugar.
Dez por cento da população paga 90% dos impostos , não que isso por si só seja uma coisa boa , mas contraria o que diz. "Xulem" os empresários ,ou ainda melhor , ocupem as empresas. Este filme já foi visto antes com as consequências que se conhecem.Essa ladainha dos ricos que paguem a crise , não pagamos os empréstimos, etc, etc , leva a um destino , e o meu caro não deve ter assim tão grande dificuldade em descortinar qual é.
Nos países mais abastados o esforço que se fez foi para acabar com os pobres , porque quer você goste ou não , são os ricos e os tais empresários que lhe põem a comida na mesa.

De O verdadeiro Atento a 22.10.2015 às 23:54

São os ricos que me põem a comida na mesa?!
Não meu caro, é o meu trabalho, excessivo e mal pago, que põem a comida na mesa dos ricos.
Os ricos não são empresas de beneficiencia, estão no mercado para ganhar dinheiro e quanto menos na minha mesa me puserem mais a deles é farta. E é exactamente isso que procuram.
Esquecem-se é que numa economia de mercado, quem lhes consome os produtos, precisa de dinheiro para os comprar.
Não compare rendimento individual com rendimento empresarial, são coisas diferentes. Quem paga IRS neste país é quem trabalha por conta de outrém e pensionistas. E são estes que tem sido fustigados a um ponto absurdo, enquanto aos rendimentos do capital se dão descontos , créditos e benesses.
Nunca sugeri que se ocupassem as empresas , o argumentario que mete palavras na boca do adversário que este não pronunciou é um argumentario francamente infantil. O que se sugere é que quem passou incolume estes 4 anos e até ganhou com este estado de coisas, passe a pagar o que todos os outros já pagam, de forma a melhor se poder distribuir os sacrificios e de forma a que quem está a pagar a totalidade desta embrulhada possa pagar um pouco menos.
Está na altura dos empresários perceberem que a economia de mercado implica consumidores e que estes só consomem se tiverem dinheiro para consumir. Está na altura de perceberem que não podem embolsar como embolsaram durante os ultimos 4 anos. De novo...temos pena.

É o capitalismo, estupido !

De Carlos a 23.10.2015 às 00:55

Boa noite ;

Pagam impostos os assalariados e as empresas e se tiver oportunidade de criar uma , verá os descontos , o crédito e as benesses que vai receber.Possivelmente também deve ser contra às empresas terem lucro , parece que na Venezuela foi considerado ilegal.
Pelo menos nos últimos 4 anos não ganharam dinheiro à conta do estado e dos seus favores , como era costume na nossa praça com o manancial de obras públicas inúteis , e de empréstimos forçados da CGD , se o ganharam por terem arriscado o seu dinheiro estão de parabéns.Quando deixarem de haver capitalistas para nos "explorar" é que vai ser chato.

De Paulo Marques a 21.10.2015 às 02:28

Fica abaixo dos 3% com que contas? Não que o défice queira dizer grande coisa para mim, mas significa para a narrativa.
Agora, crescimento perto do zero, taxas de juro zero e inflação zero não significam recuperação para nenhum economista, muito pelo contrário, são claros sinais de pura estagnação de uma economia que está muito longe de chegar aos níveis pré austestupidez, quando mais aos níveis de 2007.

De Carlos a 21.10.2015 às 08:29

Bom dia ;

Claro que o défice para a esquerda não quer dizer nada , venha o dinheiro dos outros que nós gastamos com entusiasmo.Ficar abaixo de 3% significa acabarem um sem número de restrições impostas aos países com procedimento de défice excessivo.Restrições essas que obrigam os países a continuar com orçamentos de "austeridade" , que na Alemanha se chama "Rigor" e que você lhe chama de "austestupidez".O crescimento não é zero é de 1,6 , estimado para 1,8 no final do ano , essa comparação de dados em relação a 2007 não são sérias , esquece-se que o país foi à falência em 2011 , e como é evidente não foi por terem mudado o nome do primeiro ministro que o país deixou de estar falido. Possivelmente também comunga da opinião que nada do que foi feito era necessário , o primeiro ministro é que têm mau feitio , quis massacrar as pessoas e empobrecer o país para seu contentamento pessoal.

De Paulo Marques a 21.10.2015 às 10:03

Anda distraído, a austeridade é para todos os países, incluindo a Alemanha, onde os trabalhadores não são aumentados e têm cada vez menos direitos . Aprender economia pela propaganda e pelas projecções de quem não acerta uma não serve.
O zero lower bound está aí e ainda não se mexeu para lado nenhum, ao contrário das promessas.

De Carlos a 21.10.2015 às 10:20

Bom dia ;

Não é fácil responder a generalidades , não acerta em quê ? Não sei se o que diz sobre os trabalhadores alemães têm alguma base , como não estou informado sobre o assunto não opino , vou-me informar. O que há em todos os países é rigor , o tempo do dinheiro fácil chegou ao fim todos têm de viver de acordo com os rendimentos que geram.De qualquer forma , seria muito bom que em Portugal vivesse-mos como os alemães.

De Carlos a 21.10.2015 às 10:24

errata : vivêssemos

De CRG a 21.10.2015 às 12:14

Se a narrativa da recuperação cair qual a percentagem de votos dos 38% que iria para o o PS? A tendência seria a transferência para o PS dos votos do BE e, em menor medida, os do PCP. Foi esse o ponto do post sobre a necessidade de acordo.

Por outro lado, a simples alteração de governo não irá modificar muito o estado do país face aos constrangimentos europeus. Com efeito, a questão principal é perceber até que ponto será possível empurrar com a barriga o problema da dívida e dos desequilíbrios económicos e políticos existentes na UE. Será que esta irá mudar ou implodir. A ver vamos.

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